REUTERS/Ezra Acayan
REUTERS/Ezra Acayan

Na guerra contra as drogas nas Filipinas, quem se entrega conta com pouca ajuda

O assassinato de 1.300 suspeitos de envolvimento com o tráfico assustou e fez milhares de pessoas se entregarem, mas o governo se mostra despreparado para lidar com a massa de usuários que quer largar o vício

Richard C. Paddock / The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2016 | 05h00

MANILA – Rayzabell Bongol tem 18 anos, é mãe e usuária de metanfetamina. Com medo de morrer na guerra ao tráfico instaurada pelo presidente Rodrigo Duterte, nas Filipinas, ela se entregou à polícia. Lá, foi convencida a assinar um termo de compromisso de abrir mão do vício para sempre e liberada.

Agora, uma vez por semana deve participar da aula de Zumba custeada pelas autoridades, onde faz um exame de saúde e uma refeição. "O Duterte prometeu mudança. Dá para ver que estou mudando", disse ela, recentemente, em uma aula com mais de 30 viciados em recuperação, requebrando ao som da batida latina.

O assassinato, em todo o país, de cerca de 1.300 suspeitos de envolvimento com o tráfico, assustou e fez milhares de pessoas como Rayzabell se entregar. As autoridades calculam que o número chegue a 687 mil, superando, em muito, as expectativas, o que prova que a violenta campanha de Duterte está funcionando.

Acontece que o governo se mostra totalmente despreparado para ajudar a massa de usuários de drogas que quer abandonar o vício, deixando praticamente todos tentando se recuperar sozinhos. As precárias instalações das clínicas de reabilitação não conseguem lidar com a demanda, criando uma nova crise para Duterte, que continua com a campanha violenta para livrar o país dos traficantes.

No dia 3, depois da explosão que matou 14 pessoas em uma feira noturna, ele declarou "estado de ilegalidade", dando às Forças Armadas o poder de realizar operações policiais, incluindo patrulhar áreas urbanas, fazer revistas, estipular toque de recolher e definir postos de controle.

Entretanto, o governo está tendo problemas em expandir o serviço de recuperação para acompanhar o ritmo das medidas de segurança. Há menos de 50 centros em todo o país e a maioria já está lotada. Faltam também médicos para avaliar as necessidades de cada paciente e terapeutas qualificados.

Assim, entre outras medidas, está construindo novas clínicas em bases militares e organizando seminários para ensinar aos pacientes técnicas de superação do vício, como explica o Dr. Bernardino Vicente, psiquiatra que lidera a recém-nomeada força-tarefa e está encarregado de criar o plano de ação.

"De repente nos vimos abarrotados. Deflagrou-se uma crise, mas, ao mesmo tempo, podemos tirar vantagem dela para ajudar essas pessoas", afirma o médico que também dirige o Centro Nacional para a Saúde Mental, um dos maiores hospitais psiquiátricos das Filipinas. "Fornecer tratamento para todos os que se apresentaram pode representar um custo de bilhões de dólares", calcula.

Aqueles que se entregam esperam conquistar imunidade, mas nem sempre é o caso. De acordo com a polícia, cerca de 15 mil pessoas foram detidas e enviadas para presídios lotados, a maioria depois de admitir problemas com drogas.

E a rendição também não impede ninguém de ser atacado na rua. Um narcotraficante, Melvin Odicta, conhecido como Dragão, entregou-se à polícia no fim de agosto, para ser liberado logo em seguida. Três dias depois, ele e a mulher, Meriam, foram mortos a tiros no porto. A polícia nega qualquer envolvimento nos crimes. Para a maioria dos viciados, porém, a guerra conta as drogas é um programa de "pega e solta". 

Autoridades locais e a polícia tentam compensar a falta de programas de recuperação organizando atividades como sessões de dança. Meia dúzia de policiais mais animados entrou para mesma aula de zumba de Rayzabell, no bairro de Ususan, em Manila.

