Na revolta dos curdos na Turquia não há sexo, palavrão ou Alcorão

PKK luta pelo estabelecimento de um Curdistão autônomo

É JORNALISTA, ESCRITOR , ROY, GUTMAN, MCCLATCHY NEWSPAPER, É JORNALISTA, ESCRITOR , ROY, GUTMAN, MCCLATCHY NEWSPAPER, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h02

Os voluntários que se engajam na revolta dos curdos contra a Turquia precisam abandonar a prática religiosa islâmica e cortar "os laços afetivos" com qualquer pessoa fora do grupo, não dizer palavrões e não fazer sexo, do contrário enfrentarão processos e prisões, segundo informou um curdo nascido na Síria que desertou.

O jovem de 21 anos, que se afastou em junho da organização, levou consigo não apenas uma história de vida no Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), mas também informações detalhadas sobre planos de um ataque ajudaram as autoridades turcas a repelir a ofensiva curda. A organização McClatchy Newspapers obteve cópia do documento turco datado de 4 de julho. O relato tem o seu nome, mas identificamos o jovem apenas com as iniciais R.S. por questões de segurança.

O partido trava há 30 anos uma guerra contra a Turquia e exige a criação de um Estado no sul do país. Milhares de turcos foram mortos nas ações do PKK, que EUA e União Europeia consideram uma organização terrorista. As revelações do desertor contribuíram para evitar a captura de Semdinli, cidade curda de 19 mil habitantes, no sudeste da Turquia, pelo PKK, que perdeu mais de 100 combatentes. A ofensiva, porém, continua, com saldo de 112 turcos e 325 separatistas mortos entre julho e outubro.

O desertor revelou que estavam sendo reunidos de 250 a 350 rebeldes para o ataque a Semdinli. Também revelou um fato de importância estratégica: parte da operação foi preparada em Sehidan, base do PKK no interior do Irã, onde ele também estava estacionado, o que sugere um papel tácito de Teerã. "Como os aviões e a artilharia turca não podem atacar o solo iraniano, o PKK se movimenta livremente no Irã", contou R.S. às autoridades turcas. "Nós não interferimos e eles não mandam as forças de segurança contra nós".

Os curdos também vivem em algumas partes do Iraque, onde estabeleceram um governo autônomo em três províncias, que operam de maneira independente de Bagdá, e em partes da Síria, onde uma afiliada do PKK controla áreas do nordeste do país com a aparente aquiescência de Bashar Assad.

R.S. descreveu o PKK como anti-islâmico. Fazer as orações diárias, jejuar e ler o Alcorão são ofensas que podem levar à prisão. Em vez disso, os combatentes aprendem que a religião dos curdos é o zoroastrismo, uma das mais antigas do mundo, e devem adorar o fogo. Calcula-se que existam menos de 200 mil zoroastrianos hoje, a maioria no Irã e na Índia.

Outras ofensas que podem dar cadeia são estabelecer uma relação afetiva fora da organização, ter relações sexuais, carregar um aparelho eletrônico ou desobedecer ordens. Os membros do PKK presos por espionar ou manter relações sexuais são torturados na prisão e os que venderam armas ou atuaram como espiões são condenados à morte por fuzilamento. Os civis que desobedecem às ordens são sequestrados e presos, depois executados ou soltos após multa.

O jovem forneceu também os nomes de guerra, cidades de origem e localizações de mais de 100 recrutas do PKK e dos superiores que os treinaram. Entre eles, 74 curdos da Turquia, 13 da Síria, 5 do Irã, 2 do Iraque. O recrutamento de curdos sírios pelo PKK aumentou significativamente até 2011, à medida que a guerra civil no país se intensificava.

R.S.ndicou que estava preocupado com a cooperação entre PKK, Conselho Popular do Curdistão Sírio (espécie de versão local do grupo) e Assad. "A opressão experimentada pelos curdos na Síria há anos é fácil de se perceber", disse. "Entretanto, o PKK não realiza nenhum ataque contra o governo sírio apesar da opressão". Se os curdos da Síria "defenderem o regime, em vez de se submeterem, Assad não poderá sobreviver".

Ele disse que o PKK "ignora os direitos concedidos ao povo curdo pelo Estado turco. Uma das maiores preocupações do PKK, segundo R.S., é o drone Heron que a Turquia usa para detectar rebeldes, usando câmeras de dia e sensores térmicos à noite.

Às vésperas da ofensiva, o grupo proibiu o uso de rádios para impedir que os drones detectassem seus movimentos e todas as comunicações tinham de ser por escrito, em papel e em código. A norma para os combatentes inclui o uso de guarda-chuvas forrados que permitem aos rebeldes "mover-se livremente sem serem detectados pelos drones". O PKK também distribui capas de chuva que impedem que as câmeras térmicas detectem o calor emanado pelo corpo.

Há outras revelações. Desde 2006, o PKK tem um "Batalhão de Imortais" de 200 homens em suas forças especiais, cuja missão é realizar "ataques nos centros das cidades em períodos cruciais" para espalhar o medo e "diminuir a confiança dos cidadãos no Estado". Seus membros estão doentes, são treinados em explosivos e doutrinados a se sacrificarem pelo Curdistão. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.