REUTERS (06/04/2021)
REUTERS (06/04/2021)

Na fronteira da Rússia com a Ucrânia, uma mobilização militar impossível de ignorar

A mobilização de uma massa de tanques e infantaria da Rússia em sua fronteira sudoeste com a Ucrânia busca mandar um recado, de acordo com os analistas

Andrew E. Kramer, The New York Times

19 de abril de 2021 | 12h00

MASLOVKA, Rússia - Nas profundezas de uma floresta de pinheiros no sul da Rússia, caminhões militares com o contorno camuflado por redes aparecem entre as árvores. Soldados em veículos com tração nas quatro rodas percorrem acidentadas estradas de terra. E, do lado de fora de um acampamento recém-erguido, sentinelas de Kalashnikov no ombro marcham de um lado para o outro.

No último mês, mais ou menos, a Rússia vem mobilizando o que os analistas descrevem como a maior força militar vista ao longo da fronteira com a Ucrânia desde o início da guerra de Kiev contra separatistas apoiados pelos russos, sete anos atrás.

A operação nada tem de clandestina: durante uma visita ao sul da Rússia realizada por um jornalista do New York Times, as evidências da mobilização estavam por toda parte.

A movimentação está disparando alarmes na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), nas capitais europeias e em Washington, e é vista cada vez mais como um teste inicial para a política externa do governo Biden, que acaba de aplicar a Moscou nova rodada de sanções. A Rússia respondeu quase imediatamente, anunciando na sexta-feira a expulsão de dez diplomatas americanos.

As sanções americanas têm como objetivo punir a Rússia por uma série de atividades anteriores, incluindo a interferência nas eleições americanas, a invasão eletrônica de empresas e agências do governo no episódio "Solar Winds", várias iniciativas de desinformação e a anexação da Crimeia.

O ministro da defesa da Ucrânia, Andrii Taran, disse a legisladores europeus na quarta-feira que a Rússia tem uma guarnição de aproximadamente 110 mil soldados perto da fronteira ucraniana. Em Washington, o diretor da CIA disse ao congresso que ainda não está claro se a mobilização é uma demonstração de força ou os preparativos para uma ameaça maior.

Mesmo que o objetivo da mobilização não seja claro, analistas militares dizem ser quase certo que a ideia era que fosse vista. Uma demonstração de força adianta pouco se não foi vista por ninguém.

"Eles estão mobilizando suas forças de maneira muito visível", disse Michael Kofman, analista sênior do CNA, centro de estudos estratégicos com sede em Arlington, Virgínia, que monitora a atividade militar. "É tudo feito de maneira aberta diante dos olhos de todos. Isso é intencional."

Na verdade, para evitar que a movimentação passe despercebida, o exército russo tem emitido comunicados anunciando parte dela com antecedência. A alta visibilidade custou à Rússia o eventual elemento da surpresa, o que leva os analistas a minimizar (mas não excluir) a possibilidade de um ataque real.

De acordo com eles, é mais provável que a mobilização seja um alerta para que o Ocidente não considere a Rússia uma carta fora do baralho. Depois de quatro anos de condescendência por parte do governo Trump, o presidente Vladimir Putin vê-se agora em uma posição desconfortavelmente exposta, de acordo com ensaio recente de Dmitri Trenin, do Carnegie Center de Moscou.

As relações do Kremlin com a Europa se encontram no ponto mais baixo desde a era Gorbachev, pioradas diante das evidências de interferência e intriga por parte dos russos.

"Ao mesmo tempo", escreveu Trenin, "a coordenação entre as políticas americana e europeia para a Rússia melhorou muito sob Biden".

Conhecido pela sensibilidade a ofensas, Putin só pode reconhecer que a Rússia está longe do topo da lista de prioridades do presidente Joe Biden para a política externa.

Putin também pode ter sido provocado pelas ações do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, que nos meses mais recentes levou suas tropas mais para perto das regiões separatistas, fechou emissoras de TV favoráveis à Rússia e acusou de traição alguns líderes separatistas.

