Sarah Blesener/The New York Times
Sarah Blesener/The New York Times

Na cúpula do clima, Biden promove uma agenda ambiciosa. Essa mulher precisa executá-la

Gina McCarthy, a diretora da EPA na época de Barack Obama, só pôde ficar observando enquanto o governo Trump desmantelava o seu trabalho sobre o clima. Agora, ela está de volta com uma outra chance de criar um legado duradouro

Coral Davenport, The New York Times

23 de abril de 2021 | 10h00

WASHINGTON - Gina McCarthy trabalhou seis ou sete dias por semana, de 12 a 14 horas diárias, para produzir o primeiro esforço concreto dos Estados Unidos para combater a mudança climática, uma continuação das regulamentações da era Obama que reduziriam a poluição causada pelos escapamentos dos automóveis e das chaminés e faria com que a maior economia do mundo deixasse de depender dos combustíveis fósseis.

Então, o governo de Donald Trump destruiu o trabalho da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) do presidente Barak Obama, antes mesmo que pudesse entrar em vigor.

McCarthy está de volta, como assessora sênior do presidente Joe Biden para a mudança do clima, e desta vez, está determinada a fazer com que o trabalho entre em vigor.

A autoridade mais poderosa sobre a mudança do clima no país, além do próprio Biden, não tem apenas a responsabilidade de reconstituir as suas diretrizes da era Obama, mas fazer com que todo o governo ataque a questão do aquecimento global, dos militares ao seu corpo diplomático e aos seus Departamentos do Tesouro e dos Transportes. Também chefiará as negociações com o Congresso para a aprovação de novas leis permanentes sobre a mudança do clima que possam resistir à próxima mudança de governo.

"Tenho um gabinete que é uma pequena fortaleza, mas sou a regente de uma banda muito grande", disse McCarthy, 66, em um discurso em fevereiro.

A reunião de dois dias de Biden na cúpula do clima global, que começou na quinta-feira, 22, é a sua chance de proclamar o retorno dos Estados Unidos às iniciativas internacionais para conter os efeitos mais devastadores de um planeta que está aquecendo, mas é também o ressurgimento de McCarthy. Biden prometeu que os Estados Unidos reduzirão as emissões causadoras do aquecimento da Terra em pelo menos 50% até 2030.

O mundo viu estas promessas anteriormente, com os acordos de Kyoto nos anos 90, depois o Acordo de Paris na era Obama, e então teve de assistir ao seu desmantelamento por governos republicanos que se seguiram. Caberá a McCarthy provar que os céticos estão errados.

Washington "não apresentou nada no que se refere a como pretende recuperar os quatro anos perdidos", afirmou na sexta-feira passada, 16,  o porta-voz do Ministro do Exterior chinês, Zhao Lijian,

O governo planeja iniciativas simultâneas para pôr em prática as normas destinadas a conter as emissões dos automóveis e das usinas elétricas, restringir a exploração do combustível fóssil e preservar as terras públicas enquanto pressiona o Congresso a aprovar as provisões para o clima contidas no orçamento de Biden de US$ 2 trilhões para investimentos em infraestrutura, como programas de energia renovável e veículos elétricos. McCarthy espera promover ainda mais o projeto de infraestrutura, possivelmente ordenando que as companhias de eletricidade produzam uma determinada porcentagem de energia de fontes renováveis, como a eólica e a solar. Esta será uma grande batalha  para convencer muitos republicano - mas se for aprovado no Congresso, constituirá o legado permanente do clima do governo Biden, mesmo que outras normas sejam eliminadas por futuros presidentes.

"O que Gina consegue fundir é essencial para a nossa capacidade de obtermos credibilidade no mundo afora", afirmou em janeiro John Kerry, ex-secretário de Estado e atualmente enviado internacional de Biden para a questão do clima. "Ninguém está mais a par dos detalhes do que ela, e ninguém será mais eficiente para convencer todo mundo a caminhar na mesma direção."

McCarthy, que passou inicialmente o governo Trump como pesquisadora visitante em Harvard e depois como chefe do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, um grupo de defesa dos interesses nacionais, disse que, em geral, não  considerou a demolição do seu trabalho algo pessoal.

"Mas fiquei ofendida", afirmou em uma recente entrevista.

E acrescentou que dedicou um enorme esforço à criação das normas da era Obama que poderiam ser aprovadas pelos tribunais e poderiam entrar facilmente em vigor, e depois viu quando foram revertidas na questão do clima que foram simplesmente fundidas em uma coisa só, repletas de erros de ortografia e de matemática, e então imediatamente encalhadas no tribunal.

