Na prática, Hillary já foi indiciada no caso dos e-mails

Favorita para conquistar nomeação democrata é vítima de escândalo criado por ela mesma

O Estado de S. Paulo

30 Maio 2016 | 05h00

Será possível que, em razão dos procedimentos pouco usuais que adotou para lidar com seus e-mails no período em que comandou o Departamento de Estado, Hillary Clinton fracasse na tentativa de chegar à presidência dos Estados Unidos? Um relatório da controladoria interna do órgão indica que o risco existe. 

O documento, divulgado na quarta-feira, não afirma que Hillary infringiu leis: isso teria alimentado o receio de que o FBI, que também investiga o caso, indicie a ex-secretária, enterrando suas chances na corrida pela Casa Branca. No entanto, o relatório levanta dúvidas sobre a conduta de Hillary e a falta de transparência com que ela reagiu ao escândalo – e não é preciso mais do que isso para Donald Trump, seu inescrupuloso adversário republicano, fazer a festa.

Desde que seu servidor de e-mails foi posto sob escrutínio público, Hillary afirma não ter violado regras. Não é o que diz o relatório do Departamento de Estado, que informa que ela estava “obrigada” a solicitar autorização para usar um sistema particular de e-mails, não o fez e teria tido a autorização negada se houvesse feito, já que o procedimento “colocaria em risco a segurança do órgão”.

A gambiarra não era um segredo. O relatório registra que a cúpula da diplomacia americana estava “razoavelmente a par” do problema. O foco do documento é o tratamento privilegiado que Hillary recebeu. Quando dois especialistas em Tecnologia da Informação deram vazão ao receio de que os e-mails da secretária talvez não pudessem ser preservados, seu superior determinou que não voltassem a falar do sistema de e-mails pessoal da titular da pasta. Em defesa de Hillary, o relatório observa que o departamento tem “deficiências antigas e sistêmicas” na conservação de registros. 

Colin Powell, que ocupou o cargo no primeiro governo de George W. Bush, também usava uma conta de e-mails particular e desrespeitou normas sobre o arquivamento de documentos. Mas o relatório sugere que Powell tinha mais desculpas para agir assim: em sua época, era mais difícil enviar e-mails para fora da rede interna do departamento. Além disso, ele se comunicava por e-mails com menos frequência que Hillary, para quem a confidencialidade – e não a simples “conveniência”, como alegou ela – parece ter sido uma motivação importante.

Mensagens eletrônicas incluídas no relatório revelam seu temor de que, usando uma conta oficial, como um auxiliar recomendara, suas mensagens pessoais viessem a público: “Não quero correr o risco de que as minhas coisas pessoais sejam acessíveis”.

Com base nas provas disponíveis, isso diz muito sobre as origens do escândalo. Impelida por uma preocupação histérica em manter a confidencialidade de suas comunicações, Hillary passou por cima de normas que seus assessores consideravam ser menos importantes do que de fato eram. Ela, sem dúvida, foi motivada pelas acusações difamatórias de que há anos é vítima (e Trump está pondo para circular novamente); seus auxiliares se deixaram levar pelo histórico de leniência do departamento e pela ânsia em fazer as vontades da chefe.

Mesmo que se adote uma visão indulgente sobre o problema, não há como perdoar Hillary pela maneira desastrada com que ela o enfrentou. Políticos mais hábeis teriam identificado o risco de que o escândalo aprofundasse a desconfiança que grande parte dos eleitores tem em relação a ela – e é seu ponto mais fraco. Não perderiam tempo para confessar, demonstrar arrependimento e organizar, com estardalhaço, a entrega de material aos investigadores. Hillary tergiversou, negou e viu o escândalo crescer. 

O indiciamento mais grave que pode sair daí diz respeito a suas habilidades políticas. Mas, depois que, no fim da semana passada, Trump apareceu na liderança das pesquisas, isso não chega a ser muito tranquilizador. /TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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