Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Na Cisjordânia, maioria já não crê em soberania

Isolados por muro que Trump considera um ‘modelo’, palestinos perdem renda e fé

Jamil Chade, enviado especial / Nablus, Cisjordânia, O Estado de S.Paulo

12 Março 2017 | 05h00

NABLUS, CISJORDÂNIA - Numa das ruas centrais de Nablus, na Cisjordânia, Fahed é a imagem da frustração. Dono de um açougue, ele viu suas vendas despencarem enquanto a renda dos moradores de cidades palestinas encolheu de forma inédita. No mesmo quarteirão, são dezenas de lojas fechadas por falta de clientes. Com a cabeça de uma cabra em sua tábua, ele não mede palavras e constata: “A ideia de dois Estados acabou”.

Com a barreira de 8 metros erguida, os israelenses desapareceram e a renda dos palestinos sofreu. Em certas ruas, quarteirões inteiros de lojas estão fechados. Se isso não bastasse, a importação de têxteis chineses arruinou as fábricas locais. “A crise é muito profunda”, diz um dos donos de loja, com o filho no colo. “Nem abro mais”, afirmou, ao lado de uma outra loja, que ainda resiste vendendo pistaches.

Não por acaso, pela primeira vez, uma pesquisa de opinião aponta que a maioria dos palestinos já não acredita que terá um Estado só para eles. Apenas 44% dos palestinos indicaram que apoiam a ideia de dois Estados. Em junho do ano passado, a taxa era de 51%. Realizada pelo Centro Tami Steinmetz de Pesquisas para a Paz, pela Universidade de Tel-Aviv e pelo Centro Palestino para Política e Pesquisas, de Ramallah, a sondagem passou a servir de termômetro sobre uma das realidades mais complexas e tensas no Oriente Médio. Em geral, a contrariedade à solução de dois Estados é associada à direita israelense. 

A reportagem do Estado visitou mais de dez cidades nos territórios palestinos em uma caminhada ao longo de oito dias. Muitas foram afetadas diretamente pelo muro. O resultado da pesquisa encontra ressonância entre a população local, exausta por mais de uma década de divisões. Em geral, os moradores se consideram traídos por seus líderes e estão desanimados com a corrupção e a profunda crise econômica.

O sindicalista e hoje guia Madjed Shilleh conta que, antes da construção do muro, as lojas de Nablus costumavam ter clientes israelenses. Em Sebastia, no norte da Cisjordânia, o dono de um restaurante, Hafez Kayed, também acha que está na hora de partir para outras alternativas. “Precisamos virar a página e encontrar uma forma de estarmos todos num país só”, disse.

Oficialmente, o governo palestino de Mahmoud Abbas continua a defender a ideia de dois Estados, conforme os Acordos de Oslo, dos anos 90. Entretanto, mais de uma década depois da construção da barreira, o avanço dos assentamentos judaicos em território palestino, a corrupção, a crise causada pela perda de empregos e terras e o apoio explícito de Donald Trump ao governo de Bibi Netanyahu fazem os palestinos perderem as esperanças de ter seu próprio Estado ao lado do israelense. 

Construção. A decisão de isolar a Cisjordânia com um muro foi tomada durante a Segunda Intifada, revolta palestina que teve seu início em setembro de 2000 – já havia trechos esparsos da separação. Defendida como uma medida de segurança, a barreira de concreto percorre parte do que seria a Linha Verde, na Cisjordânia. Em 2004, a Corte Internacional de Justiça indicou que a construção do muro era “contrária à lei internacional”. Agora, com o presidente Trump chamando o muro de “exemplo” de eficiência e com a atenção internacional voltada para a guerra contra o Estado Islâmico, muitos acreditam que as chances de reverter o muro são praticamente inexistentes. “Um muro protege”, disse Trump à Fox News em janeiro, para defender sua ideia de construir uma barreira em toda a fronteira com o México. “Tudo o que você tem que fazer é perguntar a Israel. Eles estavam tendo um desastre total cruzando a fronteira. (O problema) foi resolvido em 99,9%”, afirmou.

Os dados coletados pela ONU também indicam que, ao lado do próprio muro, o avanço dos assentamentos tem contribuído para o isolamento. “A demolição de casas palestinas continuou em 2015 e foi acelerada em 2016”, indicou a entidade. De acordo com as Nações Unidas, 587 estruturas palestinas foram demolidas, entre setembro de 2015 e abril de 2016, enquanto 1,8 mil casas foram erguidas em assentamentos israelenses no mesmo período. “A tendência de longo prazo de anexação de terra palestina continua”, indica o informe da ONU, apontando para o fato de que Israel declarou mais de 23 quilômetros quadrados de terras ao sul de Jericó, em 2016, como “terras do Estado”. Hoje, de acordo com as Nações Unidas, são 142 assentamentos israelenses na Cisjordânia, o que garante que 21% da população da região seja de colonos israelenses. Israel acusa a ONU de não condenar ataques palestinos e estimular o terrorismo.

