Ahn Young-joon/AP
Ahn Young-joon/AP

Na Coreia do Sul, acordo entre EUA e Pyongyang é recebido com cautela

Coreia do Norte se comprometeu a suspender programa de enriquecimento de urânio e testes nucleares

Lisandra Paraguassu, enviada especial a Seul,

01 de março de 2012 | 18h10

SEUL - O acordo para que a Coreia do Norte suspenda seu programa de enriquecimento de urânio e seus testes nucleares foi recebido com mais dúvidas do que certezas do outro lado da fronteira. Principal interessada em ver o programa de seu inimigo sob controle, a Coreia do Sul ficou de fora de toda a negociação levada a cabo pelos Estados Unidos.

 

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No que talvez seja o pior momento das relações entre os dois países desde o final da guerra, em 1953, o governo sul-coreano pouco pode acrescentar em qualquer diálogo. Nesta quinta-feira, 1, a reação ao anúncio americano foi discreta: "é a abertura de uma primeira porta", disse um oficial do Ministério das Relações Exteriores. O quanto e por quanto tempo essa porta permanecerá aberta é a grande dúvida que paira em Seul. Como os americanos, os sul-coreanos consideram que as concessões feitas por Pyongyang são um início apenas. O acordo prevê que seja interrompido o programa de enriquecimento de urânio da Coreia do Norte e os testes com mísseis.

 

Analistas sul-coreanos, no entanto, dizem que essa seria apenas uma parte do programa nuclear norte coreano. Pyongyang teria como base de seu arsenal combustível feito com plutônio enriquecido, suficiente para seis a oito bombas atômicas. Apesar de mais eficiente, o urânio enriquecido ainda não estaria pronto. E dificilmente o material que garante a existências das bombas norte-coreanas - hoje a única arma de negociação - seria entregue. Até que ponto vai a boa vontade e a necessidade de acordo do governo da Coreia do Norte é uma dúvida que persiste em Seul.

 

Ainda assim, o acordo causou surpresa em quem acompanha de perto a complicada situação entre as duas Coreias. A ascensão ao poder de Kim Jung-Un depois da morte de seu pai, Kim Jong-Il, em dezembro, levava a crer em uma escalada de provocações como uma forma de auto-afirmação antes de a Coreia do Norte concordar com novas conversas. Nas últimas semanas, Kim Jung-Un ameaçou retaliações por conta de exercícios militares conjuntos feitos entre os sul-coreanos e tropas americanas na chamada Zona Militarizada e chamou de "provocação" a realização da Cúpula sobre Segurança Nuclear que acontece em Seul no final de março - para a qual, aliás, os norte-coreanos não foram convidados.

 

Os palpites para essa nova postura passam pela possibilidade de a crise alimentar no país ser ainda mais grave do que prevêem observadores - daí a necessidade urgente das 240 mil toneladas de comida prometidas pelos americanos - e pela ideia de que Kim Jung-Un possa ser mais liberal do que seu pai por ter estudado na Suíça quando adolescente. Mas, assim como a maior parte das informações sobre a Coreia do Norte, nada há de concreto sobre os motivos do novo ditador.

Grupo dos Seis

 

Alijados das negociações, apesar de informados de cada passo pelos americanos, os sul-coreanos esperam agora uma porta para entrar no diálogo com seus vizinhos. O governo agora quer tentar levar a conversa para uma mesa do chamado Grupo dos Seis Países - além de Estados Unidos e das duas Coreias, Japão, China e Rússia - e aposta na exigência feita pelos demais de que a Coreia do Norte resolva seus problemas com o vizinho do Sul.

Em Seul, no entanto, a avaliação feita por quem acompanha o assunto é que o governo sul-coreano não tem hoje nada com que barganhar com a Coreia do Norte. A política de aproximação, usada pelo governo anterior do liberal Partido da Democracia Unida, não havia levado a grandes concessões por parte de Pyongyang, mas o endurecimento do atual governo do conservador Lee Myung-bak afastou a Coreia do Sul de qualquer negociação.

 

Lee promete investimentos para os norte-coreanos em troca do fim do programa nuclear, mas esse é um diálogo que, na verdade, nunca aconteceu. "O programa nuclear da Coreia do Norte é um enorme empecilho no caminho de um acordo. A Coreia do Sul exige que a Coreia do Norte resolva esse problema e em troca propõe ajuda para eles possam reviver sua economia moribunda, com significativos investimentos", disse o vice-ministro da Unificação a um grupo de repórteres estrangeiros um dia antes do anúncio feito por Washington.

 

A relação entre as duas Coreias começou a se deteriorar a partir de 2009, segundo ano do governo de Lee Myung-bak. O presidente cortou a ajuda humanitária aos norte-coreanos e viu a aproximação entre os dois países, iniciada em 2005, ser totalmente suspensa. Dois incidentes - o afundamento do navio sul-coreano Cheonan com 104 marinheiros a bordo, em 2010, e o bombardeio da ilha de Yeonpyeong, em 2011, em que dois militares morreram - fizeram as poucas relações entre os dois países irem a pique de vez.

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