Na fronteira, rancor por Israel persiste

A cerca de três ou quatro metros da fronteira com Israel, há uma estrada libanesa com bandeiras do Hezbollah, do movimento aliado Amal, do Líbano, algumas palestinas e até mesmo do Irã. Nestes dias de dezembro, também foram colocadas algumas pretas para celebrar a Ashura, principal festividade xiita. Pôsteres de membros da organização mortos em ação, do xeque Hassan Nasrallah e até do aiatolá Khomeini compõem o restante da paisagem.

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

Os soldados das forças de paz da ONU estão posicionados para observar se algum dos lados viola as resoluções da organização. Os soldados israelenses ficam escondidos em uma espécie de trincheira. Os libaneses estão a poucos metros de distância. Depois da retirada, em 2000, se tornou uma espécie de ritual para moradores do lado libanês atirar pedras em Israel.

Os libaneses da região parecem levar a vida normalmente. Há casas grandes, de xiitas que ganharam dinheiro na África. Na Rua Gana, em uma das vilas, eles exibem carros caros e se vestem bem com dinheiro dos diamantes africanos. As mulheres cobrem a cabeça. Quase tudo foi reconstruído com ajuda de países como o Catar e o Irã.

Em Bint Jbeil, o pequeno estádio de várzea onde o presidente Mahmoud Ahmadinejad discursou no mês passado tornou-se atração turística. Não muito longe dali, há uma escultura de um guerrilheiro do Hezbollah pisando em um capacete com a estrela de David.

Nestas vilas, não dá para diferenciar quem integra a organização e quem é civil. Basicamente, quase todos os jovens xiitas libaneses do sul integram uma espécie de reserva da organização, caso seja necessário lutar mais uma vez contra Israel - ou, quem sabe, para tomar o poder no Líbano. Em Beirute, costuma-se dizer que, se o Hezbollah quisesse, eliminaria seus rivais em poucas horas.

Há dois anos, a organização praticamente conseguiu esse objetivo ao ocupar as principais áreas sunitas da capital libanesa. Apenas se retirou por vontade própria, depois de enfrentar uma pequena resistência.

De crianças prestando juramento de resistir aos israelenses em uma manifestação em Nabatieh ao livro do número dois do grupo, Naim Qassem, sempre os integrantes deixam claro que a meta final é combater Israel.

Na visão do Hezbollah, eles venceram Israel duas vezes, enquanto os Exércitos dos países árabes sempre foram derrotados. "Os israelenses sabem lutar apenas contra soldados, não contra guerrilhas", disse ao Estado um membro do braço militar da organização que se identificou como Abu Adballah. "Não adianta integrar as Forças Armadas libanesas porque isso apenas facilita a vida dos israelenses em uma guerra." Ele acrescenta que "a única estratégia para vencer Israel é lutar como a gente".

"O Hezbollah acredita que pode derrotar os israelenses pela força", diz Thanassis Cambanis, autor de livros sobre a organização. Hani Sabra, da consultoria Eurasia, discorda. "O projeto de longo prazo do Hezbollah não é destruir Israel. A organização tem um foco doméstico. Não para controlar o Líbano como um Estado islâmico. Apenas para manter o seu poder."

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