Mike Segar/Reuters
Mike Segar/Reuters

Na reta final de seu mandato, Trump perde apoio e se volta contra aliados

Presidente reclama que ninguém o apoiou o suficiente nas falsas alegações de que as eleições foram fraudadas, nem o defendeu das críticas após ataque ao Capitólio, que ele instigou; Guliani, seu advogado, sofre represálias

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 05h00

WASHINGTON - O presidente Donald Trump está a cada dia mais isolado na reta final do mandato e a lista de aliados com quem está descontente não para de crescer. Ela inclui os deputados do Partido Republicano que votaram contra ele no processo de impeachment e até assessores muito próximos que o aconselharam durante os últimos anos na Casa Branca.

Trump mostra ressentimento principalmente com membros do seu staff. Ele considera que seus aliados não o apoiaram o suficiente em suas falsas alegações de fraude eleitoral. Também reclama que ninguém o defendeu das críticas após a invasão do Capitólio, por extremistas que ele incitou, ato que motivou a aprovação na Câmara de uma inédita segunda condenação em um processo de impeachment de um presidente americano.

Trump se voltou primeiro contra seu vice, Mike Pence, que certificou a vitória de Joe Biden na eleição presidencial no Congresso, não cedendo à pressão do republicano. 

A partir daí, a ira presidencial foi se estendendo e hoje está direcionada ao seu advogado, Rudolph Giuliani, um de seus mais firmes defensores, à secretária de imprensa Kayleigh McEnany, ao conselheiro sênior Jared Kushner, que também é seu genro, ao conselheiro econômico, Larry Kudlow, ao conselheiro de Segurança Nacional, Robert O’Brien, e ao chefe de gabinete, Mark Meadows.

Giuliani é o que mais tem sofrido represálias. Trump instruiu assessores a não pagarem os honorários advocatícios do aliado. Ele também exigiu aprovar pessoalmente qualquer reembolso das despesas de viagem que seu defensor fez, a pedido do presidente, para contestar os resultados eleitorais em Estados-chave. Assessores do presidente disseram que Trump expressou preocupação específica com uma cobrança de US$ 20 mil diários por seu trabalho na tentativa de anular a eleição presidencial.

Um dos poucos confidentes de Trump nos dias de hoje é o senador Lindsey Graham. Ele rompeu com o presidente na semana passada por causa da insistência de Trump em anular a vitória de Biden, mas acabou fazendo as pazes. Graham foi para o Texas na terça-feira, na última viagem presidencial programada de Trump, passando horas com ele a bordo do Air Force One. 

“O presidente resolveu que tudo acabou”, disse Graham, referindo-se à eleição. “Isso é difícil. Ele acha que foi enganado, mas nada vai mudar isso.”

Ao mesmo tempo, Graham tranquilizou Trump sobre a possibilidade de ele perder seu mandato a poucos dias de deixar a Casa Branca. Para que isso ocorra, o Senado precisaria convocar uma sessão extraordinária antes do dia 20, possibilidade que já foi descartada pelo líder da maioria na Casa, o senador Mitch McConnell, que também se tornou um ex-aliado, apesar de ter sido o responsável direto pela rejeição do impeachment de 2019.

Uma das únicas defesas de Trump na Casa Branca veio de Jason Miller, um conselheiro político experiente. Ele não defendeu a conduta do presidente, mas argumentou que aqueles que votaram por seu impeachment pagariam um preço político. Ele enviou à imprensa uma pesquisa feita pela campanha de Trump que mostrava oposição dos eleitores do republicano ao impeachment, ao qual chamou de “censura Big Tech”, uma referência ao Twitter e outras empresas de mídia social que suspenderam as contas do presidente.

Dissidência na Câmara

A raiva de Trump se estende aos deputados dissidentes de seu partido. Dez votaram a favor de sua condenação no processo de impeachment. O grupo representa uma pequena fração da legenda, mas ao apoiar a investida dos democratas incentivaram colegas do partido a fazer o mesmo em uma votação no Senado. 

O voto mais simbólico contra Trump veio da deputada Liz Cheney, a terceira na liderança do partido na Câmara, que justificou sua posição em um duro comunicado. “O presidente dos Estados Unidos convocou essa turba, a reuniu e acendeu a chama desse ataque”, disse Cheney na terça-feira ao se referir à invasão do Capitólio. “Tudo o que se seguiu foi obra dele. Nada disso teria acontecido sem o presidente”, escreveu Liz, que é filha de Dick Cheney, ex-vice-presidente dos EUA, na gestão com George W. Bush, outro figurão da legenda que atacou Trump após o cerco ao Congresso dos EUA.

Alguns dos deputados republicanos que votaram a favor do impeachment de Trump disseram que o fizeram de acordo com sua consciência. Eles quiseram manifestar sua revolta por causa da invasão do Congresso e culpam e Trump por incitar o ato, apesar de temerem uma nova escalada de violência e as ameaças aos legisladores. “Não há uma desculpa para as ações do presidente Trump”, disse o deputado republicano David Valadao, descendente de portugueses, da Califórnia. 

Líder que evitou 1º impeachment pode mudar de lado agora

A aprovação do impeachment de Trump na Câmara com o apoio de deputados do Partido Republicano agora pressiona os senadores aliados do presidente – o Senado deve ainda avaliar como vai ocorrer a votação.  

A posição mais marcante veio de McConnell. Ele foi o responsável direto pela rejeição do primeiro pedido que a Câmara aprovou em 2019 e o Senado rejeitou em 2020. Na quarta-feira, a imprensa americana dava como certa a mudança de posição afirmando que McConnell rompeu com Trump. Segundo a emissora Fox News, ele está “furioso” com o presidente. 

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O primeiro sinal do rompimento veio com pedido de demissão da mulher dele, Elaine Chao, que era secretária de Transportes de Trump, um dia após o ataque ao Capitólio.

Quando o primeiro processo de impeachment foi votado pelo Senado, McConnell avisou: “Não serei um jurado imparcial”. Ele então liderou sua bancada e obteve 52 e 53 votos, rejeitando os dois artigos do impeachment.

“Embora a imprensa esteja cheia de especulações, não tomei uma decisão final”, disse em um comunicado aos senadores aliados. De certo até agora, é que ele não convocará uma sessão extraordinária para votar o afastamento de Trump. / NYT e WP

 

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