Jorge Torres/EFE
Jorge Torres/EFE

Na Nicarágua, enterros expressos e velórios vigiados deixam população desconfiada 

No Departamento de Chinandega, noroeste de Nicarágua, a organização Observatorio Ciudadano Covid-19 contabiliza a morte de ao menos 16 pessoas entre 14 de março e 4 de maio

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 17h30
Atualizado 14 de maio de 2020 | 21h42

MANÁGUA - Ordens de enterro imediato, proibição de velórios, presença de policiais e/ou funcionários do Ministério da Saúde nos funerais, além de pessoas mortas de forma súbita nas ruas têm deixado a população da Nicarágua em alerta. As autoridades do país reconhecem apenas 25 casos de infecção de coronavírus e 8 mortos pela covid-19. 

Em um dos casos, um homem de 85 anos morreu em uma agência bancária enquanto aguardava em uma fila para receber sua pensão. Depois, outro homem, de 68 anos, também morreu de forma súbita enquanto conduzia sua motocicleta. 

No Departamento de Chinandega, noroeste de Nicarágua, a organização Observatorio Ciudadano Covid-19 contabiliza a morte de ao menos 16 pessoas entre 14 de março e 4 de maio. 

"Das últimas 10 mortes verificadas, 2 tiveram um diagnóstico de enfarte, sem suposto vínculo com covid-19; as outras 8 mortes ocorreram em circunstâncias suspeitas em que fontes veem vínculos com covid-19", explicou o observatório em um relatório no dia 7 de maio. 

Segundo a organização, que localiza de forma independente casos de covid-19, as autoridades deram para essas mortes ordens de enterro imediato, proibição de velório ou velório com a presença de policiais ou funcionários do Ministério da Saúde. 

Os moradores de Chinandega expressaram alarme e temem que seja um surto do coronavírus que esteja causando as mortes.

O observatório alertou que, diante do aumento das mortes nessa província, as autoridades deveriam fazer testes para descartar a possibilidade de morte por covid-19, implementar ações de controle caso se confirme o diagnóstico e mantenha a população informada para que siga as medidas de autoproteção repassadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS)

Silêncio oficial 

As autoridades da Nicarágua, no entanto, seguem sem oferecer informação sobre as dezenas de casos de desaparecimento súbito nas ruas, algumas dessas pessoas morreram e outras foram transferidas para centros médicos, mas seu estado de saúde não é conhecido. 

O Comitê Científico Multidisciplinar, composto por médicos e outros especialistas, advertiu que os desaparecimentos súbitos, incluindo os de pessoas que sofreram ataques cardíacos, poderiam estar relacionados ao coronavírus. 

O médico Freddy Blandón não descartou a possibilidade de mesmo essas pessoas que sofreram ataques cardíacos tenham sido vítimas de covid-19, tendo como base estudos recentes que demonstram que o SARS-COV-2 não ataca somente os pulmões, mas outros órgãos e as vítimas podem morrer por asfixia, parada cardíaca ou acidente vascular (AVC). 

 

Ele afirmou que em março, abril e início de maio foram os meses de maior incidência de paradas cardíacas na Nicarágua e as mortes súbitas nas ruas não são comuns. 

'O tal do coronavírus' 

Segundo um relatório do Ministério da Saúde, entre 11 de março, quando se declarou a pandemia, até 30 de abril, o país registrava 2.829 mortos por outras enfermidades e apenas 4 por covid-19 (já são oito oficialmente).

"Essa (quantidade de mortos, uma média de 55,5 por dia) é uma monstruosidade. Mas é claro que não vemos isso agora, porque estamos todos preocupados com o tal do coronavírus", disse o presidente Daniel Ortega, após a divulgação do relatório. 

Nem ele, nem o Ministério da Saúde se pronunciaram sobre os desaparecimentos e mortes súbitas nas ruas. 

O vice-diretor da Organização Panamericana da Saúde (Opas), Jarbas Barbosa da Silva, disse que não é possível fazer uma avaliação sobre a pandemia na Nicarágua, onde a situação, segundo ele, é indeterminada e não existem dados no momento. 

O governo de Ortega, que continua minimizando a pandemia do coronavírus e a recebeu com uma marcha chamada 'O amor nos tempos da covid-19', já se declarou contra a campanha 'fique em casa'. 

 

Segundo Ortega, o confinamento destruiria a economia da Nicarágua já reduzida nos últimos dois anos e composta principalmente pelo trabalho informal. Seu governo informou que o país manterá as atividades normais, aguardando as recomendações das autoridades de saúde./EFE 

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