Símbolo. Wadi Fuqin virou um símbolo dessa realidade. A cidade tem sido “engolida” por dois assentamentos que, a cada ano, ganham terreno nos dois morros ao lado. Hoje, para chegar a Wadi Fuqin existe apenas uma entrada que pode facilmente ser bloqueada por um tanque israelense. Já os esgotos dos assentamentos são despejados no espaço rural do vilarejo. 

Para piorar mais o cenário, a população local perdeu a confiança em seus partidos tradicionais. Numa recente pesquisa de opinião da entidade AWRAD, 95% dos palestinos indicaram que o governo de Abbas na Cisjordânia estava envolvido em casos de corrupção. Já 82% dos moradores de Gaza acreditam que o Hamas é corrupto. Da mesma forma que o muro de Israel irrita os palestinos, muitos não escondem a fúria diante das mansões de líderes políticos palestinos, também separadas do restante da população por muralhas.

Para a ONU, a Autoridade Palestina não tem controle sobre sua economia diante de uma legitimidade questionada, das restrições que existem sobre movimento de pessoas, de bens e a destruição da base produtiva e de poder de compra, além dos recursos naturais. 

Em duas décadas, entre 1995 e 2015, a economia encolheu. Enquanto a população palestina sofreu uma expansão de 3,6% por ano, o PIB teve, em média, um crescimento de apenas 1%. O desemprego passou de 9% para 27%, enquanto o déficit comercial chega a 40% do PIB. Cerca de 60% das importações vêm hoje de Israel e, nas lojas e mercados, os produtos israelenses são onipresentes. As operações militares de Israel em 2014 ainda jogaram Gaza em uma recessão, e o pouco crescimento que hoje existe na Cisjordânia está ancorado apenas na distribuição de postos de trabalho que o governo palestino dá para parcelas da população para garantir um apoio mínimo ao Fatah. 

Do lado israelense, o apoio ao muro é ainda elevado entre a população. Segundo dados do governo, os ataques por parte de palestinos foram reduzidos de forma substancial desde que a divisão foi estabelecida. Em 2002, ataques considerados por Israel como terroristas mataram 454 pessoas. Na Segunda Intifada, 73 ataques vindos da Cisjordânia mataram 293. Já com o muro, em 2006, os ataques vindos da Cisjordânia foram reduzidos para apenas 12, com 64 mortes. Em 2010, foram apenas nove ataques. 

Veja infográfico: O modelo israelense

Shay Rabineau, um dos diretores do Centro de Estudos de Israel da Universidade Binghamton, atesta que a população de Israel em grande parte apoia o muro, já que a percepção é a de que vivem de forma mais segura hoje. O especialista alerta, entretanto, que “a barreira fez a ocupação, e os próprios palestinos, serem essencialmente invisíveis para a maioria dos israelenses”. “Palestinos entravam diariamente em Israel. O resultado dessa interação entre dois povos podia ser mundano e em nível baixo, mas forçava palestinos e israelenses a se ver, a ser conscientes da humanidade do outro”, disse Rabineau. 

Sua avaliação coincide com as pesquisas de opinião entre os israelenses. Em nome da segurança, 58% deles apoiam as medidas de restrição contra palestinos. Entre os palestinos, 75% indicam que as barreiras não impediriam ataques. Entre as diversas tentativas de calcular o impacto do muro e da ocupação israelense, o Banco Mundial estimou que o custo da separação e de medidas de restrição chegariam a US$ 4,5 bilhões, 35% do PIB palestino. 

“Não podemos mais continuar vivendo assim. Nem palestinos nem israelenses podem continuar assim”, disse ao Estado o empresário de Belém, Wisan Salsah, responsável por abrir um novo hotel na região. “A solução de dois Estados ainda é possível. No entanto, não pode ser a única. Outras opções precisam ser consideradas”, disse.

Para entender: O que é a solução de dois Estados

Em 1948, com o fim da 2.ª Guerra e o Holocausto de 6 milhões de judeus, a ONU intermediou a partilha da Palestina, que previa a criação do Estado de Israel e o Estado da Palestina. Os palestinos então não concordaram com solução. Alegando agir defensivamente, Israel expandiu seu território, ocupando a Faixa de Gaza, o Sinai e a Cisjordânia. A partir dos acordos de Camp David, quando o Sinai foi devolvido ao Egito, e principalmente com os Acordos de Oslo, em 1993, a comunidade internacional, liderada pelos EUA, passou a defender a solução de dois Estados como a melhor para o fim do confronto entre israelenses e palestinos.

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Barreira cria geração que só vê um lado

ONU alerta para risco de recrutamento de jovens palestinos por terroristas

Jamil Chade, enviado especial / Cisjordânia, O Estado de S.Paulo

12 Março 2017 | 05h00

CISJORDÂNIA - Na cidade de Burqin, no norte da Cisjordânia, garotos que acabam de sair da sala de aula brincam com uma bola pela rua que desce até o local onde supostamente Jesus curou leprosos. Questionado, um dos meninos, numa bicicleta e com a camisa da seleção brasileira, disse que não conhece Israel. Também não conhece crianças israelenses. 

