Michael Robinson Chavez/W.Post
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Na cidade mais rica da Venezuela, colapso social chega ao cemitério 

Famílias de Maracaibo não conseguem pagar pelo funeral de parentes e corpos apodrecem em locais sem refrigeração

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2019 | 08h00

MARACAIBO, VENEZUELA - O hospital ficou sem analgésicos e antibióticos, deixando Neiro Vargas gemendo de agonia. O segurança de 43 anos foi levado para lá com um tiro no pescoço. No sétimo dia, seu coração cedeu. Mas em Maracaibo, as indignidades da vida não terminam mais com a morte. A segunda maior cidade da Venezuela – e seu motor industrial – agora é o epicentro do colapso social do chavismo. O colapso da civilização aqui talvez seja mais evidente na morte.

Na mesma tarde da morte de Vargas, o Hospital Universitário de Maracaibo, sofrendo as mesmas quedas de energia que assolam o resto da cidade, estava um sufoco com o calor. A família do morto não pôde pagar imediatamente por um funeral. Então, os médicos enviaram seu corpo para o “porão” – um necrotério sem ar-condicionado.

Mesmo quando a energia pisca, nenhum dos oito freezers do necrotério funciona. Em uma manhã recente, os insetos enxameavam os sete corpos em decomposição deixados nas lajes e no chão. Um bebê morto sofria a deterioração dentro de uma caixa de papelão.

Enquanto as temperaturas subiam acima de 32°C, o cadáver de Vargas passou três dias no necrotério, enquanto sua mulher, Rossangelys, pedia dinheiro emprestado para cobrir um caixão improvisado e transportá-lo para sua casa. Na sala de estar da família, em uma parte sem lei da cidade repleta de casas abandonadas, a família realizou um sombrio velório. 

O caixão estreito e preto estava sobre dois suportes de metal. Os enlutados desviavam os olhos do rosto infestado de insetos do falecido. Rossangelys tentou, mas não conseguiu, controlar o cheiro calafetando lacunas na madeira do caixão.

Eles não podiam arcar com nenhum plano de enterro. Então, desenterraram os ossos do irmão morto de Vargas em um cemitério local, repleto de caixões quebrados profanados por assaltantes de túmulos. Rossangelys chorou pelo local de descanso do marido. O caixão do irmão de seu marido, retirado de lá, estava aos pedaços nas proximidades.

“Estou apenas sentindo muita raiva”, disse ela. “Muita raiva pelo que temos de passar agora nesta cidade, neste país. Se um membro da família morre, não podemos nem enterrá-lo com dignidade. Como isso pode ser a nossa realidade?”

O governo dos EUA, neste mês, ampliou o embargo, bloqueando todas as propriedades e ativos do chavismo e de seus funcionários, proibindo quaisquer transações com funcionários venezuelanos, com o Banco Central ou com a estatal de petróleo, a PDVSA. Com menos recursos e acusações de corrupção desenfreada, não há sinais de que a situação será normalizada nos próximos meses. / NYT

 

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