Na ONU, alguns pedem combate à pobreza, outros duvidam de metas

Líderes mundiais defenderam na quinta-feira na ONU uma ação mais incisiva contra a pobreza mundial, mas a França disse que os países ricos, potenciais doadores, ficarão sem condições de ajudar devido à atual crise financeira. Numa cúpula de avaliação sobre as metas adotadas em 2000 para serem cumpridas até 2015, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, disse que os países precisam ser incisivos e generosos para conseguir reduzir a pobreza pela metade no prazo estipulado. "A atual crise financeira ameaça o bem-estar de bilhões de pessoas, que são nada mais que as mais pobres do mundo. Isso se soma ao dano sendo causado pelos preços muito mais elevados dos alimentos e combustíveis", disse Ban. Já o chanceler francês, Bernard Kouchner, disse ser "meio que injusto" falar em metas de pobreza quando os países enfrentam uma crise de crédito. Quando lhe foi perguntado se a França anunciaria novas ofertas de ajuda a países pobres, Kouchner respondeu a jornalistas: "Não, sempre estamos dando verbas extras porque sempre há novas crises. Por enquanto, estamos realmente restritos." O ministro sugeriu que, num cenário de pouco ou nulo crescimento nos países desenvolvidos, é preciso buscar novas formas de financiar o desenvolvimento nas nações pobres. Num caminho oposto, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, fez um apelo para que os países ricos não usem a atual crise financeira como pretexto para abandonar a luta contra a pobreza no mundo. "Esta seria a pior hora para recuar", disse. METAS A ONU disse que houve progresso no cumprimento das metas na Ásia e na América Latina, mas que nenhum país africano está a caminho de alcançá-las. Ban disse nesta semana que a guerra contra a pobreza só será vencida se os países ricos oferecerem 72 bilhões de dólares por ano, e que esses países precisam honrar os compromissos já assumidos. O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, disse temer que a crise rapidamente se espalhe para os países em desenvolvimento, que já sofrem com a carestia global dos alimentos e combustíveis. Ele lembrou que, embora o preço de alguns itens básicos já tenha recuado desde o auge em 2007, o arroz continua valendo o triplo do que em 2004, e o trigo custa o dobro. "Em geral, o mundo em desenvolvimento tem gerado algumas fontes de crescimento em meio à turbulência, mas agora estou preocupado que o efeito-onda deste trauma mais recente poderia começar a afetar alguns mais seriamente", disse ele em entrevista coletiva. Líderes de países em desenvolvimento manifestaram a preocupação de que algumas das chamadas Metas de Desenvolvimento do Milênio estejam além do seu alcance no cenário atual, e cobraram medidas firmes dos países desenvolvidos para que a crise não se alastre. "Acreditamos que os países líderes do mundo deveriam agir de forma mais responsável para mitigar as consequências das crises financeira, alimentar e energética globais", disse o presidente do Tadjiquistão, Emomali Rahmon, na Assembléia Geral da ONU. Num tom mais otimista, Ban disse que o sucesso na redução das mortes por malária mostra que vale a pena financiar trabalhos de prevenção e tratamento. "Estamos perto de conter este flagelo. O que estamos fazendo com a malária poderíamos fazer com educação, saúde materna, clima e agricultura." O fundador da Microsoft, Bill Gates, disse que é preciso mais inovação, como na produção de vacinas. Ele prometeu doar 168,7 milhões de dólares para pesquisas com novas vacinas contra malária. A verba é parte de um novo montante de 3 bilhões de dólares anunciado na quinta-feira pelo Banco Mundial, pela Grã-Bretanha, pela ONU e pelo Fundo Global para a Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária. (Reportagem adicional de Claudia Parsons e Patrick Worsnip)

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