REUTERS/Edgard Garrido
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Na ONU, México critica política migratória de Trump e diz que muro materializa extremismo

Subsecretário para Assuntos Multilaterais e Direitos Humanos do México afirmou que comunidade internacional ‘não pode aceitar medidas unilaterais regressivas’; Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes aponta em relatório que cooperação dos mexicanos com americanos e canadenses na luta contra o narcotráfico é ‘ampla’ e ‘eficaz’

O Estado de S.Paulo

02 de março de 2017 | 12h23

GENEBRA - O México criticou nesta quinta-feira, 2, na ONU a política migratória do presidente dos EUA, Donald Trump, que propôs a construção de um muro na fronteira, decretou o veto migratório a refugiados e cidadãos de países de maioria muçulmana, e idealizou um plano migratório para acelerar as deportações.

"Os muros entre as nações são também muros entre as pessoas e materializam o extremismo e a intolerância em barreiras físicas e ideológicas que não aceitaremos sob nenhuma circunstância", afirmou o subsecretário para Assuntos Multilaterais e Direitos Humanos do México, Miguel Ruiz Cabañas, em um pronunciamento na 34ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da organização.

O México, segundo Ruiz Cabañas, compartilha a "profunda preocupação" expressada por diversos mecanismos internacionais sobre a situação de vulnerabilidade na qual se encontram os imigrantes, os quais "muito frequentemente são objeto de medidas que, sob o argumento da proteção da segurança, atentam contra seus direitos humanos mais fundamentais e sua integridade".

"Não nos equivoquemos. Por trás destes discursos se escondem o racismo e a xenofobia", frisou.

O diplomata mexicano ressaltou que "as medidas de segurança mal concebidas não só não detêm a mobilidade humana”, como também colocam as vidas dos imigrantes em perigo. "São medidas equivocadas, tanto do ponto de vista moral como prático, dado o seu altíssimo custo social", destacou Ruiz Cabañas.

De acordo com o diplomata mexicano, "a difusão de medidas de segurança dirigidas a um grupo específico da população e a criminalização de certos grupos transgridem o estado de direito, violam o devido processo e são atos severamente discriminatórios".

"As normas internacionais que coletivamente estabelecemos assinalam claramente que temos a obrigação de defender os direitos humanos e promover a inclusão de todas as pessoas, independentemente de sua origem, nacionalidade e outras características.”

Para ele, a comunidade internacional "não pode aceitar medidas unilaterais regressivas" e deve promover a ideia de o ser humano ser o centro de toda a política.

O diplomata lembrou ainda que, sob qualquer circunstância, os países são obrigados a garantir que todas as políticas, incluindo as medidas para garantir a segurança, "sejam plenamente baseadas no direito internacional", em particular o direito internacional dos direitos humanos, o direito internacional humanitário e o direito dos refugiados.

Ruiz Cabañas reiterou o compromisso do governo mexicano com a defesa de seus cidadãos no exterior, e garantiu que utilizará "todos os meios juridicamente viáveis" para isso. Ele ressaltou que seu país continuará fomentando "o respeito e a proteção" de sua população nos EUA, e se "esforçando para assegurar que os direitos dos cidadãos de outros países no México sejam observados plenamente".

Narcotráfico. A cooperação do México com EUA e Canadá na luta contra o narcotráfico é "ampla" e "eficaz", apesar de o país latino-americano continuar sendo a fonte de boa parte das drogas ilegais que chegam a seus vizinhos do norte, afirmou a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife).

Em seu relatório referente a 2016, o órgão da ONU - encarregado de velar pelo cumprimento da legislação mundial sobre entorpecentes - lembrou os esforços das autoridades mexicanas para erradicar cultivos ilícitos e desmantelar laboratórios clandestinos de produção de drogas.

O órgão reconheceu no documento que "a cooperação regional entre os três países" da América do Norte, que inclui operações policiais conjuntas, troca de inteligência e iniciativas de controle fronteiriço, "continuou sendo ampla e é considerada, em geral, eficaz".

Além disso, em 2016, os países concordaram em "intensificar as medidas contra o crescente número de vítimas mortais" causadas por "opióides, como a heroína e o fentanilo (um narcótico sintético)", assim como pela "violência associada ao cultivo e ao tráfico de papoula no México".

Apesar de o México ter sido em 2014 "o principal país de origem das apreensões de metanfetamina" efetuadas nos EUA, e, em menor medida, no Canadá e na China, foi também nesse ano que as autoridades do país latino-americano conseguiram confiscar os maiores volumes da droga sintética.

Veja abaixo: Peña: México 'não acredita em muros, mas em pontes'

A Jife observou, no entanto, que a produção da substância no México recorre cada vez mais a novos métodos. Em 2014, 87% da cocaína que entrou nos EUA passou pela América Central e o México, contra 13% que entrou pelo Caribe, principalmente por Porto Rico e República Dominicana.

O México é, junto à Colômbia, um dos principais fornecedores de heroína para o mercado americano. / EFE

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