Com 13 anos, Fawzi nasceu depois que as barreiras para os palestinos começaram a ser erguidas. Assim como ele, dezenas de outras crianças de seu colégio jamais viram uma criança israelense. Construído há mais de uma década, o muro que separa cidades palestinas e israelenses reduziu de forma importante o número de ataques vindos da Cisjordânia. Mas criou novas divisões na sociedade e fez surgir uma geração inteira que não conhece ninguém do outro lado. 

Na cidade de Sebastia, no norte da Cisjordânia, o vice-prefeito, Mohamad Sad, não esconde o temor de que a falta de emprego, o muro e a desilusão entre os jovens fortaleça grupos extremistas. Uma das formas de lutar contra isso, segundo ele, é reduzir a idade para que um jovem possa se candidatar para o conselho local ou se envolver em política. “Assim, os colocamos como responsáveis antes que possam se radicalizar”, defendeu. 

Na ONU, o risco de radicalização e recrutamento de jovens palestinos pelo Estado Islâmico já passou a ser considerado como um dos cenários mais preocupantes. “Quando eu olho para a região, tenho a sensação do risco de uma radicalização de jovens cada vez mais desesperados”, disse Pierre Krähenbühl, representante da ONU para a questão dos refugiados palestinos desde 2014. 

Parte da geração que nasceu e cresceu em assentamentos israelenses na Cisjordânia se transformou em um assunto recorrente em razão de atos de violência. Conhecidos como “a juventude dos morros”, esses grupos são criticados até mesmo por religiosos israelenses. “As pesquisas mostram que essa juventude se identifica mais com a extrema direita que seus pais”, explicou ao Estado o acadêmico Shay Rabineau, um dos diretores do Centro de Estudos de Israel da Universidade Binghamton. 

Do lado palestino, a geração mais velha lembra que, na região, era comum garotos pegarem bicicletas e simplesmente cruzar a fronteira para áreas israelenses. “O contato era permanente com crianças israelenses”, contou um dos moradores da região de Jenin, que pediu para não ser identificado. 

Nas proximidades de Jericó, mães palestinas que vivem em campo de refugiados tentam manter a identidade das famílias, ensinando às crianças que seu local de origem não é aquela estrutura da ONU, mas cidades que elas jamais conheceram e, com o muro, estão mais distantes. “Havia um ditado que dizia que quando os avós morressem, os netos se esqueceriam da luta e de nosso direito ao retorno. Mas estamos aqui para provar que não é o caso”, afirmou Jamilla Al-Thair, líder de uma cooperativa de mulheres no campo de refugiados de Aqbat Jabr. Ela nasceu já no local, assim como seus filhos e netos.

Desalento. Para aqueles que vivem à sombra do muro, a realidade política tem sido minada pelo desespero econômico. Em Belém, por exemplo, a rua principal foi transformada depois que o muro foi erguido. Em um dos lados, um parque para crianças foi abandonado e passou a estar menos de cinco metros de um canhão de água usado contra manifestantes ou qualquer um que se aproxime do concreto.

A sombra do muro se projeta sobre um cemitério palestino. O chão é um retrato de choques quase semanais entre os soldados israelenses e a população palestina. Não é raro encontrar entre os túmulos fragmentos de bombas de gás, assim como bolas de gude lançadas pelos garotos do campo de refugiado de Aida, com 5 mil habitantes e o compromisso entre sua população de ser a “linha de frente” na oposição ao muro. 

Numa das escolas, as janelas do segundo andar que dão vista ao muro foram fechadas com tijolos para impedir que as crianças pudessem ver o que ocorria do outro lado da barreira. Aleen Masoud, estudante de música de Belém, viu o outro lado pela primeira vez só depois que um novo hotel foi aberto na região e ela subiu ao segundo andar. “Só tem um parque com oliveiras. Não sabia que era assim”, disse.

Avner Goren, ex-arqueólogo-chefe de Israel no Sinai e um dos acadêmicos mais respeitados do país em sua área, alerta para as consequências da divisão. “Não temos um número suficiente de israelenses aprendendo árabe e um número cada vez mais baixo de palestinos aprende hebraico”, disse. Goren lidera um movimento para conseguir que os dois lados cooperem para tratar de saneamento e proteger canais de água que saem do lado israelense e percorrem a Cisjordânia.

A escritora Claire Hajaj, autora do livro As Laranjas de Ishmael, também teme que a barreira tenha um impacto tão profundo que inviabilize futuros processos de paz. “O muro é uma tragédia diante de nós, não apenas para palestinos, mas também para israelenses”, disse. Filha de uma judia e de um palestino de Jaffa, a escritora acredita que o muro “distancia a ideia de uma paz, não apenas em termos práticos, mas também psicológicos”.

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