REUTERS/Alexander Natruskin/File Photo
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Na crise da Ucrânia, talvez Biden esteja à frente de Putin em uma arena essencial: a da informação

Os Estados Unidos e seus aliados estão empreendendo uma ampla ofensiva de divulgação de informações a respeito das possíveis jogadas da Rússia

Daniel Baer / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2022 | 10h00

A situação na fronteira entre Rússia e Ucrânia segue difícil: aqueles com acesso às melhores informações continuam a alertar que um novo ataque ao país por parte dos russos ainda é provável e pode ocorrer a qualquer momento.

Ainda assim, o teor da retórica de Moscou parece ter mudado. Em vez de ultimatos ameaçando a adoção de medidas “técnico -militares”, os russos, incluindo o presidente Vladimir Putin, acusaram os EUA de alarmismo quanto à perspectiva de uma invasão. O ministro das relações exteriores, Serguei Lavrov, uma das autoridades que fizeram ameaças pouco veladas em janeiro, insistiu semanas depois que “Não haverá guerra se isso depender da Federação Russa. Não queremos uma guerra”.

O que mudou?

Nas semanas mais recentes, o governo Biden e seus aliados se dedicaram a um robusto e constante esforço de comunicação. Os EUA e o Reino Unido divulgaram ao público importantes descobertas dos seus serviços de espionagem. Emitiram novos alertas para a possibilidade de uma ação russa, novas explicações de táticas que os russos podem empregar, como os ataques com “bandeira falsa”, e novas declarações da determinação dos aliados em impor consequências ao agressor. A mais recente foi feita pelo novo chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, que confirmou no dia 6 de fevereiro que a resposta transatlântica a uma ação russa seria “unificada e decisiva”.

Os russos parecem ter ficado desorientados diante da ofensiva de informação, e talvez não saibam ao certo como reagir. Quando acusam os EUA de fomentar o pânico, eles soam como um chantagista surpreso por ver o foco mudar para as ameaças, quando preferiria que este permanecesse nas suas exigências.

Isto representa uma mudança significativa em relação a oito anos atrás, quando Putin combinou ações militares, desinformação e o elemento surpresa para ocupar parte da Ucrânia.

No fim de fevereiro de 2014, depois que o humilhado ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich fugiu de  Kiev rumo a Moscou, Putin invadiu a Crimeia com “soldadinhos verdes” — forças especiais russas enviadas para a ação sem insígnias de identificação nos seus uniformes, violando as leis internacionais da guerra. Em questão de dias, Putin se aproveitou de um momento de caos para fazer valer um fait accompli. Na época, o governo Obama e os serviços americanos de espionagem foram criticados por terem sido supostamente surpreendidos.

Mas isso não era inteiramente verdade. A estratégia diplomática dos EUA nas semanas anteriores consistiu em incentivar Yanukovich a recuar da situação cada vez mais violenta e de confronto em Kiev onde as forças de segurança dele (com apoio e treinamento dos russos) tinham massacrado manifestantes na Praça Maidan. Como funcionário do governo americano à época, estive em Kiev meses antes, no início dos protestos na Praça Maidan; lembro de ficar surpreso com a notícia da fuga de Yanukovich.

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Mas, nos dias que se seguiram, acompanhamos atentamente os relatos vindos da Crimeia, incluindo a tomada do Parlamento regional por homens armados não identificados. Estava claro que algo importante estava ocorrendo, e ainda que as intenções finais de Putin não estivessem claras naquele momento, era óbvio que a Rússia estava por trás da movimentação.

Mesmo assim, em meio às ações de Moscou (manobras militares surpresa acompanhadas por declarações negando a intenção de invadir); as trapalhadas do primeiro-ministro regional recém-instalado pelo Kremlin, Serguei Aksionov; manifestações pró-Rússia que chamavam a atenção pelo grau de organização; e ridículas acusações de violações dos direitos humanos, foram necessárias semanas, ou até meses (e muitas informações de espionagem compartilhadas com atraso) até que os aliados da Otan tivessem uma ideia clara de como a Rússia tinha concretizado sua invasão da Crimeia e sua ocupação indireta do Donbass. Esses eventos trouxeram destaque para o conceito de “guerra híbrida”, misturando ação cinética com operações de informação, no jargão da comunidade de segurança e política externa.

Em 2014, a novidade da abordagem de Putin conferiu a ele uma vantagem significativa. Acusar outro país de um ato de guerra ilegal é coisa séria; acusações desse tipo só podem ser feitas com robusta confiança. Putin também se aproveitou de uma assimetria no Ocidente quanto à atribuição pública de uma ação agressiva. A posição americana em relação à espionagem e, especialmente, diante das atribuições de ação militar, foi bastante conservadora, talvez em parte por causa do legado do Iraque. Conscientes do quanto sua credibilidade tinha sofrido, as autoridades americanas foram bastante cautelosas antes de fazer afirmações definitivas, seja a seus aliados ou ao público.

