Arni Torfason/AP
Arni Torfason/AP

Mulheres deixam de ser maioria no Parlamento islandês após recontagem de votos

Recontagem dos votos atribuiu a elas menos de 50% do plenário; mesmo assim, desempenho representa um recorde na Europa

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 08h45
Atualizado 26 de setembro de 2021 | 22h19

REYKJAVIK - A Islândia acreditou neste domingo, 26, ter se tornado primeiro país da Europa a eleger uma maioria de mulheres para o Parlamento, após as legislativas de sábado. Mas uma recontagem dos votos atribuiu a elas menos de 50% do plenário. As eleições também foram marcadas pelo enfraquecimento da primeira-ministra Katrin Jakobsdottir.

Das 63 cadeiras do Althingi, o milenar parlamento islandês,  30 serão ocupadas por mulheres após a recontagem. Antes, elas pareciam ter conquistado 33 lugares no Legislativo desse país de 370 mil habitantes.

Mesmo assim, esta proporção representa um recorde na Europa, onde Suécia e Finlândia têm 47% e 46% de mulheres no Parlamento, respectivamente. Apenas três outros países - Ruanda, Cuba e Nicarágua - têm mais mulheres do que homens no Parlamento, enquanto o México e os Emirados Árabes Unidos têm uma divisão exata de 50/50, segundo dados da União Interparlamentar.

Após esta nova recontagem, que modificou os resultados em uma das seis circunscrições do país, devido ao complexo sistema eleitoral islandês, três mulheres perderam os assentos que tinham conquistado em um primeiro momento, explicou à France-Presse Ingi Tryggvason, presidente da Comissão Eleitoral local."Estes poucos votos de diferença causaram essa grande confusão", constatou.

Ninguém pediu, mas "decidimos voltar a contar porque o resultado era muito apertado", acrescentou o encarregado eleitoral da circunscrição do noroeste. Mesmo assim, a incerteza continua pairando, pois uma possível recontagem em outra circunscrição no sul do país poderia ter consequências.

Antes da recontagem, autoridades e cidadãos manifestaram sua satisfação, ao ver que a pequena ilha da Islândia, com 370 mil habitantes, entrava para a história da política europeia.

Embora vários partidos reservem uma proporção mínima de mulheres entre seus candidatos, nenhuma lei impõe uma cota para as legislativas na Islândia. O país nórdico está na vanguarda do feminismo e lidera há 12 anos o ranking do Fórum Econômico Mundial para a igualdade de gênero.

"Tenho 85 anos, esperei a vida toda para que as mulheres fossem maioria (...) e estou muito feliz", comentou à France Presse Erdna, moradora de Reykjavik. "Estou muito satisfeita com o fato de as mulheres terem ultrapassado 50% das cadeiras. Acho que esse é o curso normal do que acontece na Islândia há um século", estimou Thora Kolbeinnsdottir, livreira e assistente social.

Mas a principal vítima dessas eleições é, paradoxalmente, uma mulher: a primeira-ministra Katrin Jakobsdottir, cujo partido ambientalista de esquerda perdeu três cadeiras e obteve 12,6% dos votos, atrás de seus dois atuais aliados de direita.

O grande vencedor é o Partido do Progresso (centro-direita), que conquistou 13 cadeiras, 5 a mais que nas últimas eleições de 2017, com 17,3% dos votos. O júbilo reinou na noite de sábado na sede do partido "de volta à vanguarda da cena política", segundo as palavras de seu líder Sigurdur Ingi Johannsson, que se encontra em posição de se tornar primeiro-ministro.

Mas o partido conservador do ex-primeiro-ministro Bjarni Benediktsson permaneceu como o partido líder da Islândia com 24,4% dos votos, mantendo assim seu contingente de 16 cadeiras quando as pesquisas previam um declínio.

Com um total de 37 assentos, os três partidos aliados consolidam assim a sua maioria total, mas a direita encontra-se numa posição de força com a opção de encontrar outro parceiro ideologicamente mais próximo, por exemplo, os centristas Reforma (cinco cadeiras), Centro (três) e Partido do Povo (seis).

Embora não seja certo que os três partidos continuem governando juntos e que as negociações sejam tradicionalmente longas, a Islândia se afasta de um cenário de bloqueio político que as urnas temiam.

Nunca, desde a espetacular falência dos bancos islandeses em 2008 e a grave crise que se seguiu, um governo islandês cessante manteve a maioria. 

As discussões devem ocorrer entre os três líderes partidários, e a questão do futuro inquilino de Stjornarradid necessariamente surgirá, de acordo com analistas. "Dada a queda que estamos vendo, os Verdes de esquerda podem ter de reavaliar sua posição no governo", disse Eva Önnudóttir, professora de ciência política da Universidade da Islândia. 

Desde 2017, a primeira-ministra tornou os impostos mais progressivos, investiu na habitação social e na extensão da licença parental. Sua gestão da covid - apenas 33 mortos - foi saudada. Mas também teve de fazer concessões para salvar sua coalizão, como uma promessa de criar um parque nacional no centro do país.

Após uma década de crise e escândalos, a coalizão marcou o retorno da estabilidade política na Islândia. Esta é apenas a segunda vez, desde a crise financeira de 2008 que arruinou bancos e muitos islandeses, que um governo conclui seu mandato, com cinco eleições ocorrendo entre 2007 e 2017./AFP e REUTERS 

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