Na guerra síria, as linhas que importam não são vermelhas

Mas, apesar da instabilidade, é difícil que as fronteiras do Crescente Fértil sejam apagadas

É PESQUISADOR SÊNIOR DA HOOVER , INSTITUTION, ESCRITOR, FOUADI, AJAMI, THE WASHINGTON POST, É PESQUISADOR SÊNIOR DA HOOVER , INSTITUTION, ESCRITOR, FOUADI, AJAMI, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h05

Raramente é uma boa ideia traçar mapas às pressas. Foi o que os cartógrafos do período colonial fizeram no caso do mundo árabe depois da 1.ª Guerra - e as fronteiras traçadas se sobrepuseram aos antigos vínculos religiosos e tribais que existiam muito antes dos novos Estados.

Hoje, a insensatez daquelas fronteiras tornou-se clara, uma vez que a guerra na Síria ameaça não só a unidade territorial do país, mas também a dos seus vizinhos. Foi otimismo imaginar um dia que os combates entre o governo alauita e os rebeldes sob liderança sunita ficariam circunscritos às fronteiras do país. A Síria é, ao mesmo tempo, o pivô e o espelho do Crescente Fértil e suas divisões étnicas e sectárias reproduzem-se nos Estados árabes vizinhos. O presidente Barack Obama, curiosamente passivo, deveria se preocupar menos com as linhas vermelhas que ele próprio criou e mais em desfazer as linhas traçadas há décadas nas regiões árabes.

No mapa, Trípoli, no Mar Mediterrâneo, situa-se dentro das fronteiras do Líbano. Mas Trípoli, predominantemente sunita com uma minoria alauita, sempre foi mantida dentro da órbita da cidade síria de Homs. De modo que não é um mistério o fato de um conflito tão mortífero entre sunitas e alauitas tornar a região ingovernável. Para jihadistas, a disputa na Síria é também deles, é uma oportunidade para expulsar os alauitas e restaurar a primazia sunita.

Basta olhar para o Iraque, na fronteira oriental da Síria, que é a entidade artificial perfeita da região. Hoje, o governo em Bagdá, liderado pela primeira vez em um milênio por xiitas, é um aliado da ditadura alauita em Damasco. Mas na região ocidental do Iraque, os feudos sunitas das províncias de Anbar e Mossul envolveram-se na rebelião síria.

A guerra empreendida pelos americanos mudou as coisas no Iraque; a minoria sunita perdeu espaço para os xiitas e se rebelou diante da mudança de situação. A rebelião síria, um levante sunita contra uma minoria alauita, tornou-se uma dádiva para os sunitas iraquianos.

Os sunitas têm queixas profundas contra o governo do premiê Nouri al-Maliki. Para eles, Maliki, que passou 25 anos exilado na Síria e no Irã, é um agente da teocracia iraniana. Assim, apesar de o regime na Síria fazer o máximo para subverter a nova ordem em Bagdá - entre 2003 e 2009, a Síria era o ponto de trânsito para jihadistas que convergiam para o Iraque para lutar contra os americanos e os xiitas - o governo Maliki está prestando ajuda ao ditador sírio.

O apetite xiita no Iraque aumentou. As leis antiterrorismo e as normas para esvaziar o Partido Baath deixaram os sunitas fora do controle e as forças de segurança tornaram-se instrumentos do governo Maliki.

Milhares de pessoas definham nas prisões por acusações espúrias e protestos irrompem em cidades sunitas. O conflito sírio colocou mais lenha na fogueira. Se os sunitas precisavam de uma prova de que a coalizão xiita na região (compreendendo o Irã, o Estado iraquiano, o regime alauita em Damasco e o Hezbollah no Líbano) está decidida firmemente a roubar o seu lugar histórico no Iraque, o apoio do governo a Bashar Assad forneceu essa prova. Era apenas uma questão de tempo para que esses conflitos milenares renascessem com a guerra civil síria, que adquiriu uma conotação religiosa passional. De modo que os combatentes xiitas do Iraque e do Líbano chegam em grande número à Síria para, segundo afirmam, proteger o santuário de Sayyida Zeinab, na região oriental de Damasco.

Mesmo com toda a instabilidade - que também afeta Jordânia e Israel -, não acredito que as fronteiras do Crescente Fértil sejam apagadas. O Iraque Ocidental não se separará e se juntará com a Síria, tampouco Trípoli vai se inserir na Síria. Mas uma Síria governada por uma maioria sunita reescreveria as regras da política regional.

O Líbano, também, teria uma chance de recuperar a normalidade. O poder do Hezbollah nesse país deriva em grande parte do poder da ditadura síria. Se a Síria se transformar, o Líbano também poderá mudar e o poder do Hezbollah seria reduzido à sua devida proporção.

Um grande Oriente Médio, um mundo islâmico, usado nas campanhas americanas de socorro - o Kuwait em 1991, Bósnia em 1995, Kosovo em 1999, Afeganistão em 2001, Iraque em 2003, Líbia em 2011 - está agora presenciando o declínio do poder e responsabilidade americanos. Os EUA estão cansados de guerras no Oriente Médio. Os rebeldes sírios, que estavam certos de que a cavalaria americana surgiria, ficaram decepcionados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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