'Na China, o risco de ignorar as reformas é cada vez mais alto'

Especialista aponta déficit de legitimidade no Estado chinês, envolvido na renovação da cúpula do Partido Comunista

Entrevista com

CLAUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h06

Com um sistema político autoritário, opaco e ambíguo, a China é hoje uma grande exportadora de incertezas, afirma o australiano David Kelly, fundador da empresa de consultoria China Policy, com sede em Pequim. "O Estado chinês é faminto de legitimidade", disse o analista, mencionando uma das fontes da ausência de previsibilidade da segunda maior economia do mundo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que é razoável esperar dos novos líderes chineses?

Entre as coisas que a China exporta hoje está a incerteza. A natureza do sistema político e social é ambígua e, no futuro, continuará ambígua. Por isso é tão difícil entender o que significam as declarações dos líderes chineses. Eles vão reformar a economia? Nada está claro. O grande ciclo da política chinesa encerrou-se e há o começo de um novo. Mas, diferente dos EUA, na China não há plataforma, agenda ou programa.

Há mais incerteza do que há dez anos, quando Hu Jintao chegou ao poder?

Sim, porque nesse período a China tornou-se mais poderosa econômica e militarmente. A China acumulou grande influência e passou a fazer parte de vários organismos internacionais. A China tem todo o direito de ser estrategicamente ambígua, como a maioria das potências é. Mas, em razão da configuração dos fatores sociais e políticos na China, a incerteza é amplificada e projetada para o exterior.

Por exemplo?

A internacionalização das empresas chinesas para encontrar mercados, recursos naturais e diversificar riscos. Isso amplifica a incerteza global porque a natureza das corporações chinesas é ambígua. É diferente do restante do mundo, onde há multinacionais gananciosas, que se preocupam com lucros e fazem todo o tipo de coisas ruins. Todos sabem exatamente quais são suas intenções. Não há muitos segredos sobre quem são seus donos. As corporações chinesas são anfíbias, não sabemos se elas estão no mercado ou são parte do governo.

No Brasil, cresceram os investimentos de grandes corporações chinesas. Quais os riscos?

O risco é elas se valerem dos modelos e práticas que adotam dentro da China, onde podem passar por cima das pessoas. Países pequenos, em desenvolvimento, que têm recursos limitados de governança, estarão sob pressão das empresas chinesas. Acredito que o Brasil tenha mais recursos e uma governança mais sólida. No entanto, até na Austrália estamos sentindo a pressão. Os partidos políticos começaram a se dividir entre os que são a favor e os que são contra. Todo um setor da economia está ligado ao ciclo econômico da China e tornou-se um grupo de lobby dos chineses, que está ganhando uma poderosa voz na política local. A Guerra Fria foi um período de grande tensão, mas de grandes certezas. Todos sabiam claramente o que era a União Soviética e o Ocidente. Agora, eles estão se entrelaçando, o que torna o mundo mais complexo.

Há disposição entre os novos líderes para reformas?

É certo que voltaremos a um período de reformas, mas elas serão profundas o bastante? Os riscos de não realizá-las estão se tornando altos. Alguma coisa tem de ser feita na economia, mas ela é ligada à política. Com o aumento do impacto econômico da China e a redução do poder do Ocidente, falou-se do "modelo chinês", que teve seu apogeu há um ano. Com ele veio a ênfase em fazer as coisas do jeito chinês, afastar o estado de direito, colocar advogados na prisão.

Quais os fatores internos de incerteza na China?

Existem três fontes principais. Uma é a identidade nacional. "Quem somos nós?" Há cem anos, o "nós" excluía manchus, mongóis e tibetanos. Agora, eles fazem parte da China, mas não têm direito de falar, porque são os "irmãos pequenos". Isso é confuso e não está resolvido. Outro ponto é a unidade nacional. Você aceita a ideia do "eu sou chinês porque sou membro do Estado soberano da China", que tem uma fronteira. Essa é outra fonte de incerteza, porque eles não têm unidade, não têm Taiwan, apesar de todo o mundo dizer que só há uma China. A terceira é a questão da legitimidade. Por que esse sistema político? Por que essa elite? Talvez porque eu tenha herdado do rei ou fui eleito presidente. Mas não é por isso. É porque eles tomaram o poder.

É uma questão histórica?

Sim. O partido atua como o imperador costumava atuar. Faz as mesmas reivindicações territoriais. Mais especificamente, o Partido Comunista da China tende a monopolizar todas as fontes de legitimidade e não permitir a existência de outros setores que tenham sua própria legitimidade. Na Europa e nos Estados que derivaram dela, há uma tradição de separação entre Estado e Igreja. O rei tinha suas atribuições e o papa, as suas. Mas, na China, o imperador era as duas coisas. Se você tem o monopólio da legitimidade, também é responsável por tudo de ruim que ocorre. Você começa com um superávit de legitimidade, mas logo tem um déficit. O Estado chinês está sempre em déficit, é faminto de legitimidade, de um jeito que um sistema democrático não é.

Como amenizar as incertezas?

Eles têm de fazer algo ligado à identidade que dê a todos participação na sociedade e isso deve incluir tibetanos, trabalhadores migrantes, mulheres e todos os que estão em posição de desvantagem. O PC coloca ordem social no topo de suas prioridades e há muito empurrou a justiça social para o lado. Eles acham que tem de ser assim, do contrário haverá caos. Isso é coerente com o fato de eles dizerem que não pode haver democracia, estado de direito e liberdade. Para enfrentar a injustiça social, eles têm de transformar pessoas em cidadãos. Não é possível atingir justiça social de cima para baixo.

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