Eric S. Lesses/EFE/EPA
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Briga interna por Trump toma conta do Partido Republicano na Geórgia

Hostilidades no Estado envolvem um emaranhado de rivalidades sobrepostas entre republicanos locais e do país

Richard Fausset e Jonathan Martin / The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 08h00

ATLANTA — Não há momento pior para uma guerra civil entre os republicanos do Estado da Geórgia. O candidato presidencial deles acaba de perder por uma pequena margem em um Estado que há muito é tido como território garantido pelos conservadores, enquanto duas disputas de segundo turno se aproximam em janeiro, podendo determinar a formação de uma maioria no Senado americano — e a direção que o país deve seguir na primeira parte da década.

Autoridades eleitorais da Geórgia concluíram a recontagem manual de cerca de 5 milhões de votos em todo o Estado, e devem divulgar o resultado nesta quinta-feira, 19 - com pouca chance de reverter a vitória de Joe Biden por quase 14 mil votos.

Mas a guerra veio, repleta de traições, acusações mútuas de incompetência e falsidade, e uma amarga subdivisão em facções que discutem até que ponto devem ser leais ao presidente Donald Trump — e até que ponto os republicanos devem reproduzir as falsas acusações dele segundo as quais a vitória eleitoral lhe foi roubada nesse Estado sulista em rápida transformação.

Os republicanos na Geórgia e em outros lugares têm agora uma decisão a tomar. Podem seguir tomando o partido de Trump e suas imprudentes acusações de fraude, correndo o risco de afastarem o eleitor moderado que talvez esteja cansado do trumpismo — incluindo os milhares que ajudaram a fazer da Geórgia um Estado democrata esse mês. Ou podem romper com Trump, atraindo a fúria dele e correndo o risco de jogar o equivalente a uma toalha molhada no comparecimento do eleitor conservador quando for realizado o segundo turno, em janeiro.

“Sem dúvida, é uma questão que está dividindo os republicanos na Geórgia", disse Ashley O’Connor, estrategista republicana. “Mas, para os republicanos, está em jogo o equilíbrio no Senado, e seria bom se todos lembrassem disso.”

As hostilidades no Estado envolvem um emaranhado de rivalidades sobrepostas entre republicanos locais e do país. Na semana passada, em um extraordinário ataque intrapartidário, os senadores que lutam pela reeleição em um segundo turno surpreendentemente disputado, Kelly Loeffler e David Perdue, divulgaram um comunicado conjunto pedindo a renúncia do secretário do Estado, o republicano Brad Raffensperger. De acordo com eles, a eleição supervisionada por ele, na qual Trump perdeu para Joe Biden por cerca de 14 mil votos, foi uma “vergonha". Loeffler e Perdue são ardentes defensores de Trump.

Raffensperger defendeu a integridade do processo eleitoral e indicou que nada disso seria um problema se os candidatos republicanos tivessem produzido um resultado melhor nas urnas. Ele também atacou o deputado republicano Doug Collins, que comandou os esforços de recontagem de Trump, chamando-o de “mentiroso". Collins respondeu chamando Raffensperger de incompetente.

A hostilidade extrapolou as fronteiras estaduais, envolvendo Trump e um de seus aliados mais irredutíveis, o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul. Trump descreveu Raffensperger como “republicano apenas na filiação", enquanto seguia fazendo alegações falsas a respeito da integridade do processo eleitoral na Geórgia; aproveitando o momento, ele fez críticas ao governador republicano do Estado, Brian Kemp, aliado de Trump e às vezes seu bode expiatório.

E Raffensperger disse ao Washington Post na segunda feira que Graham perguntou a ele a respeito de maneiras de desclassificar possíveis cédulas, algo que o secretário do Estado viu como pressão para procurar evidências de fraude com mais afinco (Graham descreveu essa interpretação como “ridícula”).

As disputas na Geórgia renderam um pano de fundo confuso para os esforços mais amplos de Trump no sentido de enfraquecer o sistema eleitoral como um todo. Também complicaram os esforços de Perdue e Loeffler na busca pela reeleição.