Putin contava com essas preocupações para ter tempo de criar fatos irreversíveis na prática: operações de informação dentro da Ucrânia e na mídia internacional com o objetivo de gerar confusão e minar a credibilidade do novo governo em Kiev. Mesmo uma dúvida modesta complicaria os esforços para a criação de uma coalizão para responder à ação russa em tempo real.

O que o governo Biden parece ter entendido é que não há necessidade de fazer declarações definitivas em relação ao quê, exatamente, Putin está planejando. Em vez disso, basta divulgar informações de espionagem e análises a respeito de quais seriam os objetivos dele antes que o presidente russo tenha a chance de executar seus planos. E, se os fatos elementares apresentados pela espionagem estiverem corretos, e os planos potenciais dos russos forem apresentados claramente como hipóteses de trabalho, os EUA podem manter o compromisso com os fatos sem permitir que Putin transforme tal compromisso em uma arma em seu favor.

Essa abordagem coloca a esfera pública em termos diferentes. Em vez de esperar uma ação e a análise dessa ação, Biden e sua equipe estão engajando o adversário por meio da mídia. Eles emitem uma saraivada quase constante de atualizações, começando com uma análise da concentração das forças russas observada no fim do ano passado.

Desde então, os EUA se juntaram aos europeus soando o alarme quanto ao movimento de forças russas na Belarus, queixa levada até às Nações Unidas. Também foram divulgadas atualizações dos esforços diplomáticos para manter os aliados europeus e americanos no mesmo passo, novas sanções a ucranianos acusados de tramar com a Rússia, e seus esforços para alertar aliados e trabalhar com eles nos preparativos contra possíveis ataques cibernéticos russos. Em vez de esperar até que Putin e seus trolls eletrônicos poluam as ondas de comunicação e as redes sociais com sua desinformação, eles estão mantendo o foco do debate público na ameaça de uma ação agressiva.

Com seus aliados, os EUA estão divulgando novas informações de espionagem toda semana, às vezes diariamente, revelando uma ampla prévia daquilo que a Rússia pode fazer. O conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan, por exemplo, disse no domingo passado ao Meet the Press que “a ação russa pode ocorrer sob muitas formas” e pode ocorrer a qualquer momento, incluindo uma possível anexação política do Donbass, ataques cibernéticos e diferentes versões de uma invasão terrestre. Os comentários de Sullivan sublinham outra vantagem da exposição pública das hipóteses no nefasto cardápio de alternativas de Putin antes de ele escolher o rumo a seguir: isso ajuda o público europeu e americano a ter em mente o tipo de tática que Putin poderia empregar.

Muitas pessoas estão hoje melhor informadas a respeito do que seria um ataque com bandeira falsa e como isso funciona do que há um mês. Se Putin empregasse tal abordagem, ela não seria mais chocante, e a confirmação dessas táticas (e a reação a elas)  seria mais ágil. A divulgação dos possíveis planos de Putin também fortalece a impressão segundo a qual os aliados poderiam apresentar rapidamente uma resposta unida a qualquer ação, supostamente amplificando o seu poder de dissuasão.

E assim, o jogo parece ter virado: em vez de o Ocidente caçar ratos em buracos, refutando diferentes mentiras propagadas pela Rússia, agora é a Rússia que se vê na posição de negar as possíveis tramas que pode estar colocando em movimento em relação à Ucrânia: o próprio Putin teria feito a mais recente negativa do tipo, de acordo com o presidente francês, Emmanuel Macron, após a reunião de cinco horas entre os dois na terça-feira. Em vez de trabalhar nos bastidores e adotar uma abordagem de esperar para ver, permitindo que Putin mantenha o restante do mundo na incerteza, Biden e seus colegas europeus estão obrigando Putin a baixar o volume de seus seguidos lembretes que transmitem uma mensagem clara: eles o estão observando atentamente.

Isso não significa que seja possível neutralizar completamente a guerra híbrida. Mas o governo Biden e os parceiros e aliados dos EUA parecem ter aprendido uma lição valiosa em 2014: em vez de reagir à guerra híbrida de Putin, eles a estão denunciando, privando-o parcialmente do poder dessa tática. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


É PESQUISADOR SÊNIOR DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE; ATUOU COMO EMBAIXADOR DOS EUA NA ORGANIZAÇÃO PARA A SEGURANÇA E COOPERAÇÃO NA EUROPA DE 2013 A 2017 

 

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