Embora o exercício físico seja uma boa diversão, os especialistas dizem que não é o suficiente para auxiliar parte dos viciados – e temem que as pessoas que queriam deixar a metanfetamina, por exemplo, estejam fadadas ao fracasso. "O importante é quando começarem a querer desistir terem a esperança de que algo possa ser feito por eles e, nesse caso, não há nada. Eles vão só ficar sentados, de braços cruzados, esperando", diz Vicente.

A maioria dos viciados filipinos fuma "shabu", uma forma mais barata de metanfetamina que é fácil de adquirir e altamente viciante. De acordo com Duterte, há 3,7 milhões de usuários da droga. Ele os culpa pela epidemia de criminalidade que inclui estupros, roubos e latrocínios. Para Vicente, o número chega a 1,8 milhão, com base em uma pesquisa feita no ano passado. A população filipina é de aproximadamente 100 milhões.

Duterte começou sua cruzada em 30 de junho, no dia em que tomou posse. Ele prometera acabar com 100 mil criminosos nos 6 primeiros meses de governo e desovar tantos cadáveres na Baía de Manila que "os peixes iam engordar". "Se vocês tiverem amigos ou parentes que tomam drogas, é bom dizer para parar, do contrário vão ser mortos", afirmou ele, em 31 de agosto. Seu governo, porém, parece ter exagerado o número de óbitos resultantes da guerra ao tráfico.

Recentemente, o chefe nacional de polícia, Ronald dela Rosa, disse ao comitê do Senado que 1.900 pessoas tinham morrido na campanha. Mas Dionardo Carlos, porta-voz da polícia, afirmou mais tarde que esse número incluía todos os crimes não solucionados. Agora o volume foi corrigido e está por volta de 1.300, incluindo 1 mil que, segundo suas explicações, foram resultantes de resistência à prisão. Os outros 300 são assassinatos cometidos por desconhecidos e estão relacionados com o tráfico.

O excesso de violência foi condenado pela ONU e por grupos internacionais de direitos humanos. Para Martin Andanar, o secretário de Comunicações de Duterte, os críticos no Ocidente deveriam reconhecer que o sistema judiciário filipino se tornou totalmente deficiente. Até agora, os chefões do tráfico se locupletavam em um sistema corrupto, tornando-se intocáveis, graças à ajuda de policiais e funcionários públicos corruptos.

"Temos um sistema totalmente podre e agora vemos um novo presidente disposto a reformar e revolucionar o país inteiro. Votamos em Duterte para presidente porque queríamos uma mudança. Sempre vai haver uma resistência inicial, mas isso não significa que não possa dar certo", constata Andanar.

Ele lamentou o assassinato recente de uma garotinha de 5 anos, Danica May, uma das vítimas mais jovens do tráfico. Ela foi alvejada na cabeça por um atirador não identificado à procura de seu avô, que se entregara três dias antes e tinha sido mandado de volta para casa. "O governo está muito triste por causa disso; é algo que não pode ser racionalizado, mas é preciso ver a tragédia sob um ângulo mais amplo. Imagine quantas crianças seriam mortas se permitíssemos que as drogas se proliferassem na sociedade", prossegue Andanar.

A campanha ganhou o apoio de uma grande parcela dos filipinos, incluindo usuários de drogas que se entregaram. Entre os alunos da aula de Zumba em Ususan está Alma Maaliao, de 47 anos, magérrima, que se recupera do vício em shabu. Ela diz que os dois anos em que alimentou o vício a ajudaram a se concentrar no trabalho – ela é lavadeira –, mas a fizeram se esquecer totalmente dos 11 filhos. E está satisfeita por ter conseguido parar. "É bom para gente como eu, que quer mudança", afirma ela.

E não se importa de ter sido ameaçada de morte para que a mudança tenha ocorrido. "Conheço as regras de Duterte. Sei que quando ele fala uma coisa, ele cumpre. Foi por isso que me entreguei", conclui.

 

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