Enquanto ambos os senadores promoverem as conspirações de Trump e se recusarem a reconhecer a vitória de Biden, eles perdem aquela que seria talvez sua melhor mensagem para os eleitores indecisos do Estado: os georgianos poderiam elegê-los como forma de equilibrar o poder de Biden, impedindo eventuais excessos liberais facilitados pelo pleno controle democrata da capital.

No nível nacional, os republicanos estão alarmados com a ideia segundo a qual a estranha situação na Geórgia seria apenas uma amostra daquilo que o partido pode enfrentar na era pós-Trump, nome que talvez nem se aplique.

Com Trump indicando que pretende manter o controle do partido e possivelmente tentar nova eleição para a Casa Branca em 2024, legisladores e operadores do Partido Republicano estão se preparando para um período no qual se verão essencialmente de mãos atadas diante de um ex-presidente que exige exercer poder de veto nas eleições intrapartidárias.

“É bem possível, senão provável, que Trump esteja em posição de determinar os candidatos nas eleições primárias de 2022", disse Todd Harris, publicitário republicano de longa data. “Quer as pessoas gostem ou não, esse é o partido de Trump. E nada que tenha ocorrido no dia da eleição ou desde então conseguiu mudar isso.”

Após o segundo turno da eleição na Geórgia para o Senado, o primeiro teste da influência de Trump vai ocorrer em outro Estado do sul que já passou por uma metamorfose política semelhante: a Virgínia. Os republicanos do Estado esperam eleger o governador no ano que vem. Mas temem que seu eventual candidato tenha de demonstrar fidelidade ao ex-presidente de uma forma que pode garantir o sucesso nas primárias, mas acabar com suas chances de vencer uma eleição geral em um Estado onde Biden venceu por margem de 10 pontos.

Mais significativa é a disputa em 2022, quando estarão em disputa dezenas de governos estaduais e o controle da Câmara e do Senado. Os republicanos temem que Trump se vingue dos republicanos atualmente eleitos que não demonstrarem suficiente lealdade a ele — temor que ele alimentou essa semana quando atacou o governador de Ohio, Mike DeWine, que usou uma aparição em rede nacional de TV para reconhecer que Biden tinha vencido a eleição.

“Quem vai se candidatar para o governo do grande Estado de Ohio?” publicou Trump no Twitter, praticamente pedindo que alguém dispute as primárias contra um político eleito extremamente popular que há décadas serve ao Estado. “A disputa será acirrada.”

Mas é na Geórgia que os republicanos precisam agora caminhar sobre ovos quando se trata do seu impetuoso líder.

A Geórgia terminou a auditoria da contagem de todos os 5 milhões de votos depositados em todos os 159 condados do Estado. Autoridades eleitorais disseram que só foram identificadas discrepâncias menores, com a exceção do Condado de Floyd, no noroeste, onde foram descobertos cerca de 2.600 votos que não tinham sido contados. O gabinete do secretário do Estado anunciou na terça-feira que outra discrepância foi identificada, no Condado Fayette, onde a recontagem revelou 449 votos adicionais para Trump, reduzindo a vantagem de Biden para 12.929 votos.

A campanha de Trump emitiu um comunicado na terça-feira apontando para esses problemas e concluindo que “Revelações recentes da recontagem estadual em andamento na Geórgia mostraram que o presidente Trump tinha toda a razão em citar suas preocupações". Mas nenhuma das duas discrepâncias deve alterar o resultado (a vitória de Biden) quando a recontagem chegar ao fim.

Ainda que Trump continue sendo o mais popular político republicano da atualidade, ainda não se sabe ao certo quanto tempo essa popularidade vai durar e, com isso, é difícil saber se o governador Kemp — que se manteve leal a Trump mesmo após ser criticado pelo presidente — ou terão dificuldade com a base republicana quando se candidatarem à reeleição em 2022.

“Acho que o cisma entre aqueles alinhados com Trump e os que não seguem o presidente vai acabar produzindo um desfecho, mas, no momento, Trump e seus aliados estão em vantagem", disse Andra Gillespie, professora-assistente de ciências políticas da Universidade Emory, em Atlanta. “A pergunta é: quanto tempo vai durar seu controle do Partido Republicano?”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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