''Na China, partido já não crê em reformismo''

Para estudioso do partido, sobrevivência da legenda se deve à capacidade de adaptação, afetada agora por onda repressiva

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - David Shambaugh, professor da Universidade George Washington

Principal sobrevivente do cataclismo que dizimou o bloco soviético entre 1989 e 1991, o Partido Comunista da China deve sua longevidade a um coquetel que reúne uso da força, nomeações para cargos, crescimento econômico e flexibilidade. Mas a capacidade de adaptação que deu oxigênio à organização parece ter desaparecido em 2009, quando Pequim deu início à que se tornaria a mais violenta onda de repressão dos últimos 20 anos e passou a dar sinais de crescente insegurança.

O diagnóstico é de David Shambaugh, professor da Universidade George Washington e autor de um dos mais importantes livros sobre a organização que comanda a segunda maior economia do mundo:China''s Communist Party - Athophy and Adaptation (O Partido Comunista da China - Atrofia e Adaptação), publicado em 2007.

"O partido parece ter perdido a confiança em implementar seus ideais reformistas", disse Shambaugh em entrevista por escrito ao Estado.

Apesar disso, ele não vê nenhuma força que possa desafiar o monopólio do poder exercido pela organização, que completa 90 anos no dia 1º de julho. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Quais são os fatores que explicam a longevidade do Partido Comunista da China?

São quatro fatores principais: o total monopólio do poder, que não tolera qualquer tipo de oposição; um sistema de nomeação de pessoal que domina todos os empregos importantes do país; a performance econômica dos últimos 30 anos; e a flexibilidade e adaptabilidade.

Quão forte o partido é hoje?

Ele se mantém forte nessas quatro áreas, o que é suficiente para garantir sua permanência no poder, mas está perdendo muito de seu controle em âmbito local regional e sobre indivíduos na sociedade e dentro da própria organização. O partido também não tem uma ideologia convincente nem uma visão de futuro para a nação (além do aumento do poder e da força).

Acima de tudo, o Partido tem agido de maneira extremamente insegura nos últimos dois anos, com o aumento da repressão e recuo em reformas políticas, o que revela que o próprio partido não está tão confiante sobre si mesmo.

O que mudou em sua percepção do partido desde 2007?

A principal mudança é que o partido deixou de implementar uma série de reformas para aumentar a participação no topo do sistema - o que eles chamam de "democracia intrapartidária" e "democracia" e desencadeou o mais duro ataque contra dissidentes em 20 anos.

Isso ocorreu depois da Sessão Plenária do Comitê Central, realizada em setembro de 2009. Muito do processo de "adaptação" que estava em andamento entre 1997 e 2009 _e particularmente entre a 4ª Plenária de 2004 e a 4ª Plenária de 2009_ parece ter estagnado ou regredido. O partido parece ter perdido a confiança em implementar seus ideais reformistas.

O PC vai ser capaz de manter a adaptabilidade e resiliência que garantiram sua sobrevivência?

Creio que não. A manutenção da adaptabilidade e resiliência é o reflexo de um partido proativo e confiante, que está disposto a assumir a liderança e experimentar com o fortalecimento de diferentes setores da sociedade. Depois de setembro de 2009, o partido passou a agir exatamente da maneira oposta : repressivo, reativo e inseguro.

Existe algum movimento na direção de reformas políticas?

Há um movimento continuado em três áreas: expansão das eleições para comitês partidários nas vilas rurais e pequenas localidades; aumento da transparência no acesso do público aos orçamentos dos governos locais; e esforços dramático para aperfeiçoar a meritocracia em todos os níveis de sistema pessoal do partido e do governo.

O sr. espera alguma liberalização depois da sucessão?

Não, pelo menos não antes de dois anos, até que Xi Jinping encontre base política e construa seu poder dentro do partido. Ele também terá Hu Jintao (o pai da repressão) olhando sobre os seus ombros. Além disso, o controle é reforçado por um enorme aparato interno de segurança, que foi reforçado politicamente e possui muitos recursos.

Quais são as principais desafios diante do partido?

A Corrupção.. Essa é de longe a mais séria ameaça ao partido hoje, além das que foram mencionadas na primeira pergunta. O partido, o governo e toda a sociedade estão sendo esvaziados pela corrupção. A corrupção se tornou a norma e o sistema na China. O partido depende dela, mas ao mesmo tempo ela ameaça o seu poder.

O partido será capaz de manter controle sobre uma sociedade cada vez mais diversa, informada e complexa?

Isso está se tornando cada vez mais difícil, mas não se deve subestimar o poder da coerção, das nomeações de pessoas e do controle da informação pelo Partido.

O sr. vê alguma ameaça à posição do partido como única força governante?

Não. O partido mantém completa hegemonia sobre a sociedade e não há nenhuma força política organizada ou semiorganizada que possa ameaçá-lo.

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