Tingshu Wang/Reuters
Tingshu Wang/Reuters

Na Rússia e na China, líderes também pressionam por vacina

Desenvolvimento de imunizante se tornou ferramenta de propaganda e símbolo de orgulho nacional

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2020 | 04h00

Além dos Estados Unidos, os governos de China e Rússia têm feito pressão para acelerar o desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19, que se tornou uma ferramenta de propaganda e símbolo de orgulho nacional. O presidente chinês Xi Jinping já prometeu tomar qualquer vacina eficaz contra o coronavírus desenvolvida pelo seu país, enquanto Vladimir Putin planeja uma vacinação em massa em outubro, um prazo otimista demais diante das perspectivas das principais instituições de pesquisa ocidentais, que esperam uma vacina para, no mínimo, no fim de 2020. 

"Há uma escalada na geopolítica da pesquisa de vacinas", disse Cliff Kupchan, presidente do Eurasia Group, uma empresa de consultoria de risco. "Não sei quanto a lei internacional e a proteção de patentes serão aplicadas. As pessoas estão muito desesperadas". Com transparência limitada, separar a ciência da política e da propaganda pode ser impossível na Rússia e na China. Os governos dos EUA, Canadá e Reino Unido acusaram hackers russos de tentarem roubar pesquisas de vacinas, lançando uma sombra sobre a alegação da Rússia de ter alcançado avanços médicos. As autoridades russas negaram a acusação. 

A China também foi acusada pelo governo dos Estados Unidos de roubo de propriedade intelectual, inclusive com relação a dados sobre uma vacina para a covid-19. O Departamento de Justiça acusou dois hackers que estariam atuando para o serviço de inteligência do país como parte de uma campanha mais ampla de anos de roubo cibernético. A crise culminou com o fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas. 

Países com ampla capacidade de produção de vacinas como Rússia, China e Índia poderiam acabar inoculando suas populações copiando uma vacina bem-sucedida, mesmo que não a desenvolvessem. Em abril, o Serum Institute na Índia anunciou que tinha planos de produzir em massa uma vacina, com permissão do desenvolvedor, antes do término dos ensaios clínicos.

A vacina russa, feita pelo Instituto Gamaleya em Moscou, ainda está em fase de testes clínicos, o que levanta preocupações sobre os métodos que o país adota para produzi-la. O ministério da saúde informou que o laboratório já busca aprovação regulatória e a televisão estatal promove há meses a ideia de que a Rússia lidera a competição global por uma vacina. Apesar disso, o país só vai iniciar os testes da fase 3 da vacina em agosto - essa fase é a única capaz de determinar a eficácia da vacina. 

No passado soviético, o país esteve na vanguarda em virologia e vacinação, mas os gastos diminuíram e, às vezes, medicamentos chegam a ser aprovados com testes limitados ou até sem testes. "O que resta do vasto complexo científico do período soviético é uma sombra do que era", disse Kupchan. 

"Temos esse legado muito significativo da Rússia como líder de vacinas no tempo soviético e hoje", disse Kirill Dmitriev, funcionário sênior do Fundo de Investimento Direto da Rússia, investidor controlado pelo governo no esforço de vacinação do país. "Não precisamos criar muitas coisas do zero".  / NYT e W. Post  

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