Mauricio Lima/The New York Times
Mauricio Lima/The New York Times

Na Itália, o drama de pedir asilo

Audiência de imigração é processo doloroso para solicitante e avaliador

Jim Yardley / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2016 | 21h45

O barulho do trânsito entrava pela janela enquanto o bengali Nanue Matabor sentava-se no escritório de imigração. Com 19 anos, ele aguardava havia meses a audiência que decidiria sobre sua requisição pelo direito de viver na Europa. 

Matabor fala apenas bengali e um intérprete lhe explicou como funciona o sistema de asilo. Então, vieram as perguntas básicas: a grafia de seu nome está correta? A data de nascimento também? A que grupo étnico pertence? “Sou órfão, não sei a que grupo pertenço”, respondeu.

Durante 46 minutos, ele ficou sentado na repartição para pedir asilo a uma pessoa, um funcionário público chamado Giorgio De Francesco. 

Mais de 65 milhões se deslocaram para escapar de conflitos, dificuldades ou perseguição no último ano – no próprio país ou rumo ao exterior –, o maior volume desde a 2.ª Guerra. Muitos estrangeiros enfrentam a seguir o desafio de provar que têm qualificações para permanecer. Ser pobre ou de um país destroçado já não basta. Meses atrás, a União Europeia fechou um acordo com o Afeganistão para deportar milhares de cidadãos.

Prevalece na seleção a hierarquia de sofrimento. Quem está fugindo de conflitos bem definidos, como a guerra civil na Síria, tem mais chances de sucesso, enquanto o destino de outros depende de suas histórias.

De Francesco define vencedores e perdedores. Matabor foi criado em um orfanato, analfabeto, até que uma família o adotou extraoficialmente. Mas os pais morreram e ele vivia com o irmão adotivo, figura ativa na oposição política do país. Um bando surgiu procurando por ele, mas encontrou Matabor, em quem bateu até que ficasse inconsciente, ameaçando matá-lo.

O rapaz pegou dinheiro emprestado, fugiu para a Líbia e lá trabalhou em um hotel, destruído na guerra civil. Conseguiu fugir em um barco e chegou à Itália no ano passado. Em sua ausência, sua mulher, que ficou em Bangladesh, deu à luz seu filho, que ele ainda não conhece.

O funcionário italiano ouviu em silêncio, digitando de vez em quando no computador até que a entrevista foi encerrada e ele apertou um botão. A impressora cuspiu três páginas. Eram a antiga vida de Matabor e seriam agregadas ao pedido para poder construir uma nova. As chances não eram boas: 60% dos requerentes têm seus pedidos de asilo ou proteção negados. Matabor só teria resposta meses depois.

De Francesco teme que a ansiedade do público em relação à questão esteja ameaçando os ideias do projeto europeu. A Dinamarca, por exemplo, decretou uma medida, muito criticada, que permite às autoridades confiscar dinheiro e objetos de valor, como joias e alianças, dos que buscam asilo, em troca da permissão de permanência.

A Itália lidera a iniciativa de resgate dos estrangeiros no Mediterrâneo. Apesar ou por isso, uma pesquisa feita em julho pelo Centro Pew descobriu que mais de 60% dos italianos temiam que a presença dos refugiados aumentasse o risco de terrorismo e um número ainda maior achava que os estrangeiros podiam ser um peso econômico para o país.

Há pouco menos de três anos, o sistema de asilo italiano acomodava 27 mil pessoas. Hoje, são 176 mil. O indeferimento do pedido de refúgio não representa o fim do processo. Um recurso pode levar um ano ou mais. Muitos podem simplesmente desaparecer nas ruas, sem documentação, vivendo ilegalmente.

No dia da nova audiência de Matabor, em outubro, na porta da agência de imigração, africanos e afegãos esperavam, amontoados. Matabor entrou. Um minuto se passou antes que ele saísse, segurando uma folha de papel. E enquanto o tradutor falava com outros bengalis, explicando o processo de apelação, Matabor ficou ali sozinho, caindo em um choro sentido e silencioso.

 

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