Maxim Shemetov/Reuters
Maxim Shemetov/Reuters

Na Rússia, muitas estátuas foram destruídas, mas pouca coisa mudou

À medida que os EUA fervem de raiva devido à brutalidade e ao racismo de policiais, a experiência da Rússia desde o colapso do comunismo oferece uma lição de advertência quanto aos perigos e decepções dos monumentos derrubados

Andrew Higgins / The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 03h30

MOSCOU – Eufóricos com a derrota de um golpe comunista de linha dura em agosto de 1991, milhares de moscovitas, em sua maioria jovens, reuniram-se em frente à sede da KGB (serviço secreto soviético) e discutiram acerca da melhor forma de selar sua vitória com um ato ousado e simbólico.

Depois de alguma discussão, lembrou Serguei B. Parkhomenko, então um jovem jornalista que cobria a cena, a multidão voltou seu entusiasmo - mais euforia do que raiva, disse ele - à estátua de Felix Dzerzhinsky, o implacável fundador da polícia secreta soviética, que estava erguido em uma rotatória em frente ao Lubianka, o ameaçador edifício de pedra que abrigava a KGB.

A remoção da estátua, realizada com a ajuda de um guindaste enviado pelas autoridades da cidade de Moscou, foi recebida com gritos de "Abaixo a KGB" e enviou uma poderosa mensagem de que a mudança finalmente chegara à Rússia.

Ou assim parecia na época. Quase 30 anos depois, a Rússia é governada por um ex-oficial da KGB, o presidente Vladimir Putin, e Dzerzhinsky é homenageado com um busto do lado de fora da sede da polícia da cidade de Moscou.

À medida que os Estados Unidos fervem de raiva devido à brutalidade e ao racismo de policiais, a experiência da Rússia desde o colapso do comunismo oferece uma lição de advertência quanto aos perigos e decepções dos monumentos derrubados.

A Rússia nunca se envolveu em um profundo acerto de contas com seu passado soviético, trazendo à tona injustiças e detendo seus responsáveis. Em vez disso, as atrocidades foram ocultadas e parte da antiga elite se reconstituiu no poder, principalmente nos serviços de segurança.

Parkhomenko disse que não se arrependia da remoção de Dzerzhinsky - conhecido como "Felix de ferro" por causa de sua defesa inflexível do comunismo soviético - e certamente não o quer de volta.

Mas lamentou que o que havia sido um ataque simbólico altamente gratificante contra a antiga ordem não enterrasse, nem sequer prejudicasse, o sistema representado pela estátua.

"Tudo mudou", disse ele. “O golpe falhou, mas 30 anos depois venceu. O sistema de poder da Rússia hoje está muito mais próximo do que o golpe queria alcançar do que o que aqueles que protestavam contra ele queriam. Esta é a nossa grande tragédia."

A estátua de Dzerzhinsky foi inicialmente jogada no chão do lado de fora de uma galeria de arte moderna de Moscou, juntamente com outros "heróis caídos" - entre eles uma estátua de granito rosa de Stalin, cujo o rosto foi esmagado por golpes de martelo e uma estátua de bronze de Yakov Sverdlov, um dos primeiros líderes bolchevique, derrubado em 1991 de uma praça de frente para o Teatro Bolshoi.

Elas agora estão de pé novamente como parte do Muzeon Park of Arts, uma exposição ao ar livre administrada pelo Estado que também inclui tributos artísticos às suas vítimas, como uma obra de 1998 chamada Vítimas de regimes totalitários, uma longa gaiola de arame contendo esculturas cabeças de pedra.

De tempos em tempos, o partido comunista pede o retorno de Dzerzhinsky ao seu pedestal, em frente ao que agora é o Serviço de Segurança Federal, ou FSB (na sigla em russo), o nome pós-soviético de uma KGB pouco modificada. Mas o simbolismo disso seria demais, mesmo para Putin.

O Kremlin concentrou-se principalmente na construção de novas estátuas, não na restauração das destruídas nos anos 90. Entre as novas adições está um monumento imponente ao tenente-general Mikhail T. Kalashnikov, o projetista do rifle de assalto AK-47. A estátua de bronze, erguida em 2017 em uma das ruas mais movimentadas de Moscou, mostra Kalashnikov embalando uma de suas (armas) automáticas, o que, visto de longe, lembra um velho guitarrista de heavy metal.

Os noticiários na televisão estatal russa foram preenchidos nos últimos dias com relatos desdenhosos acerca das estátuas sendo atacadas nos EUA. Eles lamentam que Cristóvão Colombo, generais confederados e outras figuras históricas tenham sido alvo do que é descrito como vandalismo cheio de raiva.

Mas a consternação da Rússia também é sentida por muitos intelectuais de mente liberal que não assistem à televisão estatal ou compartilham sua alegria jingoísta com os problemas no ocidente, mas que viveram os esforços de seu próprio país para afastar seu passado.

"Fazer guerra contra homens de bronze não torna sua vida mais virtuosa ou justa", disse Maria Lipman, que trabalhou em Moscou como jornalista enquanto o comunismo estava em colapso e aplaudiu quando Dzerzhinsky foi derrubado. "Não muda nada, na verdade."

As estátuas de Stalin, o ditador soviético que morreu em 1953, desapareceram rapidamente em todo o império que ele governava. Uma exceção importante foi sua cidade natal, Gori, na Geórgia, que esperou até 2010 para removê-lo de sua praça central.

Hoje, no entanto, o tirano, cujo corpo foi removido em 1961 de um mausoléu na Praça Vermelha que ainda mantém o cadáver de Lênin, nunca foi tão popular na Rússia. Uma pesquisa de opinião no ano passado registrou a marca recorde de 70% (do pensamento entre a população) de que Stalin teve um papel positivo na história da Rússia.

"Acabar (com as estátuas) não funciona", disse Nina Khrushcheva, especialista russa na New School em Nova York, cujo avô, o ex-líder soviético Nikita Khrushchev, tentou quebrar o domínio do stalinismo e foi expulso do poder em um golpe do Kremlin em 1964.

"Denunciar Stalin foi a maior conquista de Khrushchev, mas removê-lo de todos os espaços públicos, tentando excluir essa história, foi um grande erro", disse ela. "Depois de demolir o herói de alguém, você apenas incita o ódio e dá força a sentimentos (até então) ocultos."

Mikhail Y. Schneider, ativista pró-democracia que liderou os manifestantes à sede da KGB em agosto de 1991, disse que atacar a estátua de Dzerzhinsky foi uma "grande libertação emocional" que "nos ajudou a acreditar que estávamos vivendo em um país diferente", mas "isso não mudou nada."

Para uma mudança real, ele disse, a remoção dos símbolos da era soviética precisava ser acompanhada de um programa de exposição de crimes, julgamento dos responsáveis e devolução de bens confiscados. "Agora é tarde demais", acrescentou. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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