Miguel MEDINA / AFP
Miguel MEDINA / AFP

Na Itália, muçulmanos pedem um lugar para enterrar seus mortos em meio à crise do coronavírus

Tradição era repatriar o corpo de algum muçulmano ao seu país de origem, mas pandemia levou ao fechamento das linhas aéreas; famílias chegam a velar parentes por dias enquanto esperam vagas em cemitérios islâmicos

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2020 | 02h00

ROMA - Afetados pela pandemia de coronavírus, como o restante da população, os muçulmanos italianos reclamam da falta de espaço para seus mortos nos cemitérios da península. "Tudo isso foi a vontade de Deus", diz Mustafa, em frente a uma tumba acinzentada no setor muçulmano do cemitério de Bruzzano, nos arredores de Milão.

O marroquino, na casa dos cinquenta anos, lamenta a perda de sua mulher, que morreu em 7 de abril, aos 55 anos, de covid-19. "Ela pegou o vírus no hospital em Milão, onde havia sido internada um mês antes" para uma operação na perna, diz.

Um buquê solitário de flores no meio de um retângulo desenhado por pedras alinhadas no chão indica o local onde ela foi enterrada.

Por enquanto, não há estatísticas oficiais sobre o número de muçulmanos, nem estrangeiros nem italianos, que morreram durante a pandemia. A doença afetou, principalmente, a região industrializada da Lombardia e causou a morte de 34 mil pessoas em toda península.

A minoria muçulmana (quase 2,6 milhões de fiéis em 2018, ou seja, 4,3% da população total, de acordo com um estudo recente) foi duramente atingida. A maioria reside no norte e é composta por 56% de estrangeiros, procedentes de Marrocos, Albânia, Paquistão, Bangladesh e Egito. Os 44% restantes são italianos, e esse porcentual está aumentando.

Tradição afetada

Durante a pandemia, com a interrupção de todas as ligações aéreas, os corpos dos muçulmanos mortos não puderam ser repatriados para seus países de origem, como é tradição. "Isso levou a situações dramáticas, com corpos nos necrotérios por vários dias, em razão da falta de lugar nos cemitérios islâmicos", informou o jornal La Repubblica.

Foi o caso de Hira Ibrahim, uma macedônia que perdeu a mãe para a covid-19 em Pisogne e foi forçada a velar o corpo em sua casa por mais de dez dias. "Dezenas de famílias muçulmanas passaram pelo mesmo pesadelo", reconhece.

"O sofrimento se multiplica sem um lugar para enterrar seus mortos", diz Abdullah Tchina, um imã na mesquita de Milão-Sesto. "Na semana passada, um muçulmano morreu aqui em Milão-Sesto. Seu corpo teve que ser transportado por 50 quilômetros para ser enterrado", disse Tchina.

"Algumas famílias em Brescia, ou Bérgamo, tiveram que esperar muito tempo para enterrarem seus mortos", conta Guedduda Boubakeur, presidente do Centro Islâmico de Milão, que recebeu ajuda do Ministério do Interior para encontrar sepulturas em lotes habilitados para muçulmanos em cemitérios públicos.

Segundo a União das Comunidades Islâmicas da Itália (Ucoii), existem 76 cemitérios islâmicos em todo país, para cerca de 8 mil municípios. O mais antigo foi construído em 1856, em Trieste, no extremo norte. O de Roma, centro do cristianismo, foi construído em 1974. 

Dada a falta de sepulturas, a Ucoii solicitou ajuda dos municípios. Boubakeur assegura que "150 responderam que são a favor da organização de um setor muçulmano em seus cemitérios".

A emergência de saúde desencadeada pela covid-19 também revelou como a comunidade muçulmana evoluiu na Itália, a segunda religião do país. "Alguns idosos querem ser enterrados no país de origem. Mas agora seus filhos e netos preferem ser enterrados aqui, porque se sentem e são italianos", enfatizou. Para o líder muçulmano, é um sinal eloquente de "maior integração". / AFP

 

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