Brendan Hoffman/The New York Times
Brendan Hoffman/The New York Times

Na fronteira da Ucrânia com a Rússia, a guerra excruciante e a cansativa expectativa da invasão

Depois de oito anos nas trincheiras, soldados da Ucrânia resignam-se frente à possibilidade de que o exército russo, que muito os supera em poderio e recursos, chegará cedo ou tarde

Michael Schwirtz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 15h00

AVDIIVKA, Ucrânia — Disparos de metralhadora romperam o silêncio pouco após as 20h, quando o capitão Denis Branitskii estava na metade de sua patrulha noturna. Os tiros vinham em rajadas esporádicas das proximidades, disparados por separatistas apoiados pela Rússia cujas posições eram ocultas pela escuridão. Foi somente quando o clarão do disparo de uma granada impulsionada por foguete iluminou a neve recém-caída que o capitão Branitskii interrompeu sua marcha, fazendo uma pausa para se proteger antes de continuar o percurso.

“Isso acontece toda noite”, afirmou o capitão Branitskii, um comandante de companhia de queixo furado que lidera a 25.ª Brigada Aérea militar ucraniana, posicionada ao longo das linhas de frente no leste da Ucrânia. “Às vezes a artilharia é muito mais pesada, às vezes é como nesta noite. Esta noite está tranquila.”

É assim que a guerra tem sido há anos, um vagaroso e sangrento atrito que se estabeleceu após ambos os lados lutarem até um impasse pelo território tomado por forças apoiadas pela Rússia em 2014. Agora, autoridades ucranianas e ocidentais afirmam que algo mais ameaçador pode estar se formando.

Nas semanas recentes, elas alertaram que a Rússia está erigindo a engenharia necessária para uma significativa ação miliar, possivelmente uma invasão total. Funcionários de espionagem americanos avaliam que Moscou teria planos para uma ofensiva militar envolvendo estimados 175 mil soldados, a ser iniciada já no início do próximo ano. Fotos de satélite recentes mostram uma concentração de equipamentos, incluindo tanques e artilharia.

O presidente russo, Vladimir Putin, rebateu afirmando que são os ucranianos, com seus aliados dos EUA e da Europa Ocidental, que estão instigando uma guerra, citando o que ele qualifica como ameaças de segurança à Rússia, incluindo exercícios da Otan no Mar Negro.

Em meio a crescentes temores, Putin e o presidente americano, Joe Biden, conversaram por videoconferência nesta terça feira. A Casa Branca afirmou que Biden reafirmaria “o apoio dos EUA à soberania e à integridade territorial da Ucrânia”.

Putin deixou clara sua posição. “Não somos nós que estamos ameaçando alguém”, afirmou ele na semana passada, “e acusar-nos disso, dada a realidade na região, ou, como dizemos, isentar o doente de culpa para então culpar o homem são é, no mínimo, irresponsável”.

Para os combatentes entrincheirados nas redes de trilhas enlameadas cavadas em ambos os lados do conflito na Ucrânia, falar de uma nova guerra pode parecer intrigante. Para eles, a guerra nunca acabou. Um cessar-fogo de 2015 entre o governo ucraniano e as forças apoiadas pelos russos em dois enclaves separatistas colocaram fim à maioria das hostilidades mais graves, em um conflito que custou mais de 13 mil vidas. Mas não trouxe a paz.

O que é conhecido como a “linha de contato” separando ambos os lados crepita com tiros pontuados com ocasionais estrondos de disparos de artilharia. Alguns soldados ucranianos são mortos todos os meses, em sua maioria por atiradores de elite. Em setembro, sete morreram, dois em outubro e seis em novembro. Na semana passada, um soldado de 22 anos chamado Valerii Herovkin foi o primeiro a ser morto em dezembro.

Até agora, soldados nas linhas de frente afirmaram ter visto pouca evidência de uma escalada além dessa guerra de atrito em grande parte morosa. Em comparação com os intensos combates que a precederam, isso parece uma temporada de férias, afirmaram vários soldados.

Mas após oito anos nas trincheiras dessa região, existe uma fatigada aceitação de que o status quo não poderá durar para sempre, e o exército russo, que em muito supera o deles em poderio e recursos, chegará cedo ou tarde. Se o momento chegou, afirmaram eles, que assim seja.

“Estudei na universidade e tenho a cabeça no lugar, então reconheço perfeitamente bem o perigo que o exército russo representa, e sei que ninguém pode garantir que Putin ou outra pessoa não gritará de repente, ‘Avançar!’", afirmou o primeiro-tenente Ivan Skuratovski, um estoico ucraniano de 30 anos, pai de duas crianças, que está lutando desde o começo da guerra, em 2014, “Estamos preparados para essa sucessão de eventos porque é nossa função, e ninguém além de nós está em posição de confrontar essa ameaça.”

“Tememos uma ofensiva franca?”, acrescentou ele. “Não vejo isso nas pessoas.”

Os soldados estão em alerta elevado, de qualquer maneira, cientes de que neste período de tensões explosivas, uma simples bala perdida ou disparo de morteiro poderiam bastar para desencadear uma grave escalada. Mesmo quando estão sob fogo, eles têm ordens estritas para só responder quando for absolutamente necessário.

