NA FÉ CHAVISTA, LUTO EM VERMELHO

Com sua partida, Chávez deixa sem chão uma verdadeira legião de devotos

RODRIGO CAVALHEIRO , ENVIADO ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h07

O bairro de Callao, área nobre de Caracas, tem uma moradora que não veste preto em nenhuma circunstância. Não usou roupa negra nem mesmo quando, no início do ano passado, o filho policial foi morto. Ao ser consolada, a mulher de 74 anos usava a combinação que a tornou conhecida em todo o país: óculos, calça, camisa, sapatos, batom, relógio, colar, carteira, brincos e tiara vermelhos. "Tenho o coração partido", lhe disse um companheiro chavista.

A devoção absoluta de Marlene Vanegas ao chavismo a tornou alvo constante dos fotógrafos nos comícios bolivarianos. Ganhou o apelido de Caperucita Roja (Chapeuzinho Vermelho) e virou símbolo da adoração a Hugo Chávez. Encarnou o personagem e conseguiu aquilo que considera o reconhecimento máximo. "Quando o comandante me chamou assim em um comício não acreditei. Não sabia que ele me conhecia", lembra Marlene, orgulhosa.

Ela, que já frequentava todas marchas e atos públicos chavistas, passou a ter lugar visível em atos oficiais. Em uma cerimônia com a presença de Chávez, para a qual foram convocados os militantes mais fanáticos - não tanto, comparados a ela -, Marlene permaneceu impassível quando chamaram seu nome. Estava tão acostumada a ser "caperucita" em cerimônias oficiais. "Esqueci que era meu nome."

Marlene pertence a uma extensa categoria de devotos de Chávez, para os quais a morte do comandante é mais que uma sucessão política. Gente que destinava cada minuto do dia a Chávez e passou repentinamente a ter todo o tempo de volta.

"Prefiro que Deus me leve. Já tenho 74 anos, já vivi muito. Ele tem ainda muito o que fazer", disse ela ao Estado em dezembro em sua casa, onde fotos do presidente disputam lugar na parede com uma comenda concedida a ela pelo PSUV, partido de Chávez, por sua fidelidade e valentia.

Marlene já levou um soco no olho e um tiro de raspão no pé esquerdo em 2000, por defender Chávez. Callao, onde vive, pertence ao Estado de Miranda, governado por Henrique Capriles. Cada saída à rua, com a indumentária de sempre, representa uma sucessão de alguns afagos e muitas provocações. Ela só responde com o bordão que repete em cada entrevista: "Quem falou em medo!", gritou a um jovem chavista.

Ela defende mesmo os episódios mais obscuros de sua biografia, como na tentativa de golpe de 1992. "Ali eu o admirei. Algo tínhamos de fazer. O povo estava abandonado", justifica.

Antes, não tinha interesse em política. Não era de esquerda ou de direita. Não consegue dizer uma falha no governo de Chávez. À crítica mais comum feita ao chavismo, de assistencialismo, ela responde rápido: "O povo acordou. O país foi declarado livre de analfabetismo". Com relação aos subsídios: "É preciso fazer isso. Se desse para os ricos também eles não reclamariam."

Marlene pretende continuar fiel ao vermelho e o seu método de escolha de roupas. Ao ver algo de que gosta em uma vitrine, entra e pede na cor vermelha. Se não há, encomenda e pede que a avisem quando chegar. Eventualmente, ela usa uma flor, também encarnada, no tom do chavismo.

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