Na Cisjordânia, papa critica muro e apoia palestinos

Recebido por Abbas em Belém, Bento XVI condena barreira israelense e volta a defender Estado palestino

Daniela Kresch, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

A política voltou a dominar ontem a visita do papa Bento XVI a Israel e aos territórios palestinos. No terceiro dia de peregrinação na região, o papa visitou Belém, na Cisjordânia, e fez discursos recheados de mensagens em prol da criação de um Estado palestino. No primeiro, proferido logo que chegou à cidade e foi recebido pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas, Bento XVI disse que o Vaticano apoia o direito dos palestinos "a uma pátria soberana na terra de seus antepassados, segura, em paz com seus vizinhos e com fronteiras reconhecidas". Depois de celebrar uma missa para milhares de fiéis em frente da Igreja da Natividade, onde, segundo a tradição cristã, Jesus nasceu, o papa voltou a tocar no assunto."Meu sincero desejo a vocês, povo palestino, é o de que isso (a criação de um Estado) aconteça em breve", disse em uma escola da ONU num campo de refugiados. Em suas falas, o papa demonstrou-se solidário aos moradores da Faixa de Gaza. Na presença de alguns dos 2.500 cristãos de Gaza (que vivem entre 1,5 milhão de muçulmanos), Bento XVI pediu o fim do embargo econômico ao território. Israel mantém os postos de fronteira com Gaza praticamente fechados há dois anos, desde que o Hamas tomou o controle da região. O mesmo faz o Egito, que também faz fronteira com Gaza. O papa também pediu aos palestinos que resistam à tentação do uso da violência, numa referência aos atentados.A passagem pelo campo de refugiados de Aida era o evento que os israelenses mais temiam na estada de menos de 24 horas do papa na Cisjordânia. Inicialmente, organizadores palestinos agendaram uma cerimônia ao lado do polêmico muro israelense, que circunda Belém por quase todos os lados. O Vaticano rejeitou, a pedido de Israel, mas o palco no qual o papa discursou tinha como pano de fundo intencional o muro, criticado claramente pelo papa."Sobre nós está um símbolo do impasse no relacionamento entre israelenses e palestinos, o muro. Num mundo de fronteiras cada vez mais abertas, para comércio, viagens, movimentação de povos e intercâmbios culturais, é trágico ver que ainda se levantam muros", disse.O tom dos discursos em Belém pode aumentar a intensidade das críticas israelenses a Bento XVI. Alguns líderes judeus expressaram decepção com o discurso do pontífice no Museu do Holocausto, na segunda-feira, afirmando que o papa, que é alemão e fez parte da Juventude Hitlerista, não condenou com veemência os que negam o Holocausto. Mas, segundo Adam Ferziger, especialista da Universidade Bar-Ilan, o papa não usou sua passagem pela Cisjordânia para "se vingar" das críticas. "Ele usou frases que hoje são mundiais. O presidente americano, Barack Obama, e muitos líderes europeus diriam a mesma coisa", declarou.Mas, apesar do tom pró-palestino da visita de ontem, a passagem de Bento XVI por Israel e pelos territórios palestinos também enfrenta críticas no mundo árabe. O líder do Hamas, Ismail Hanyie, por exemplo, criticou o papa por ter aceitado se encontrar com a família do soldado israelense Guilad Shalit, sequestrado pelo grupo radical em Gaza há três anos, mas não com as famílias de palestinos presos em Israel.

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