Adam Ferguson/The New York Times
Adam Ferguson/The New York Times

Na Nigéria, as meninas-bomba que sobreviveram 

Elas foram sequestradas pelo Boko Haram, na Nigéria, e estavam marcadas para morrer em ataques suicidas, mas conseguiram escapar 

O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2017 | 05h00

Aisha estava com uma bomba na cintura. A jovem nigeriana, de apenas 15 anos, tinha a missão de se explodir para matar soldados do Exército nigeriano em uma barricada nas cercanias de Maiduguri, a maior cidade do norte da Nigéria. Aisha não queria a missão. “Eu pensei em caminhar para um local isolado e apertar o detonador, bem longe de outras pessoas, para não machucar ninguém”, diz. 

Ela fora sequestrada dias antes por militantes do grupo extremista islâmico Boko Haram, quando voltava para casa com seu pai e seu irmão, de 10 anos. Aisha não tinha opção. Os extremistas mataram seu pai e colocaram uma cinta de bombas em volta do corpo de seu irmão. Ele foi obrigado a se explodir diante da mesma barricada de soldados para onde Aisha caminhava. 

Em vez de se explodir em um lugar isolado, Aisha decidiu pedir ajuda. Andou até os soldados e disse para eles que estava envolta em explosivos. “Eu disse: ‘Meu irmão foi enviado para cá, e matou alguns de seus homens, mas ele era uma criança pequena, não sabia o que fazer’”, conta Aisha. Os soldados então a acolheram e retiraram a bomba de seu corpo.

Histórias como essa se repetem quase todos os dias na Nigéria. Apesar de ser a maior economia da África, a Nigéria é um país dividido. O sul, cristão e urbanizado, tem mais recursos e proteção. O norte, muçulmano e pobre, é palco de uma verdadeira guerra civil que opõe o Exército e os militantes islâmicos do Boko Haram, cujo nome pode ser traduzido como “A educação ocidental é pecado”.

Desde 2014, o Boko Haram usou mais de 105 mulheres e meninas em ataques suicidas. A maioria delas nunca quis machucar ninguém. Eram garotas sequestradas pelo grupo extremista que quer instituir um Estado islâmico na Nigéria. Elas eram obrigadas a executar atentados em mesquitas, praças, campos de refugiados e barreiras militares. O jornal americano The New York Times encontrou e entrevistou 18 sobreviventes.     

É um milagre elas estarem vivas. Usar meninas para ataques suicidas se tornou tão comum que funcionários do governo nas áreas onde o Boko Haram opera alertam os cidadãos para ficarem atentos à qualquer jovem suspeita. Para elas, mesmo se aproximar das autoridades para pedir ajuda é perigoso. 

Soldados e civis nos postos de controle estão em alerta para qualquer garota suspeita. Segundo a ONU, em três meses, mais de 13 crianças foram mortas por serem confundidas com terroristas. Para não serem confundidas, muitas mulheres e garotas lavam suas roupas várias vezes e tomam banhos com frequência. Como as vítimas do Boko Haram vivem em condições precárias, parecem sujas e abatidas. O asseio pode ser a única maneira de evitar a morte. 

“Eu tenho medo quando vejo uma mulher”, diz Hassan, soldado de uma milícia no norte da Nigéria. Ele sobreviveu ao atentado de uma mulher-bomba quando vigiava um posto militar. Sua mulher, Fatima G., de 19 anos, quase se tornou uma das vítimas do Boko Haram. 

Em 2016, ela foi sequestrada pelo grupo e mantida em cativeiro por seis meses. Um dia, um militante a colocou na garupa da moto. Ele seguia em direção a Maiduguri, a maior cidade do norte da Nigéria, onde o Boko Haram trava batalhas diárias com o Exército. 

Ele disse que ela seria usada em um ataque suicida. Na estrada, houve um tiroteio com soldados nigerianos. No meio do caos, Fatima escapou ilesa. Uma sorte que muitas mulheres não tiveram. / THE NEW YORK TIMES

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