Na Índia, o gesto de visão e coragem de Obama

Discurso que defende presença indiana entre membros permanentes do Conselho de[br]Segurança da ONU converte viagem numa das mais importantes de seu mandato

David Rothkopf FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2010 | 00h00

Em um único gesto inesperado, o presidente Barack Obama pode ter convertido a viagem para a Índia numa das mais importantes de sua presidência. Ao anunciar que apoia a concessão de uma cadeira permanente para a Índia no Conselho de Segurança da ONU, ele promoveu uma série de importantes objetivos.

Em primeiro lugar, procurou estabelecer uma relação realmente especial entre a maior democracia do mundo e os Estados Unidos. Ele defendeu uma questão básica para os indianos e, apesar da aberta insatisfação do Paquistão com a decisão e do desconforto menos aberto - embora indiscutível - da China, seu gesto mostrou coragem e visão.

Em segundo lugar, tratou de um tema que pode ser comparado ou até mesmo superar o acordo nuclear do governo de George W. Bush com a Índia, impulsionando um relacionamento que precisa crescer a fim de que ambos os países possam enfrentar os desafios do novo século.

Em terceiro lugar, ele enfatizou que seu governo procura seriamente transformar em ação a retórica da reformulação do multilateralismo e quer trabalhar com um novo grupo de países. Embora sua atuação no âmbito do G-20 seja um passo nesse sentido, esse processo começou na realidade há dois anos, no governo Bush. Os ajustes na estrutura das instituições financeiras internacionais foram outro passo positivo, mas, francamente, bem menos impressionantes, pois deixaram graves desequilíbrios na questão da representação.

É preciso admitir que a afirmação do presidente em seu discurso no Parlamento indiano - "nos próximos anos, espero que seja possível a reforma do Conselho de Segurança da ONU a fim de incluir a Índia como membro permanente" - é referente a algo que ainda está em aberto, principalmente quando pensamos, por exemplo, no apoio que se revelou improdutivo na época em que oferecemos uma cadeira permanente ao Japão.

No entanto, a afirmação do presidente indicou que sem uma participação permanente da Índia no Conselho a ONU não será considerada uma organização "efetiva, legítima e digna de credibilidade". O que não é apenas importante do ponto de vista da Índia (e de fato é), mas tem importantes implicações para outros países que reivindicam legitimamente um papel semelhante.

Esses outros países, como observou em um rápido, mas profundo, comentário Stewart Patrick no Conselho das Relações Exteriores, certamente incluiriam o Brasil e a Alemanha. Com isso, a primeira leva de novos candidatos passaria a constituir a classe que Patrick chama de as "quatro grandes democracias". Outros países certamente criarão problemas e outros ainda contestarão seus méritos. Mas, com essa declaração, Obama conseguiu dar o empurrão que fará a reforma da ONU avançar.

Evidentemente, agora há todo o trabalho concreto a ser feito. Os EUA deverão imprimir, o mais cedo possível, um forte impulso para transformar as palavras em atos. Isso exigirá destreza diplomática e a vontade de começar um processo de negociação entre grandes potências, com prováveis repercussões em todo o sistema internacional.

Teoricamente, os EUA se dedicarão a essa tarefa com uma clara visão de como o sistema deverá ser reformulado, com a expressa vontade de alterar, e em alguns casos reduzir, o papel das grandes potências surgidas no último pós-guerra. Esse não é apenas o caminho para a implementação de um sistema mais justo e eficiente, mas também o caminho para um sistema que proporcione uma divisão mais justa do ônus, ponto que poderá facilitar a aceitação dessas mudanças em Washington e a um grupo de aliados em dificuldades financeiras. A visão teria de ser holística, com a consciência dos pontos que precisam ser fortalecidos ou renovados nas instituições existentes e onde novas instituições terão de ser cultivadas. Praticamente nenhuma instituição internacional deveria se eximir dessa reavaliação. Ao longo do processo, será preciso rever a ONU, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, os bancos de desenvolvimento regionais, o Tratado de Não Proliferação, a Organização Mundial do Comércio, a Organização Mundial da Saúde, etc.

Embora indubitavelmente nem tudo deva ocorrer ao mesmo tempo, com coragem e propriedade, Obama destacou um tema que poderá ser o elemento fundamental neste processo de reforma. O que converterá o discurso de Obama num autêntico divisor de águas - e, portanto, transformará a viagem num verdadeiro sucesso . Será o progresso concreto que ela permitirá em breve, uma meta valiosa para o restante do mandato de Obama. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESCRITOR E PESQUISADOR DO CARNEGIE INSTITUTE

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