Na Nigéria, não há mais más notícias

Os nigerianos, obrigados a encarar a carnificina o tempo todo, acostumaram-se à violência e hoje a ignoram

ADAOBI TRICIA NWAUBANI, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

Já ouvi pessoas comentando que nós, os nigerianos, somos o povo mais feliz da Terra. Somos também acusados de nos manter passivos diante de questões que em outros países seriam o estopim de revoluções.

Um exemplo: faz pouco mais de uma semana desde que episódios de violência étnico-religiosa deixaram centenas de mortos nas imediações de Jos, uma cidade na região central da Nigéria, mas o massacre de nossos concidadãos parece já ter sumido das manchetes locais e das conversas entre os nigerianos. A reação geral diante do anúncio de que a polícia tinha detido alguns dos assassinos parece ser "Ah, é mesmo?". Poucos dentre meus conhecidos nem sequer se importam com o que os brutos têm a dizer em defesa própria.

Alguém chamou isso de "amnésia nigeriana" - a tendência de bloquear os traumas nacionais observada entre os nigerianos. Na verdade, se não fossem as constantes reportagens veiculadas nas redes de TV BBC e CNN, ninguém lembraria que centenas de nigerianos inocentes, mulheres e crianças, foram massacrados enquanto dormiam naquela noite de domingo.

Quando olho para a TV da redação onde trabalho, em geral vejo um repórter estrangeiro com expressão extremamente grave, com cenas de Jos passando ao fundo. A cada vez que a Nigéria passa por um episódio de violência, parecemos nos calar enquanto o restante do mundo fixa a atenção no problema.

Talvez seja compreensível que tenhamos começado a nos ressentir destes jornalistas estrangeiros que insistem em se concentrar nos nossos desastres. "Estas pessoas nunca trazem notícias positivas sobre a Nigéria", diz um colega. "É questão de pura malícia. Eles têm uma imagem específica da África que querem retratar repetidamente ao mundo."

Minha amiga Ruona tem uma teoria para explicar por que não reagimos de forma mais enérgica: os nigerianos são obrigados a encarar a carnificina o tempo todo - tornamo-nos acostumados à violência e por isso a tratamos com indiferença -, enquanto a mídia ocidental a vê com um olhar novo.

Mas, mesmo que decidíssemos levar nossas calamidades mais a sério, os acontecimentos de Jos, por mais terríveis que tenham sido, teriam de esperar sua vez. Enquanto Jos é afetada por episódios de violência étnico-religiosa, as pessoas do Estado de Ebonyi, que falam o mesmo idioma e partilham da mesma religião, estão matando umas às outras na disputa pelos recursos naturais.

Militantes descontentes no Delta do Rio Níger ameaçam aleijar a economia por meio de atos de vandalismo contra os oleodutos. Políticos são assassinados rotineiramente no oeste do país; os pais e mães de filhos prósperos são sequestrados e trocados por resgate no leste. E sabemos que é apenas questão de tempo até que haja no norte a erupção de novos distúrbios entre muçulmanos e cristãos.

Nosso país é um dos maiores produtores mundiais de petróleo bruto, e ainda assim uma debilitante escassez de combustível nos assola, e as pessoas brincam dizendo que as filas nos postos de gasolina se estendem até Calcutá.

E a quem podemos nos queixar? Apesar dos boatos de que o presidente Umaru Yar"Adua - que não é visto em público desde que partiu para a Arábia Saudita em novembro para cuidar da saúde - tenha sofrido morte cerebral, sua devotada mulher e um leal círculo dos membros de sua tribo parecem bastante contentes em governar no lugar dele.

Lamentamos por aqueles que morreram em Jos e também pelos sobreviventes. Estamos todos perturbados com a sequência de desastres que os acometeu. Mas tomamos o cuidado de não produzir em nós mesmos uma overdose de agonia. Até os psicólogos reconhecem que a amnésia pode ser um mecanismo de defesa, útil para a preservação da sanidade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

ESCRITORA E EDITORA DO JORNAL NIGERIANO "NEXT"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.