Cristian Movila/NYT
Cristian Movila/NYT

Na Romênia, atingida gravemente pela covid, médicos combatem rejeição às vacinas

Índice proporcional de mortes no país é quase sete vezes mais alto do que nos Estados Unidos e quase 17 vezes maior que o alemão

Andrew Higgins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 15h00

COPACENI, Romênia — Conforme uma nova onda da pandemia de coronavírus se espalhava sobre o Leste Europeu, no mês passado, devastando populações não vacinadas, um bispo da Igreja Ortodoxa do sul da Romênia confortava seu rebanho: “Não se deixem enganar pelo que veem na TV — não se assustem com a covid”.

Mais importante, o bispo Ambrose de Giurgiu disse aos fiéis nesta pequena cidade romena, em 14 de outubro, “não se apressem para se vacinar”.

O bispo agora é investigado criminalmente por espalhar desinformação perigosa, mas seu estridente chamado antivacina, ecoado por políticos proeminentes, vozes influentes da internet e muitos outros, ajuda a explicar por que a Romênia registrou, nas semanas recentes, o índice mais alto do mundo de mortes por covid-19 per capita.

Na terça-feira, quase 600 romenos morreram, o maior número desde o início da pandemia. O índice de mortes no país relativo à população é quase sete vezes mais alto do que nos Estados Unidos e quase 17 vezes mais alto que na Alemanha.

“Esta onda é bem pior do que as outras — parece uma guerra”, afirmou a médica Anca Streinu-Cercel, que trabalha no maior hospital de doenças infecciosas da Romênia, o Instituto Nacional Bals, na capital do país, Bucareste. “Entramos no plantão sem saber que horas vamos largar.”

Seis ambulâncias transportando pacientes de covid esperavam do lado de fora do hospital enquanto funcionários da unidade médica buscavam lugar para os doentes nas alas lotadas.

O que torna esse surto particularmente mais duro, afirmou Streinu-Cercel, é que ele poderia facilmente ter sido evitado. Algumas pessoas vacinadas apresentaram quadros graves, afirmou ela, mas isso aconteceu porque seus sistemas imunes estavam comprometidos por tratamentos contra câncer e outras doenças. “A única razão verdadeira para todas essas pessoas estarem aqui é porque elas não se vacinaram”, afirmou ela.

Hesitação em relação à vacina, atiçada por forças poderosas na internet e no mundo real, deixaram a Romênia com o segundo índice de vacinação mais baixo da Europa; cerca de 44% dos adultos tomaram pelo menos uma dose na Romênia, que fica à frente apenas da Bulgária, com 29%. O índice geral na União Europeia é de 81%, com vários países acima de 90%. Complicando a situação, os romenos estão sem governo desde o mês passado, quando uma coalizão centrista se desmantelou.

A Bulgária também apresenta uma alta taxa de mortalidade por covid, com hospitais já lotados ainda mais inundados de novos pacientes. Na semana passada, um dos grandes hospitais da capital búlgara, Sófia, fez um apelo para estudantes de medicina e voluntários ajudarem.

A Letônia, um minúsculo país báltico onde a hesitação em relação à vacina é particularmente forte em meio à sua grande população de etnia russa, se tornou no mês passado o primeiro membro da UE a entrar em lockdown completo desde a fase inicial da pandemia, em 2020. A Rússia, onde menos da metade da população adulta foi parcialmente inoculada, e a Ucrânia, onde essa taxa é menor do que um terço, também voltaram a impor abrangentes restrições em meio a altas nos casos.

A teimosa resistência às vacinas nessa ampla faixa de países fez com que muitos procurassem respostas em algo que os une: o passado comunista que compartilharam e o desencanto generalizado com a balbúrdia e a corrupção que se seguiram.

“Fake news exercem grande influência sobre a nossa população e no Leste Europeu em geral”, afirmou Valeriu Ghorghita, coronel do exército que lidera o esforço de vacinação na Romênia. “Algo que todos temos em comum nessa parte da Europa é nosso passado político de comunismo.”

Sob líderes como Nicolae Ceausescu, o ditador romeno que passou um longo período no poder, até que foi deposto e executado em 1989, “ninguém confiava no vizinho, ninguém confiava nas autoridades, ninguém confiava em ninguém”, afirmou Ghorghita.

Isso deixou muita gente com suspeitas em relação a recomendações de funcionários do governo e médicos, especialmente num momento em que a internet está repleta de céticos em relação a vacinas que se autodeclaram especialistas e aconselham as pessoas contra as imunizações.

“Todo mundo virou especialista de repente, e as fake news estão por toda a parte, 24 horas por dia”, lamentou Silvia Nica, médica-chefe do setor de emergência do Hospital Universitário de Bucareste. Com leitos em falta, a unidade ergueu uma grande tenda de campanha no estacionamento para atender pacientes e transformou a recepção numa ala de tratamento contra covid. “Nunca achei que esse vírus fosse ficar tanto tempo entre nós. Todos estamos exaustos.”

