Photo for The Washington Post by Loay Ayyoub
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Na guerra entre Israel e palestinos, pais criam formas de proteger seus filhos 

Para disfarçar o medo, muitos ouvem música, brincam ou fazem castelos de travesseiros

The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 05h00

Ayman Mghames não tinha o poder de impedir o bombardeio que fazia sua filha, Joury, de 7 anos, chorar. Mas talvez ele conseguisse abafar o som. À meia-noite do quarto dia de ataque, o músico palestino saiu da cozinha onde sua família, de quatro pessoas, se abrigava e foi buscar um par de fones de ouvido que anulam barulho externo. 

Ele cobriu as orelhas da menina, encontrou um vídeo dos Smurfs e apertou play. “Ela começou a sorrir”, recordou-se Mghames. “Ela disse, ‘Papai, você consegue me ouvir?’ Agora, ela dorme com os fones.” Mghames sabe que fones não protegerão seus filhos das bombas que já mataram mais de 200 pessoas em Gaza nos últimos dez dias. Mas ele faz o que pode para protegê-los do trauma.

Pais e mães, em ambos os lados da fronteira, deixam de lado o próprio medo para organizar partidas de futebol dentro de casa, bailinhos, competições culinárias e constroem castelos de travesseiros. Zaher Sbaih põe o filho de 8 anos para tocar uma guitarra de brinquedo para a avó sempre que os ataques recomeçam. “O concerto acalma a todos”, disse Sbaih. Em Gaza, Maha al-Daya, de 44 anos, recordou-se de quando seus filhos cobriram o rosto em seu colo após uma explosão. “Eu chorava baixinho, para que eles não me escutassem”, afirmou. 

Em Israel, os foguetes palestinos forçaram famílias a correr para abrigos antiaéreos mais de dez vezes no mesmo dia. Uma mãe afirmou que tremia tanto que achava que seus abraços somente agravariam o medo dos filhos. “Meu filho consegue perceber a diferença entre um foguete atingido no céu e um foguete que explodiu alguma coisa aqui fora”, afirmou Stella Weinstein, mãe de três crianças de Ashdod. “Não é algo que uma criança de 7 anos deveria saber.”

Há muito tempo, a vida no sul de Israel é marcada pelas sirenes de alerta. Os moradores têm 20 segundos ou menos para chegar a algum abrigo antibomba comunitário, esconder-se sob a escada de algum prédio ou abrigar-se em um dos quartos fortificados de suas casas, que são obrigatórios nos imóveis mais novos.

Stella diz que ela tem sorte por ter um quarto fortificado no apartamento do sexto andar, para o qual se mudaram no mês passado. Eles transformaram o cômodo numa sala de brinquedos para os filhos Ido e os gêmeos de 5 anos. Na primeira noite dos ataques, ela disse que a família teve de correr para o quarto fortificado mais de 15 vezes e, desde então, todos passaram a dormir lá.

Mas qualquer sensação de segurança desapareceu quando, a poucos quilômetros dali, um estilhaço de foguete perfurou a persiana de um quarto fortificado similar e matou um menino de 5 anos – também chamado Ido – que estava ao lado da mãe no abrigo. Segundo Stella, o filho da vizinha, de 2 anos, parou de comer. 

Muitas famílias israelenses estão buscando a ajuda de Yoram Yovell, neurocientista da Universidade Hebraica, que tem orientado os pais pela TV. Ele diz que as famílias de Israel e de Gaza têm agido corretamente ao manter seus filhos fazendo atividades e garantindo a eles que, não importa o que aconteça, todos permanecerão unidos. “Os pais não devem compartilhar as próprias ansiedades”, afirmou Yovell. 

Mghames não encontra conselhos de psicologia infantil na TV de Gaza, então tem usado as próprias técnicas. Ele afirmou que seu filho, Jamal, de 4 anos, não tem ficado com tanto medo, mas que sua filha e sua mulher estão ansiosas. Por isso, ele e as crianças passam horas pintando, ajudando na cozinha, dançando e usando almofadas para construir casas de mentira.

Às vezes, porém, quando uma bomba explode perto demais, ele entra no banheiro, sozinho, pois um cuidador também precisa ser cuidado. “É claro que não posso chorar na frente deles”, afirmou. “Estou dando meu melhor. Mas muitas imagens horríveis também enchem a minha cabeça.” / NYT, TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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