Na fronteira das Coreias, um ícone da Guerra Fria

Zona desmilitarizada tornou-se o 1º destino turístico da região, apesar do clima tenso

LISANDRA PARAGUASSU , ENVIADA ESPECIAL / SEUL, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h03

A descida de monotrilho através do túnel aberto pelos norte-coreanos para tentar invadir a Coreia do Sul, em 1978, lembra uma montanha-russa. O barulho do trem, abandonado na guerra que dividiu as Coreias, na década de 50, faz a trilha sonora. Ele reforça o clima para os turistas que visitam a Zona Desmilitarizada entre as Coreias - a DMZ, sigla em inglês para o local que se tornou uma espécie de parque temático da Guerra Fria.

Ao lado, uma barraca de souvenirs vende camisetas, copos de licor e ímãs de geladeira. Mas os soldados do Exército sul-coreano e as normas de segurança não deixam dúvidas de que a guerra ainda está no ar.

Com cerca de um milhão de visitantes no ano passado, a DMZ é hoje o maior ponto turístico da Coreia do Sul. É destino de dezenas de excursões diárias, tem restaurantes e até mesmo um parque de diversões real, com roda gigante e carrossel. Em breve, terá um parque ecológico. Com uma enorme área de reserva natural protegida pelos anos de circulação restrita, o governo sul-coreano quer promover o ecoturismo com trilhas para ciclistas e caminhadas dentro da zona protegida - precisa só do aval da ONU para ampliar a circulação de pessoas na área.

A zona desmilitarizada entre os dois países foi estabelecida em 1953, quando a guerra iniciada três anos antes chegou a um impasse e um cessar-fogo foi imposto. Oficialmente, as duas Coreias vivem até hoje apenas uma trégua, não uma paz oficial.

Sob supervisão da ONU, uma zona de 4 quilômetros - 2 de cada lado da fronteira - ficou sob guarda internacional, especialmente americana. Não há postos de passagem entre os dois países e a enorme quantidade de arame farpado e torres de observação é prova de que ali a realidade não é exatamente divertida.

Os turistas, no entanto, estão transformando a cidade de Paju, onde começa a DMZ. Entre 2005 e 2007, quando as negociações entre as Coreias atingiram seu melhor momento, o governo sul-coreano investiu em estradas e linhas de trem para melhorar o acesso à fronteira - antes dificultado justamente para atrapalhar uma possível tentativa de invasão dos "inimigos do norte".

As relações voltaram à geladeira, mas, primeiro os sul-coreanos, e depois visitantes de todos os lugares do mundo, descobriram a graça de espiar, à distância, uma zona de guerra e dar uma olhada no país mais fechado do mundo.

Túneis. A chegada, onde se compram ingressos, dá a primeira visão da DMZ. Viadutos fechados por blocos de concreto e uma prosaica ponte de madeira para pedestres interrompida mostram que ali começam os 2 quilômetros onde não se entra. Um trem enferrujado, abandonado na fuga do Exército sul-coreano quando o país foi invadido, tem lugar de destaque.

A próxima parada é o chamado terceiro túnel: a terceira tentativa de invasão dos norte-coreanos foi descoberta em 1978, depois que a escavação tinha mais de 1,5 km e estava a menos de 50 km de Seul. Bloqueado, o túnel hoje tem um monotrilho para que os aventureiros cheguem até o fundo e vejam as paredes pintadas de carvão pelos norte-coreanos, tentativa de fingir que aquilo era uma mina.

O último ponto é o observatório. Ali, telescópios para turistas, do tipo encontrado no alto de lugares como a Torre Eiffel, permitem bisbilhotar um pouco a Coreia do Norte. Em dias claros, garante o guia, é possível ver uma enorme estátua do ditador Kim Jong-Il, morto em dezembro, a 18 quilômetros da fronteira. Mas sem fotos: uma linha delimita de onde podem ser feitas as imagens e qualquer infrator é rapidamente retirado pela meia dúzia de soldados que protegem a área. Da área autorizada, quase nada se registra: muito céu, algumas montanhas muito ao longe.

Em dias comuns, há ainda uma quarta parada, aberta apenas um dia na semana: a visita a Panmunjon, a única vila existente dentro da DMZ, exatamente na fronteira. Dali sim é possível ver os sisudos soldados norte-coreanos e toda a estrutura montada pela ONU para dividir os dois países.

Da mesma forma, as centenas de turistas que lotam a DMZ todos os dias com suas câmeras não conseguem esconder que muito perto dali a guerra ainda está viva. Placas avisando de minas terrestres cercam estradas. São 1,4 milhão delas.

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