Susan Walsh/AP
Susan Walsh/AP

Na política externa, Biden enfrenta mundo transformado e desafios da China ao Irã

Presidente eleito estabeleceu alguns princípios grandiosos, mas se encontra diante de prioridades conflitantes em assuntos intermediários

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 07h00

WASHINGTON - Não foram poucos os conselhos que o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, recebeu a respeito de como transpor o profundo fosso entre seu mantra, “A América está de volta!", e os desafios que se apresentam diante de um mundo que passou por enormes mudanças desde a última vez que ele trabalhou na Casa Branca.

Biden deveria se preocupar menos com os direitos humanos na China e mais em encontrar caminhos abertos para a cooperação sino-americana, aconselhou o decano de política externa Henry Kissinger. Deixe a Rússia ficar com a Síria, aconselhou Aaron Stein, diretor para o Oriente Médio do Foreign Policy Research Institute.

Grupos progressistas têm pedido para Biden cancelar grandes programas de armamentos e se livrar da Força Espacial da era Trump. O ministro do meio ambiente brasileiro sugeriu que, se Biden pretende salvar a Amazônia, deveria pagar por isso comprando créditos de carbono brasileiros. O secretário-geral da Otan o aconselhou a não sair do Afeganistão sem um acordo conjunto.

Biden estabeleceu alguns princípios grandiosos — dar atenção especial à interação entre prioridades domésticas e internacionais, consultar aliados e participar das instituições internacionais, levar a questão climática ao topo de sua pauta — e também planos para reverter no primeiro dia de mandato alguns dos mais graves desvios do presidente Donald Trump em relação a normas históricas, em temas como imigração.

Mas em um leque de assuntos intermediários, Biden se encontra diante de prioridades conflitantes, obstáculos no Congresso e aliados que, mesmo receptivos, são cautelosos. Em algumas questões, como Coreia do Norte e Venezuela, os obstáculos mais assustadores para o sucesso da política externa são os mesmos que atormentaram vários presidentes antes dele. Não há boas opções. 

O combate ao coronavírus e a recuperação da economia devem consumir muita energia do novo presidente, tratados como prioridade no primeiro ano. Biden está “herdando um país em crise”, afirmou Ellen Laipson, diretora do Programa de Segurança Internacional da Universidade George Manson.

“Entre a pandemia, as restrições a viagens e a crise econômica, não será um período tranquilo para o pessoal da política externa. Eles terão de esperar sua vez”, afirmou ela.

Algumas questões não poderão esperar.

O Novo Start, único tratado de controle de armamentos ainda em vigor entre EUA e Rússia, expira duas semanas após a posse de Biden. Biden afirmou que planeja oferecer aos russos uma prorrogação de cinco anos, que dará algum fôlego para seu governo lidar com problemas que têm piorado nos quatro anos mais recentes — incluindo o desenvolvimento, por parte de Moscou, de novos armamentos estratégicos e não estratégicos, cuja fabricação não está regulamentada em nenhum tratado, a competição em torno de armamento espacial e as agressões cibernéticas.

O presidente russo, Vladimir Putin, sem dúvida buscará o relaxamento de sanções impostas pelos presidentes Barack Obama e Trump, afirmou na semana passada Stephen Sestanovich, pesquisador-sênior em estudos da Rússia e da Eurásia do Council on Foreign Relations, em um podcast da instituição. Mas Biden, se estiver de acordo, “deve achar muito difícil derrubá-las sem retroceder em temas-chave que levaram à imposição dessas sanções”, incluindo a anexação da Crimeia pela Rússia, a agressão militar na Ucrânia e os complôs de envenenamento de inimigos do Kremlin.    

Apesar da probabilidade de Biden buscar cooperação com a Rússia em relação ao Irã e às mudanças climáticas, “será necessário muito diálogo, particularmente a respeito da Ucrânia, para ver se o lado russo cederá de alguma maneira que possa justificar o fim de sanções”, afirmou Sestanovich.

Em relação ao Irã, poderosas forças bipartidárias no Congresso se opõem ao plano de Biden de colocar os EUA novamente no pacto nuclear do qual Trump retirou o país. Sob o acordo, o Irã restringiu seu enriquecimento de urânio e permitiu monitoramento estrito de seu programa nuclear, em troca do fim das sanções econômicas.

Como Obama e seu vice-presidente, Biden, sustentavam quando o pacto foi assinado, em 2015, e o presidente eleito afirma hoje, o acordo nuclear foi projetado para ser um ponto de partida para a eliminação da ameaça imediata de uma arma nuclear iraniana e para abrir caminho a negociações futuras a respeito das guerras indiretas da República Islâmica e o desenvolvimento de mísseis pelo país persa.

Trump argumentava que isso nunca ocorreria, e sua retirada do acordo garantiu que isso não ocorresse durante seu governo. O desafio de Biden, além de lidar com a oposição política em seu país, está em como retomar negociações com um Irã que considera a si mesmo como a parte prejudicada, sem expressar o mínimo interesse em se comprometer além dos termos originais do acordo.     

