AFP PHOTO / YONHAP
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Na Coreia do Norte, irmã de Kim Jong-un entra na cúpula do governo

Apontada como segunda na linha de sucessão, ela terá cargo na Comissão de Assuntos de Estado, o mais elevado a ser ocupado por Kim Yo-jong

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 20h00

PYONGYANG — A irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un, Kim Yo-jong, passou a fazer parte do principal órgão de tomada de decisões do país, em meio a uma série de mudanças promovidas na cúpula do governo. O posto é o mais elevado a ser ocupado por Yo-jong, por vezes apontada como a segunda pessoa mais poderosa da Coreia do Norte, e ocorre em meio a sinais de diálogo enviados por Pyongyang à Coreia do Sul.

O anúncio foi feito após reunião da Assembleia Popular Suprema, quando foram confirmadas  as alterações na Comissão de Assuntos de Estado, presidida por Kim Jong-un.

Aos 32 anos, Kim Yo-jong vem se tornando, nos últimos anos, uma das faces mais conhecidas do regime. Vice-diretora do Departamento de Informação e Propaganda, um dos pilares do governo, ela é vista como uma das principais conselheiras do irmão e chegou a ser apontada como a segunda na linha de comando — além disso, vem se notabilizando por assumir papel de destaque em iniciativas diplomáticas.

Em 2018, esteve na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, quando se reuniu com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e pavimentou o caminho para a primeira reunião entre os dois líderes naquele mesmo ano. Ela também participou da reunião entre Kim Jong-un e o então presidente americano, Donald Trump, em Cingapura.

De acordo com o Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul, em 2020  Yo-jong foi encarregada de liderar os contatos de Pyongyang com Seul e com Washington, no momento em que as relações já estavam abaladas pelos fracassos diplomáticos e pelo virtual fechamento da Coreia do Norte em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em junho do ano passado, em meio a divergências entre as duas Coreias, o governo norte-coreano explodiu um prédio usado como escritório de diálogo intercoreano, no que foi visto como uma decisão da própria Kim Yo-jong.

Agora, promovida à Comissão, Kim Yo-jong assume o seu mais alto posto dentro da hierarquia da Coreia do Norte. Segundo a agência estatal KCNA, o Legislativo local também anunciou uma série de mudanças no órgão, incluindo a saída de Ri Pyong-chol, um ex-conselheiro de Kim Jong-un e apontado como um dos responsáveis pelo desenvolvimento de novas armas. Outro a deixar a Comissão foi Pak Pong-ju, ex-premier e um dos principais nomes na elaboração de políticas econômicas do governo.

Sem pré-condições

Além das mudanças nos altos escalões, a reunião da Assembleia serviu para Kim Jong-un enviar sinais a Seul e Washington, sugerindo que poderá concordar com a retomada do diálogo diplomático. Ele voltou a atacar a realização de exercícios militares entre a Coreia do Sul e os EUA, em agosto, que levaram a uma nova suspensão de uma linha de contato entre os militares dos dois lados, dias depois de terem sido retomadas como um gesto de boa vontade de Pyongyang. Agora, ele promete se diz disposto a reativar o mecanismo, dizendo que isso vai concretizar “as expectativas e o desejo de toda a nação coreana”.

Ao mesmo tempo, Kim Jong-un declarou que a restauração (ou a deterioração) das relações “depende da atitude das autoridades sul-coreanas”. “Não é nosso objetivo e tampouco é racional provocar a Coreia do Sul, tampouco é real a ideia de lhe provocar danos, é necessário que a Coreia do Sul se livre dessa ilusão”, afirmou Kim Jong-un, segundo a KCNA.

Sobre os EUA, o tom foi menos amistoso. Ele afirmou que a chegada de Joe Biden ao poder não alterou as políticas de Washington para a Coreia do Norte. “Propor ‘diálogo sem pré-condições’ não passa de uma fachada para enganar a comunidade internacional e encobrir suas hostilidades, e é apenas uma extensão da política hostil seguida pelos governos dos EUA no passado”, declarou, se referindo às declarações de integrantes do governo Biden defendendo o retorno à mesa de negociações.

O ponto principal dos negociadores americanos é convencer Pyongyang a abandonar seu programa nuclear — incluindo suas cerca de 40 ogivas nucleares — em troca do fim das sanções econômicas e da oportunidade de integração do país à comunidade internacional.

Os termos já foram rejeitados por Pyongyang, que também vê com preocupação a parceria dos EUA com a Coreia do Sul, incluindo no desenvolvimento de novas armas. Recentemente, Seul anunciou o primeiro lançamento de um míssil balístico a partir de um submarino, tecnologia que poucas nações no mundo possuem.

Por sua vez, além de rejeitar se desfazer de suas armas nucleares, a Coreia do Norte investe em um programa de desenvolvimento de novos armamentos. Nas últimas semanas, o país divulgou o lançamento de um míssil a partir de um trem, e, na terça-feira, foi anunciado o primeiro teste de um míssil hipersônico, supostamente com capacidade de levar ogivas nucleares. Já na manhã de sexta-feira, no horário local (noite de quinta-feira no Brasil), foi realizado um teste com um novo míssil antiaéreo, de acordo com a KCNA. / AP, REUTERS E NYT

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