Ismael Francisco/AP
Ismael Francisco/AP

Na reabertura de embaixada dos EUA, Kerry pede democratização de Cuba

Secretário de Estado lidera cerimônia de hasteamento da bandeira americana em Havana, um marco da reaproximação entre os antigos adversários da Guerra Fria, e se torna a primeira autoridade do alto escalão de Washington a visitar a ilha

Claudia Trevisan/Enviada Especial/Cuba, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 01h00

Primeiro secretário de Estado americano a pisar em solo cubano em 70 anos, John Kerry defendeu ontem em Havana a democratização, a realização de eleições livres na ilha e disse que o fim do embargo dependerá da ampliação do espaço para a população local abrir negócios, acessar informação e participar do comércio.

Falando em espanhol, Kerry também enviou uma mensagem à população local, marcada por 54 anos de disputas com o vizinho do norte: “Não há nada a temer”. O secretário comandou a cerimônia de hasteamento da bandeira dos EUA na embaixada americana, o mais visível símbolo da reaproximação entre os antigos adversários da Guerra Fria.

Os cerca de mil cubanos que acompanhavam o evento do lado de fora do edifício aplaudiram quando a bandeira foi içada, por volta 10h30. Minutos antes, haviam gritado “viva Cuba” durante a execução do hino nacional. Bandeiras de Cuba pendiam de prédios vizinhos.

Mesmo ressaltando que o futuro da ilha deve ser decidido pelos cubanos, Kerry afirmou que os Estados Unidos continuarão a pressionar o governo local a obedecer às convenções de direitos humanos da ONU. “Estamos convencidos de que o povo de Cuba será mais bem servido por uma democracia genuína, na qual seja livre para escolher líderes, expressar ideias e praticar a fé”, declarou.

A cerimônia e as declarações pró-democracia do secretário americano foram transmitas ao vivo pela emissora estatal Cubavisión. Mas o site da blogueira Yoani Sánchez, o 14ymedio, estava inacessível na tarde de ontem. A opositora ao governo foi a única cubana a participar de uma entrevista que Kerry concedeu a jornalistas que o acompanharam desde os EUA.

Em seu discurso na embaixada, o secretário fez referência aos principais fatos que opuseram os dois países nas últimas cinco décadas e meia, como a invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis de 1962 e o alinhamento de Cuba à União Soviética. “Os eventos do passado – as palavras duras, as ações provocativas e retaliatórias, as tragédias humanas – têm sido uma fonte de profunda divisão.”

Segundo Kerry, há 54 anos os fuzileiros navais que retiraram a bandeira da embaixada fizeram a promessa de voltar a Havana para hastear novamente o símbolo de seu país. “Naquele momento, ninguém podia imaginar quão distante estava esse dia”, afirmou, lembrando que nesse período os EUA tiveram dez presidentes. Os três fuzileiros participaram da cerimônia.

Enquanto as relações entre Washington e Havana ficaram congeladas na Guerra Fria, observou, os EUA restabeleceram há 20 anos relações diplomáticas com o Vietnã, seu adversário em um conflito armado que devastou o país asiático e deixou milhares de mortos.

“Não é necessário ter um GPS para perceber que o caminho de isolamento mútuo e estranhamento que os Estados Unidos e Cuba trilhavam não era o correto e chegou o momento de nos movimentarmos em uma direção mais promissora.”

Ressaltando que o governo de Barack Obama é favorável ao fim do embargo econômico contra a ilha, Kerry afirmou que o avanço nessa direção dependerá da adoção de mudanças em Cuba. “O embargo sempre foi algo como uma rua de duas mãos. Ambos os lados precisam remover restrições que deixam os cubanos para trás.”

A decisão depende do Congresso americano e sofre forte oposição dos parlamentares ligados à comunidade de exilados e imigrantes cubanos, que exigem transformações políticas na ilha antes de levantar as sanções. Para o governo Obama, quanto mais se ampliar o espaço de ação dos indivíduos e da sociedade civil cubana, mais fácil será convencer o Congresso a revogar as sanções.

Depois do evento, Kerry e o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez Parilla, concederam entrevista coletiva conjunta.

Rodríguez defendeu a não intervenção em assuntos internos de seu país e respondeu às críticas de Kerry manifestando preocupação com a situação dos direitos humanos nos EUA. O ministro cubano referiu-se à discriminação racial, à violência policial, à desigualdade de salários entre homens e mulheres e à influência do poder econômico nas eleições.

Ambos ressaltaram que a abertura de embaixadas é apenas o início de um longo processo de normalização da relação bilateral. Kerry e Rodríguez anunciaram a criação de um grupo de diálogo permanente, encarregado de traçar um roteiro para negociações futuras – que começarão com os temas menos controvertidos.

Exigida pelos cubanos, a devolução da base de Guantánamo ao controle de Havana não está em discussão na reaproximação, disse o americano. “Mas, na medida em que avançamos e essas relações mudam, quem sabe quais temas serão colocados sobre a mesa ao longo do tempo?”, acrescentou.


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