Na França, extremismo tira voto da direita

Enquanto na Hungria, na Alemanha e na Noruega a extrema direita é cada vez mais associada ao autoritarismo e à violência, na França um fenômeno inverso ocorre: a exatos três meses das eleições presidenciais, o partido de extrema direita Frente Nacional (FN) faz cada vez mais parte do cenário político do país, conquistando a admiração dos franceses.

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h03

Quase um terço do eleitorado (31%) se diz de acordo com as ideias do FN, que prega políticas de imigração de caráter xenofóbico e ações econômicas protecionistas, como a saída da França da União Europeia e da zona do euro. O maior poder de sedução é atribuído a Marine Le Pen, filha e sucessora do ultraconservador e ex-candidato à presidência Jean-Marie Le Pen.

Alçada à presidência do partido, ela se mantém há um ano com cerca de 20% das intenções de voto, ameaçando roubar o posto do atual presidente, Nicolas Sarkozy, no segundo turno da votação.

A três meses das eleições, cientistas políticos e institutos de pesquisa descobriram que Le Pen não apenas tem um eleitorado fiel, mas que suas ideias são cada vez mais populares. De acordo com dados levantados pelo instituto TNS Sofres, no intervalo de um ano, o número de franceses que se considera "alinhado" às ideias da FN cresceu 9%.

Na prática isso significa dizer que mais e mais franceses defendem a imposição de barreiras à imigração, a expulsão de estrangeiros, o fechamento da economia e o retorno ao franco. A adesão é ainda mais elevada entre trabalhadores, tanto urbanos (40%) quanto rurais (41%) - os mais atingidos pela crise da zona do euro, pelo desemprego e pelos programas de austeridade fiscal.

Jean-Yves Camus, cientista político e especialista em extremismos, acredita que sob o comando de Marine Le Pen a extrema direita francesa está se banalizando, transformando-se pouco a pouco em um partido como qualquer outro.

"Em 2007, Sarkozy emplacou um golpe magistral roubando o eleitorado operário da FN", lembra. "A grande diferença entre 2007 e 2012 é que Sarkozy, agora, é candidato à reeleição. O que ele conseguiu em 2007, pode não conseguir em 2012."

De acordo com analistas políticos, é cada vez mais real o risco de reedição do 22 de abril de 2002, quando o primeiro-ministro, Lionel Jospin, candidato do Partido Socialista (PS) à presidência, perdeu a eleição, cedendo seu lugar no segundo turno a Jean-Marie Le Pen.

O fenômeno, porém, pode ser inverso: em lugar de roubar o lugar da esquerda no segundo turno, Marine pode tirar a vaga da direita. Segundo as últimas pesquisas de opinião, François Hollande, candidato do PS, tem 27% das intenções de voto, à frente de Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP), com 23%, e de Marine Le Pen, com 21%.

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