Enquanto ela falava, um paciente de covid de 66 anos, Nicu Paul, sofria de falta de ar em uma cama próxima. Sua mulher, Maria, também vítima de graves problemas pulmonares causados pela covid, estava na cama ao lado. Nicu Paul afirmou que trabalhou 40 anos como motorista de ambulância sem jamais adoecer — “Deus me salvava”, afirmou ele. Então ele decidiu não se vacinar, porque “há tantos rumores a respeito da vacina que eu não soube em que acreditar”.

A Romênia começou a vacinar seus cidadãos em dezembro e colocou o programa sob a tutela dos militares, a instituição mais respeitada do país, de acordo com pesquisas de opinião. A segunda instituição mais respeitada, porém, é a Igreja Ortodoxa, que emitiu sinais ambíguos em relação às vacinas, com o patriarca Daniel, de Bucareste, dizendo para as pessoas formarem suas próprias opiniões e dar ouvido aos médicos, enquanto muitos clérigos locais e alguns bispos influentes falavam que as vacinas eram obra do diabo.

Ghorghita afirmou que ficou chocado e confuso com o alcance do sentimento antivacina. “Eles acreditam realmente que as vacinas não são a maneira apropriada de impedir a covid”, afirmou ele, acrescentando que isso ocorreu apesar do fato de que “mais de 90% das mortes serem de pessoas não vacinadas”. Idosos, a faixa mais vulnerável da população, têm sido os mais difíceis de convencer, afirmou ele, e somente 25% das pessoas com mais de 80 anos se vacinaram.

No centro de Bucareste, enormes cartazes exibem imagens de pacientes graves de covid nos hospitais, como parte de uma campanha para trazer as pessoas de volta à realidade. “Eles estão sem ar, implorando, arrependidos”, afirma uma das mensagens.

Streinu-Cercel afirmou que não fica à vontade com a ideia de mobilizar as pessoas pelo medo. “Deveríamos estar falando de ciência, não apavorando as pessoas”, afirmou ela, mas o “medo é a única coisa que chama a atenção da população em geral”.

A desconfiança em relação a tudo e a todos é tão profunda, afirmou Streinu-Cercel, que alguns de seus pacientes “com falta de ar me dizem que a covid não existe”.

“A coisa fica muito difícil quando tanta gente nega a realidade”, acrescentou ela.

Em um centro de vacinação de seu hospital, poucas pessoas aparecem na maioria dos dias, apesar de as vacinas serem grátis e cada vez mais necessárias para seguir novas regras que exigem certificados de vacinação para a entrada em muitos prédios públicos.

Uma das pessoas sendo vacinadas era Norica Gheorghe, de 82 anos. Ela afirmou que resistiu meses em se imunizar até que soube da notícia de que quase 600 pessoas morreram em um dia. “Meu cabelo arrepiou quando vi esse número, e decidi que deveria me vacinar”, afirmou ela.

No início da pandemia, em 2020, a desinformação em relação à covid na Romênia seguia, na maior parte, temas que encontravam respaldo em muitos outros países, de acordo com Alina Bargaoanu, professora de comunicações de Bucareste que estuda desinformação, com pessoas espalhando tresloucadas teorias de conspiração em perfis falsos de Facebook e outras redes sociais.

Mas quando a pandemia se agravou, acrescentou ela, esse fenômeno de falsidade virtual de transformou em um movimento político liderado por pessoas reais, como Diana Sosoaca, legisladora que ocupa um assento na Câmara Alta do Parlamento romeno. Sosoaca liderou um protesto no norte do país que impediu a inauguração de um centro de vacinação, qualificando a pandemia como “a maior mentira do século” e organizou manifestações contra o uso de máscaras em Bucareste. Vídeos de suas falácias tiveram milhões de visualizações.

Bargaoanu, a pesquisadora de desinformação, afirmou que suspeita de um dedo da Rússia na disseminação do alarme em relação às vacinas, mas admitiu que muitas das mais populares terias conspiratórias contra vacinas se originam nos Estados Unidos, o que as torna particularmente difíceis de contestar, porque “a Romênia é um país extremamente pró-americano”.

Ghorghita rebateu as mais grotescas falácias nas redes sociais e também se encontrou com líderes cristãos, judeus e muçulmanos para pedir que eles não atiçassem as chamas da desinformação. “Eles não têm dever de recomendar a vacinação, mas têm dever de não rechaçar”, afirmou ele.

A Igreja Ortodoxa é particularmente importante por causa de sua forte influência em regiões rurais, nas quais os índices de vacinação chegam à metade das taxas de cidades como Bucareste, onde mais de 80% dos adultos receberam pelo menos uma dose.

Em Copaceni, um distrito rural ao sul de Bucareste, funcionários de uma pequena clínica que oferece vacinas afirmaram que ficaram estarrecidos com as declarações antivacina de Ambrose.

“Estou lutando diariamente para fazer com que as pessoas se vacinem, e daí ele aparece dizendo para ninguém se incomodar com isso”, afirmou Balota Hajnalka, que coordena a clínica. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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