Na noite que acompanhei o capitão Branitskii em sua patrulha, os soldados sob seu comando responderam ao fogo adversário somente uma vez. “Só para eles saberem que estamos aqui”, afirmou o capitão Branitskii. O disparo do lançador de granadas do soldado ucraniano silenciou a metralhadora do outro lado da linha, mas apenas brevemente. “Incomoda muito os soldados o fato de não termos autorização para responder”, afirmou o tenente Skuratovski.

Desde agosto, a 25.ª Brigada Aérea foi estacionada numa área nas imediações da cidade ucraniana de Avdiivka, conhecida como Promzona, uma base construída sobre a estrutura remanescente de uma fábrica de pneus. Palco de combates ferozes no início da guerra, o complexo da fábrica está agora fantasmagoricamente silencioso, salvo pelo assobio do vento que passa pelos furos de bala nas paredes das estruturas e o barulho das coberturas soltas de metal balançando.

O complexo é vizinho a um bairro de chalés rurais, que agora não passam de estruturas chamuscadas. As casas foram abandonadas rapidamente, muito tempo atrás. Brinquedos das crianças que viviam por lá ainda estão espalhados por alguns quintais, e os descendentes dos bichos de estimação abandonados pelas famílias vagueiam por jardins há muito não aparados.

Atiradores de elite são uma ameaça constante, e os muros das posições de frente são cobertos com fotos de ferimentos horripilantes sofridos por aqueles que baixaram a guarda.

Vista através de um periscópio manual, a paisagem do outro lado parece um apocalipse de casas explodidas entremeadas por emaranhados de nogueiras sem folhas. Apenas ocasionais colunas de fumaça que sobe de fogões a lenha entregam as posições dos separatistas.

Apesar de os combatentes do outro lado não estarem a muito mais de algumas dezenas de metros, em alguns pontos, os soldados ucranianos confessaram que sabem pouco a respeito deles. O ódio pelo inimigo, porém, é intenso, apesar de todos já terem sido cidadãos de um país anteriormente unido. “São pessoas dos níveis mais baixos da sociedade, que nunca conseguiram encontrar a si mesmas ou alguma profissão”, afirmou a tenente Tatiana Zaritskaia, uma ex-professora de educação infantil que se juntou ao esforço de guerra em 2014.

Outro comandante de companhia, Oleksandr Timoshchuk, estudou os adversários empoleirado no canto de um prédio da fábrica, a pouco mais de 50 metros de onde eles estavam posicionados. Ele afirmou que três ou quatro vezes por mês, provavelmente perto de seu dia de pagamento, “eles começam a discoteca”, ficam bêbados e atiram contra sua posição. “Os canalhas enchem a cara, vão para o lado de fora provavelmente para urinar, jogam uma granada e voltam para dentro”, afirmou ele.

Os militares ucranianos fizeram avanços significativos desde 2014, após quase terem se desintegrado em face a uma operação relâmpago das forças russas para conquistar território, primeiro anexando a Península da Crimeia e depois fomentando a tomada das Províncias de Donetsk e Luhansk pelos separatistas.

Desde então, os soldados ucranianos têm lutado lado a lado com forças da Otan no Afeganistão e no Iraque e recebido treinamento de conselheiros militares americanos.

Se um ataque total ocorrer, as forças ucranianas estão prontas para enfrentá-lo como jamais estiveram, afirmou o general Oleksandr Pavliuk, comandante da Operação das Forças Conjuntas que combate os separatistas, mas não terão condições de resistir ao exército russo sem uma ajuda significativa de países ocidentais, especialmente dos EUA.

Alguns analistas militares afirmaram que, desafiada por uma invasão total de forças imensamente superiores, a Ucrânia conseguiria, na melhor das hipóteses, organizar uma retirada. O general Pavliuk citou os muitos cidadãos ucranianos com experiência militar e sugeriu que o conflito poderia envolver algo parecido com uma insurgência, com ucranianos lutando contra os russos a cada quarteirão, a cada residência. Mas a guerra teria um custo desastroso.

“Essa fera já sentiu o gosto de sangue”, afirmou o general Pavliuk. “Acredite em mim, as perdas serão terríveis para ambos os lados — milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares. Do lado deles e do nosso.”

Para aqueles no front responsáveis por manter a atenção, há uma sutil mas palatável mudança no ambiente, mesmo que não seja notada pelos soldados.

“No mês passado, ou um mês e meio atrás, tudo começou a acontecer com mais frequência”, afirmou um comandante militar de inteligência coberto por máscara e capacete, que se identificou apenas como Ilia. “Os disparos estão mais frequentes, tanto de artilharia quanto de armamento menor. Drones começaram a voar com mais frequência e, se antes eles não soltavam bombas, agora eles criaram um sistema com essa capacidade. É uma ativação total.”

A equipe de Ilia transformou um apartamento bombardeado em um posto de observação das linhas inimigas na cidade de Marinka, a 56 quilômetros de Avdiivka. Uma parte da parede ainda está decorada com papel de parede cor de rosa, mas a janela da sala de estar foi destruída por uma explosão e agora está reforçada por sacos de areia e coberta por uma tela de proteção verde. Essa posição avançada dá a Ilia e sua equipe uma visão expandida das posições dos inimigos. Tudo estava quieto. Ou assim parecia.

“Não incline muito o corpo para fora, pode haver um atirador de elite”, alertou Ilia. “Há apenas dois dias, um sujeito foi baleado e não sobreviveu.”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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