EFE/Lenin Nolly
EFE/Lenin Nolly

Reunião da OEA sobre Venezuela é suspensa por falta de consenso

Brasil e outros 13 países defenderam a suspensão da convocação de uma Assembleia Constituinte, mas, em apoio a Maduro, países da Alba e do Caricom bloquearam declaração sobre crise venezuelana

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2017 | 19h11

O Brasil e outros 13 países da região defenderam nesta quarta-feira na Organização dos Estados Americanos (OEA) a suspensão da convocação de uma Assembleia Constituinte na Venezuela. Pouco mais de um mês depois de anunciar sua saída da instituição, o governo de Nicolás Maduro demonstrou que ainda tem influência sobre um grupo importante de países-membros, que bloquearam a votação de uma declaração sobre a crise venezuelana.

Diante do impasse, a maioria dos integrantes da OEA decidiu suspender o encontro para tentar obter uma posição de consenso até a Assembleia-Geral da entidade, marcada para os dias 19 a 21, no México. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, disse que a Constituinte foi o principal ponto de divergência entre os 14 países e os 14 integrantes da Comunidade Caribenha (Caricom) que tradicionalmente apoiaram a Venezuela. Caracas tem ainda os votos dos integrantes da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América).

“Esse processo só fará acirrar os antagonismos políticos, criando uma intolerável dualidade de Poderes que poderá levar a Venezuela a um caos ainda maior”, declarou Aloysio Nunes em seu pronunciamento. Segundo ele, a Constituinte, nos termos propostos pelo presidente Maduro, é incompatível com a promoção do diálogo entre o governo e a oposição.

Em entrevista na noite desta quarta-feira, ele reconheceu que não houve votos suficientes para aprovação da declaração defendida pelo Brasil, mas negou que o resultado tenha sido um fracasso para o grupo de 14 países que defende a atuação da OEA na crise venezuelana. Para ser aprovada, qualquer resolução precisava o voto de dois terços dos países, o equivalente a 23 dos 34 membros da organização.

“Pelo contrário, é uma convergência entre dois grupos de países que apresentaram projeto de resolução distintos, mas que tinham como fundo comum a preocupação com a situação da Venezuela, o reconhecimento de que aí há uma crise e a OEA tem toda a legitimidade para resolver essa crise.”

O chanceler brasileiro disse que o pedido de suspensão da Constituinte era um ponto inegociável da proposta de declaração que tinha apoio do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Peru, Panamá, México, Estados Unidos, Canadá, Guatemala, Honduras, Colômbia e Costa Rica.

Os países do Caribe costumam se alinhar com a Venezuela, que durante anos manteve um programa de venda de petróleo a preços subsidiados para a região, o Petrocaribe. Além disso, o grupo de pequenos países atua em bloco para garantir sua influência na OEA.

No sábado, os chanceleres do grupo propuserem um texto menos simpático ao governo de Maduro. Logo depois, a chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, promoveu um encontro com seus colegas do grupo em uma ilha do Caribe. No dia seguinte, os chefes de Estado do Caricom apresentaram uma nova proposta, alinhada com Caracas.

“Precisamos agir. Não estou falando de direitos abstratos. Há pessoas morrendo, morrendo pela repressão impiedosa que vem do governo e só faz acirrar o desespero da oposição, no ciclo vicioso de repressão e resistência que leva a cada vez mais mortos”, afirmou o chanceler brasileiro.

Aloysio iniciou seu discurso com referência ao período das ditaduras militares na região. “Lembro dos companheiros que morreram nos cárceres, que morreram no exílio sem poder voltar à sua terra.”  

Do lado de fora da OEA, opositores a Maduro defendiam a atuação da entidade na busca de solução para a crise do país. O engenheiro Rafael Iglesias, de 67 anos, carregava um cartaz com os dizeres “não+ditadura, não+violência, não+repressão”. Em Washington para visitar a filha e o neto, Iglesias disse que jovens não têm futuro em seu país. “Tudo está sendo destruído na Venezuela.”

No início da tarde desta quarta-feira, um pequeno grupo chavista também se reuniu em frente ao edifício da OEA, com faixas “EUA, tirem as mãos da Venezuela".

 

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