Na periferia, reforço contra imigração

Esta sexta-feira é um dia memorável, com a derrubada dos controles fronteiriços entre mais um grupo de países europeus - da Estônia, no norte, até a Eslovênia, no sul - e as nações européias ocidentais.Nasce uma nova Europa. Uma Europa sem fronteiras, pelo menos dentro do chamado Espaço Schengen, que desde 1995 abrangia 15 países da Europa Ocidental, aos quais se juntaram agora a Ilha de Malta e oito países ex-comunistas - os Estados bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), Polônia, República Checa, Eslováquia, Hungria e Eslovênia. Embora o Espaço Schengen seja uma emanação da União Européia, ele não abrange exatamente a mesma superfície. A Grã-Bretanha e a Irlanda são um grupo à parte. Inversamente, países que não pertencem à União Européia, como Islândia e Noruega, aderiram ao Tratado de Schengen.Assim, uma enorme área do planeta extingue todas as suas fronteiras, abarcando 400 milhões de pessoas e 3,6 milhões de quilômetros quadrados. Surpreendentemente, trata-se de uma área da Europa, continente que, ao longo da sua história, foi muito rico de fronteiras e dotado para a guerra.Entre os membros recém-chegados, oito viveram sob a mão de ferro comunista, países que ficaram fechados durante 50 anos, aferrolhados como um cofre-forte, com habitantes que só podiam sonhar com os grandes espaços abertos, olhar os horizontes sem poder jamais atravessá-los. Hoje, janelas e portas se abrem. Respira-se. É uma ressurreição.Mas as fronteiras são ardilosas. Derrubadas aqui, erguidas em outros lugares. É o que acontece neste caso: desaparecem entre a Lituânia e a Polônia, a Polônia e a Alemanha, mas são reforçadas na periferia do Espaço Schengen. Deixam de ser fronteiras no interior da Europa para se tornarem fronteiras exteriores.Essas fronteiras exteriores são a meta dos imigrantes. Já se observa o afluxo de despossuídos que se concentram às portas de Schengen, com o desejo fatídico de encontrar um buraco, uma abertura por onde entrar no "santuário", convencidos de que, uma vez dentro, poderão se dispersar no espaço imenso.E os candidatos à imigração convergem para a zona periférica de Schengen. Povoados são criados, dentro dos quais vagam libaneses, iraquianos, russos, moldavos e outros. Um desses campos fica na antiga base militar de Chop, na Ucrânia. Outros deverão nascer por toda a periferia de Schengen.Paradoxalmente, o resultado é que, nos países que estão à margem da zona sem fronteiras, como a Hungria e a Eslováquia, o número de policiais aumentou. Assim, o primeiro efeito da liberdade é a multiplicação do efetivo policial!Veremos se o belo sonho de um espaço livre de arames farpados será viável num mundo consagrado a dois flagelos: os pobres que procuram, com o risco de morrer, penetrar na feliz Europa, e os terroristas que, uma vez dentro do Espaço Schengen, poderão facilmente perpetrar seus atentados.Certamente, um longo trabalho foi realizado previamente para intensificar as relações entre as diversas polícias e reunir milhões de informações sobre as pessoas. O que nos leva a uma pergunta melancólica: por que a extensão da liberdade precisa ser acompanhada por um aumento da vigilância?George Orwell, do paraíso em que repousa, poderia nos esclarecer. *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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