Manuel Silvestri/Reuters
Manuel Silvestri/Reuters

Na Itália, voltar ao trabalho depende de ter anticorpos

Com queda no número de contágios, país discute testar imunidade ao coronavírus para definir quem está livre e quem fica confinado

Jason Horowitz / The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 05h00

ROMA - Há um sentimento crescente na Itália de que o pior já passou. As semanas de isolamento em todo o país, o centro do surto de coronavírus mais letal em todo o mundo, talvez possam estar começando a mostrar seu efeito, uma vez que as autoridades anunciaram na semana passada que o número de novas infecções estabilizou.

Esse vislumbre de esperança transformou as conversas em um assustador desafio de quando e como voltar à vida normal sem abrir espaço para outra onda catastrófica de contágio. Para fazer isso, as autoridades italianas de saúde e alguns políticos se concentraram em uma ideia que poderia ter sido relegada às estratégias de romances distópicos e filmes de ficção científica.

Ter os anticorpos certos contra o vírus no sangue – um potencial marcador de imunidade – pode determinar em breve quem trabalha e quem não trabalha, quem deve continuar trancado e quem está livre.

Esse debate está, de certa forma, à frente da ciência. Os pesquisadores não têm certeza, mas estão esperançosos de que os anticorpos de fato indiquem imunidade. Mas isso não impediu os políticos de se apegarem à ideia, já que eles começaram a aumentar a pressão para movimentar a economia e evitar que o país mergulhe em uma depressão econômica generalizada.

O governador conservador de Veneto propôs uma “licença” especial para os italianos que possuem anticorpos que mostram que eles tiveram o vírus e foram curados. O ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, liberal falou sobre um “Covid Pass” para os não infectados. O primeiro-ministro Giuseppe Conte disse que, enquanto o confinamento continua valendo, o governo já começou a trabalhar com cientistas para determinar como enviar as pessoas que se recuperaram da doença de volta ao trabalho.

A Itália foi o primeiro país europeu a anunciar o isolamento em todo o território nacional, que começou em 9 de março. Mas a taxa de novas infecções diminuiu na semana passada, o que levou as principais autoridades e profissionais da saúde a conversar com otimismo cauteloso.

Mas o debate sobre uma força de trabalho baseada em anticorpos voltou a colocar a Itália na infeliz vanguarda das democracias ocidentais que lutam contra o vírus, suas escolhas éticas desconfortáveis e consequências inevitáveis. Tais questões já foram levantadas pelas difíceis decisões dos médicos em tratar os jovens, com maior chance de vida, antes dos idosos e doentes.

 

Mas, em algum momento, quase todos os governos terão de encontrar um equilíbrio entre garantir a segurança pública e colocar seus países em funcionamento novamente. Eles também podem acabar tendo de avaliar o que seria melhor para a sociedade em relação aos direitos individuais, usando critérios biológicos de maneiras que quase certamente seriam rejeitadas na ausência da emergência atual.

“Parece que isso divide a humanidade em duas, entre os fortes e os fracos”, disse Michela Marzano, professora de filosofia moral da Universidade Paris Descartes. “Mas esse é realmente o caso.”

Sob uma perspectiva ética, ela argumentou, a questão do uso de anticorpos como base para o livre movimento reconcilia uma visão utilitária do que é melhor para a sociedade com respeito à humanidade individual, protegendo “os mais frágeis, não os marginalizando”. “Não é discriminatório”, disse ela. “É uma medida protetora.”

Cientistas na Itália, como seus colegas na Alemanha, nos Estados Unidos, na China e em outros países, já estão estudando se os anticorpos são uma fonte potencial de proteção ou imunidade contra o vírus.

A Itália, devido à sua exposição inicial e generalizada ao vírus, tem a oportunidade de obter informações sobre como ele funciona e as propriedades biológicas que protegem contra ele.

“A Itália tem atualmente um dos maiores grupos de pessoas infectadas que se recuperaram da infecção”, disse Andrea Crisanti, principal consultor científico sobre o vírus em Veneto e professor de microbiologia na Universidade de Pádua. “É um conjunto único e valioso de informações e dados.”

Crisanti enfatizou a necessidade de uma estratégia cuidadosamente projetada para acabar com o confinamento na Itália, que usaria rastreamento de contato, equipamento de proteção e testes para anticorpos pós-vírus.

“Planejar com antecedência é uma das coisas mais importantes”, disse Crisanti. “Sem uma estratégia adequada para o caminho a ser seguido, o resultado mais provável é que a epidemia recomece.”/ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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