A partir dessa perspectiva, a mobilização maciça de tropas também pode servir para pressionar a Ucrânia a mudar de posicionamento na negociação de paz, aceitando mais favoravelmente os termos da Rússia.

De perto, a mobilização russa é ainda mais difícil de ignorar. Rastros dos tanques cortam o estacionamento do vilarejo. No acostamento, crianças boquiabertas acompanham a passagem de caminhões militares que deixam atrás de si nuvens de poeira. Repórteres russos e estrangeiros têm vindo diariamente testemunhar a agitação.

Entrevistados em um recente dia fresco de primavera enquanto reviravam o solo preto dos seus terrenos para preparar o plantio, moradores dos vilarejos próximos ao campo de treinamento de Pogonovo, epicentro da mobilização, pareciam dispostos a participar do suposto sigilo da operação.

Yevdokia Novikova, 86 anos, uma enfermeira aposentada, disse que a atividade militar tinha como objetivo mandar um recado ao Ocidente.

"É perda de tempo brigar com a Rússia", disse ela a respeito do recado.

Mas, em seguida, estreitando o olhar com a suspeita diante de um estrangeiro fazendo perguntas a respeito dos veículos militares vistos por todo lado, ela também disse que a atividade não deveria ser vista.

"Cuidado!" alertou ela. "Se escrever as palavras erradas, pode levar uma paulada."

Mas essa região de pouco destaque na estepe russa, a cerca de 180 quilômetros da fronteira com a Ucrânia, serve inequivocamente como central para a mobilização. Imagens de satélite disponíveis comercialmente publicadas nas redes sociais mostraram centenas de veículos blindados patrulhando as estradas ou estacionados na floresta de pinheiros.

Um vídeo publicado na internet e autenticado pela Conflict Intelligence Team mostrou um imenso lançador de foguetes modelo TOS, apelidado de Pinóquio por causa do grande nariz formado pela arma. O veículo era transportado por um caminhão entre os lares de verão em Maslovka.

Caminhões também transportavam carros blindados chamados BMPs, equivalente russo do americano Bradley Fighting Vehicle. Peças de artilharia, unidades de infantaria, forças especiais, tanques, mísseis e veículos de desembarque naval foram fotografados em mobilização perto da fronteira ucraniana.

No início do mês, o exército russo divulgou à imprensa um comunicado anunciando nova mobilização dos veículos de desembarque naval perto da Ucrânia, caso alguém ficasse curioso. Os veículos cruzaram rios e canais ligando o Mar Cáspio ao Mar Negro. O ministério publicou imagens.

Biden indicou o desejo de relaxar as tensões. Em comentários conciliatórios publicados na quinta-feira, ele disse que as sanções aplicadas pelos EUA não são as mais severas que o país poderia adotar.

"Optei por uma resposta proporcional", disse ele. "Os Estados Unidos não querem dar início a um ciclo de intensificação de conflitos com a Rússia."

Ele propôs uma reunião de cúpula com Putin.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse repetidas vezes que a Rússia tem todo o direito de mobilizar guarnições onde bem entender dentro de suas fronteiras. O ministro da defesa da Rússia, Sergey Shoigu, disse ter ordenado uma verificação nacional de prontidão em resposta a movimentações agressivas por parte da Otan.

Quando nos afastávamos de carro do vilarejo, policiais militares pararam nosso veículo e exigiram que os seguíssemos até a zona de treinamento militar para uma conversa com o comandante.

No caminho, passamos por grandes caminhões militares verdes estacionados na floresta, alguns deles com antenas de comunicação armadas no teto, e por um grande acampamento camuflado com redes.

"A presença de vocês aqui não é proibida", disse o comandante, capitão Kirill Smirnov. "E também não é recomendada."

Os EUA e seus aliados se preocupam cada vez mais com a mobilização das tropas russas, alertou o diretor da CIA, William Burns, ao senado na quarta-feira. A mobilização envolve forças suficientes para uma possível incursão.

Mas Burns disse que autoridades americanas ainda tentavam determinar se o Kremlin estaria se preparando para ações militares ou simplesmente mandando um recado./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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