Na missa, Bento XVI fala 14 vezes sobre liberdade

Cuba e o mundo precisam de mudanças que só ocorrerão por meio da fraternidade, diz o papa em homilia

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

29 Março 2012 | 03h02

Liberdade, reconciliação e mudanças. Bento XVI voltou a insistir nessas palavras na missa que celebrou ontem diante de cerca de 500 mil pessoas na Praça da Revolução, retomando em Havana os apelos de discursos e da homilia feitos na segunda e na terça-feira em Santiago de Cuba, sua primeira escala no país socialista do Caribe. O papa usou 14 vezes o termo liberdade e seus derivados - o adjetivo livre e o verbo libertar -, observou a Rádio Vaticano ao analisar o conteúdo da mensagem transmitida por Bento XVI.

"A caridade nos une" e "A Jesus por Maria", diziam dois cartazes ao lado de uma imagem de Nossa Senhora da Caridade do Cobre, a padroeira de Cuba, exibida em destaque à direita de imensos painéis de Che Guevara e Camilo Cienfuegos, heróis da guerrilha de Sierra Maestra. A poucos metros do altar, o presidente Raúl Castro e ministros do governo assistiram à cerimônia na primeira fila das cadeiras reservadas às autoridades.

Bento XVI partiu das palavras de São João lidas no Evangelho do dia - "Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" - para uma reflexão que, ao longo da homilia, aplicava-se como uma carapuça à realidade dos cubanos. "A verdade é um anseio do ser humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica", advertiu o papa, acrescentando que a conquista da liberdade com base na busca da verdade é "o patrimônio ético que pode aproximar todas as culturas, povos e religiões, as autoridades e os cidadãos, os cidadãos entre si, os crentes em Cristo e aqueles que não creem nele".

"Queridos amigos, não hesiteis em seguir Jesus Cristo", exortou Bento XVI aos cubanos, repetindo o apelo que João Paulo II fez aos fiéis, na sacada na Basílica de São Pedro, ao ser eleito em outubro de 1978: "Não tenhais medo... escancarai as portas para Cristo". Ele (Jesus) "ajuda-nos a superar nossos egoísmos, a sair das nossas ambições e a vencer o que nos oprime", acrescentou o papa.

Sem privilégios. Advertindo que a Igreja não reclama privilégios, Bento XVI pediu para ela o direito de dar testemunho de Cristo na pregação e no ensino, "tanto na catequese quanto nos ambientes formativos e universitários". O papa disse reconhecer "com alegria, os passos que se têm realizados em Cuba para que a Igreja cumpra sua irrenunciável missão de anunciar, pública e abertamente, a sua fé", mas afirmou que é preciso avançar mais.

"Cuba e o mundo precisam de mudanças, mas estas só terão lugar se cada um estiver em condições de se interrogar sobre a verdade e se decidir a enveredar pelo caminho do amor, semeando reconciliação e fraternidade", afirmou o papa, ao encerrar a homilia.

Depois da missa, animada por um coral que cantou Panis Angelicus em latim e uma orquestra que salientou o som de tambores típicos, Raúl Castro aproximou-se do altar, levado por um prelado. Ele cumprimentou o papa, apontou com um gesto para a multidão e levou a mão ao coração. Sempre sorrindo. /

COM AFP e EFE

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