Na ONU, questão palestina obscurece a primavera árabe

Análise: Neil Macfarquhar / NYT

O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2011 | 03h03

Hillary Clinton dividia o palanque durante a Assembleia-Geral da ONU com seis das mulheres mais poderosas do mundo na política. Exalava entusiasmo com o sucesso dos levantes árabes, quando exclamou repentinamente. "Ministra! Obrigado, ministra!" Hillary entusiasmava-se ao apontar para a nova ministra de assuntos femininos da Tunísia. "Acho que deveríamos dar à Tunísia uma salva de palmas."

Por direito, este deveria ser o ano dos levantes árabes. Alguns dos mais antigos tiranos mundiais foram derrubados. Os novos rostos da sessão representam o nascimento de governos árabes que postulam querer seguir o caminho dos princípios dos direitos humanos e da boa governança.

Sem dúvida, houve alguns momentos emocionantes para eles, em particular um panteão de líderes mundiais gastando horas e horas fazendo discursos de autoexaltação sobre o sucesso da ONU no apoio aos rebeldes líbios. Mas as novas tensões entre os palestinos e Israel fizeram uma ampla sombra à primavera árabe.

Lilia Labidi, que se tornou ministra de assuntos femininos após a revolução na Tunísia, em janeiro, teve sua primeira exposição na Assembleia-Geral da ONU dissipada rapidamente. Seu apelo para angariar ajuda à consolidação dos ganhos para as mulheres na Tunísia suscitou pouca reação. Hillary, a presidente Dilma Rousseff e várias outras mulheres líderes mundiais passaram longe do encontro sobre a questão do aumento de poder às mulheres, sem dar-lhe um simples alô. Labidi, mesmo convidada das Nações Unidas, decidiu ir para casa.

"Não posso me dar esse luxo", disse, destacando que a diária de US$ 700 seria mais bem aproveitada em um projeto para mulheres do campo.

"Considerando a importância da primavera árabe, era de se esperar mais do que apenas uma recepção entusiasmada e uma fotografia em grupo - o que estou levando de volta para as mulheres tunisianas?", questionou, enquanto tomava seu café da manhã em uma cafeteria da região de Manhattan. "A atenção do mundo tem de estar muito mais comprometida com nossa região."

Labidi, professora de Antropologia e Psicologia Clínica, de fala mansa, disse ter se frustrado ao ver que as questões mais feitas a ela tinham pouca relação com seus projetos, como o para melhorar o acesso de garotas ao ensino fundamental. A pergunta que escutou o tempo inteiro: "Qual efeito a revolução terá nas atitudes tunisianas para o conflito entre Israel e palestinos?"

Quando o assunto das revoluções árabes aparece, ele tende a ser como uma conexão entre os dois. Todas as referências sobre autodeterminação e liberdade política tendem a ser jogadas sob o holofote de que os palestinos não têm nenhuma das duas. "Não podemos dar uma resposta a esses anseios por liberdade e democracia, tão esplêndida e bravamente expressados pela população árabe, perpetuando uma tragédia como o conflito entre Israel e palestinos", disse o presidente da França, Nicolas Sarkozy, em seu discurso.

Se houve uma nova estrela política no encontro, foi Mustafá Abdel Jalil, líder do Conselho Nacional de Transição da Líbia, que atraiu um tipo de atenção que pôs os fotógrafos jogando-se uns sobre os outros. "Este é um grande dia para todos os líbios dentro e fora da Líbia!", exclamou Abdel Jalil, sorrindo.

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