Na interligada rede de assuntos de segurança nacional, Biden também tem de balancear o relacionamento dos EUA no restante do Oriente Médio, onde os países árabes tendem a se opor a qualquer tipo de aproximação com o Irã.

Biden afirmou em outubro que vai “reavaliar" o relacionamento que Trump cultivou com a Arábia Saudita, “acabar com o apoio dos EUA à guerra saudita no Iêmen e garantir que os EUA não deixem seus valores de fora na hora de vender armas ou comprar petróleo”. Essas iniciativas devem encontrar apoio no Congresso, que testemunhou o veto de Trump à legislação antissaudita.

Biden continua comprometido com a garantia da segurança de Israel e não planeja reverter o reconhecimento de Trump de Jerusalém como capital israelense e da anexação das Colinas de Golã. Mas o fato de Biden se opor a novos assentamentos em terra ocupada e seu compromisso com uma solução de dois Estados para a questão israelense-palestina pode ter menos ressonância, em meio aos novos acordos de normalização de relação entre países árabes e Israel. 

Ao mesmo tempo, a habilidade de Biden de avançar na negociação com o Irã é um aspecto importante de seu objetivo de restabelecer laços transatlânticos com Reino Unido, França, Alemanha — países que ainda integram o pacto nuclear com o Irã — e o restante da Europa.

A Europa está enrolada com seus próprios problemas, com a pandemia e os negacionistas do Estado de direito em países como Hungria e Polônia, cujos líderes Trump acolhia. Os principais aliados estão felizes por Biden ser comprometido com a relação transatlântica e por compartilharem valores com ele, que prometeu restabelecer as relações tradicionais dos EUA.

Mas eles continuam apreensivos a respeito de possíveis contradições entre as promessas de Biden de revigorar a manufatura e a agricultura dos EUA, pois o que esperam é um fim nas ameaças comerciais e tarifas trumpianas.

Apesar de Biden ter prometido manter os dezenas de milhares de soldados americanos instalados como forças de dissuasão na Europa, assim como no Japão e na Coreia do Sul, ele também pretende acabar com grandes envios de tropas para guerras no exterior, limitando a presença americana a forças antiterrorismo relativamente pequenas, com 1.500 a 2 mil homens, para proteger a segurança interna dos EUA.

Isso deixa em aberto muitas questões que interessam à Otan e aos aliados europeus que compartilham responsabilidades com soldados no Afeganistão e no Iraque, assim como na África.

Biden vai assumir a presidência em um mundo em que os EUA, apesar de ainda serem uma grande potência, não são necessariamente a única potência dominante. “Mas a transmissão da dominação americana não precisa significar o fim da liderança dos EUA”, argumentou Jake Sullivan, o escolhido de Biden para conselheiro de segurança nacional, em um artigo na revista Foreign Affairs.

“Isto é, os EUA podem não ser capazes de determinar resultados a partir da posição de uma proeminente influência econômica, política e militar”, escreveu Sullivan, “mas o país ainda consegue mobilizar cooperação em desafios compartilhados e moldar consensos em temas-chave. Nos próximos anos, apesar de Washington não ser o único destino  para países à procura de capital, recursos ou influência, os EUA continuarão um importante definidor da pauta”.

Uma posição na qual Biden espera liderar o mundo democrático é no confronto com a China. Apesar de aliados europeus terem buscado coordenar seus esforços com os EUA em relação à China, os parceiros dos americanos na Ásia, onde a paz regional e as economias são muito mais dependentes de um relacionamento tranquilo com Pequim, estão preocupados com as intenções de Biden.

Biden não se comprometeu com nenhuma ação em particular a respeito da China, não falou em levantar as tarifas de Trump nem em revisar pactos comerciais ainda não estabelecidos: disse que vai analisar tudo isso sob a ótica de como o trabalhador americano e a economia de seu país seriam afetados. 

Ele tem pedido por um “recuo” no “autoritarismo cada vez mais profundo na China, mesmo enquanto buscamos cooperar em questões nas quais nossos interesses estão alinhados”, e pediu que os EUA “se manifestem” a respeito da opressão contra Hong Kong e os muçulmanos uigures.

Ele tem se comprometido amplamente em garantir que a China siga normas marítimas e territoriais internacionais e afirmou que os EUA aumentarão bastante sua presença diplomática em organizações regionais nas quais Trump abriu mão, em grande parte, de sua influência.

Apesar de o governo Trump ter alertado contra o expansionismo da China e a agressividade do país em termos cada vez mais belicosos, Biden tem enfatizado uma abordagem um tanto diferente. Ele diz que vai usar o poder da liderança dos EUA — e de uma economia americana revitalizada — para mobilizar uma resistência mais global e unificada contra a China, em todas as frentes.

“O mais importante é que nos tornemos líderes de novo por virtude do nosso exemplo. O compromisso dos Estados Unidos com valores universais nos faz diferentes da China”, afirmou Biden, respondendo por escrito perguntas feitas pelo Council on Foreign Relations, em meados do ano. “É assim que se projeta um modelo que outros queiram imitar, em vez de seguir o caminho autoritário da China.” / W. POST, TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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