"Foi quase embaraçoso", ela disse. "Foi simplório. Foi tão mal escrito, com declarações políticas no meio. Foi algo ultrajante".

Entretanto, houve algum conforto em tudo isto. "Eu sabia que isto não resistiria ao teste do tempo", ela disse. "Sabia que poderia ser reconstituído".

Quando Biden a convidou para fazer parte da Casa Branca, McCarthy relutou de início. Mas quando ele adotou grande parte da retórica e das medidas da esquerda do partido, acabou conquistada.

"Quando o presidente Biden, então candidato, estabeleceu a relação entre o clima, a saúde e a justiça ambiental e racial, e a enquadrou em termos do que teria de ser feito depois da pandemia para o crescimento do emprego, simplesmente me ganhou", afirmou. "Isto permitiu que eu saísse do conceito enfadonho de que o clima sempre seria um ônus planetário e um horrível futuro em potencial, e o apresentou em um contexto que, para mim, lhe forneceu energia".

Os republicanos assistem a tudo isto, e não estão nada felizes.

"Há cerca de dois meses, a irresponsável czarina Gina McCarthy vem trabalhando nos bastidores e diante da imprensa para apresentar os alicerces da agenda do governo Biden", afirmou, no mês passado, a senadora Shelly Moore Capito, a principal republicana do estado de West Virginia na Comissão do Meio Ambiente do Senado. "Ela brande o seu poder publicamente para deixar claro quem está dando as cartas e dirigindo a tropa".

McCarthy pertence a uma família católica da classe trabalhadora irlandesa dos arredores de Boston. Sua mãe trabalhou em uma fábrica de rosquinhas, e seu pai, um professor, fazia parte de um sindicato - um ambiente que, segundo afirma, foi excelente para que ela formasse fortes relações, tanto com o seu atual chefe quanto com alguns republicanos e grupos sindicais cujo apoio ela espera conquistar.

McCarthy teve por 25 anos um cargo importante na área da proteção ambiental e da saúde para Massachusetts, trabalhou para cinco governadores, inclusive Mitt Romney, um republicano que a encarregou de redigir um plano sobre a mudança climática do estado.

Atualmente, Romney, senador por Utah, é um dos poucos republicanos que Biden considera como possíveis votos para o seu projeto de infraestrutura.

Ela também se inspira na sua formação de classe trabalhadora para conquistar líderes sindicais enquanto se prepara para retomar novas e rigorosas normas sobre as emissões dos automóveis e das usinas de energia movidas a carvão, as duas maiores fontes de gases do efeito estufa do país.

Os trabalhadores do setor do carvão atacaram as normas do clima da era de Obama como uma "guerra ao carvão" e passaram a apoiar Trump, mas esta semana, Cecil Roberts, presidente do sindicato United Mine Workers of America disse que os seus membros aceitarão uma transição dos combustíveis fósseis em troca de pesados investimentos do governo em novos empregos em energia renovável, com gastos em tecnologia para tornar o carvão menos poluente, e uma ajuda financeira para os mineiros que perdem os seus empregos - o que se assemelha a alguns dos dispositivos contidos no pacote de infraestrutura de Biden.

Mas os trabalhadores na indústria automobilística estão preocupados. O plano do clima da Casa Branca acena com um futuro em que a maioria dos americanos poderão dirigir veículos elétricos com zero emissões, no entanto, construir um veículo elétrico exige cerca de um terço menos do número de trabalhadores do que na construção de um veículo tradicional com motor a combustão.

"Estou realmente impressionado com o seu conhecimento do que seja a vida para um trabalhador na indústria automotiva", disse Rory Gamble, presidente da United Auto Workers, que tem o número do celular de McCarthy. "Em McCarthy encontramos um ouvido bem informado que está sintonizado com o que nós estamos enfrentando. Gosto de saber que ela tem suas raízes na classe trabalhadora".

Mas afirmou que ela ainda precisa convencê-lo de que as novas normas contra a poluição não custarão empregos.

"O problema, e falei sobre isto com Gina, é que se o governo adotar mesmo este plano e investir dinheiro nele, haverá a necessidade de garantir que este trabalho permaneça nos EUA, com bons salários e bons  benefícios, e os trabalhadores possam se organizar. São muitos 'se'". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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