Lynsey Addario/The New York Times
Lynsey Addario/The New York Times

Na Rússia, parentes de ucranianos não acreditam que haja guerra

Máquina de desinformação do Kremlin faz população que vive no país acreditar que Exército de Putin esteja salvando a Ucrânia

Valerie Hopkins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 09h00

LVIV — Quatro dias depois que a Rússia começou a bombardear Kiev, o dono de restaurantes ucraniano Misha Katsiurin se perguntou por que seu pai, que mora na cidade russa de Nizhny Novgorod, ainda não havia ligado para saber como ele estava.

“Há uma guerra, sou filho dele, e ele simplesmente não liga”, disse Katsiurin, de 33 anos. Katsiurin pegou então o telefone e contou ao pai que a Ucrânia estava sob ataque da Rússia.

“Estou tentando retirar meus filhos e minha esposa, tudo é extremamente assustador”, disse Katsiurin. Ele não obteve a resposta que esperava. Seu pai, Andrei, não acreditou no que ele dizia:

“Não, não, não, pare”, respondeu seu pai, segundo Katsiurin, que converteu seus restaurantes em centros de voluntários e agora está no Oeste da Ucrânia. “Meu pai começou a me contar como vão as coisas no meu país, gritou comigo e disse ‘Olha, tudo está indo assim. Eles são nazistas”.

Em suas tentativas de justificar a invasão russa, o presidente Vladimir Putin se referiu ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, um falante nativo de russo com origem judaica, como um “nazista viciado em drogas”.

É assim que, enquanto os ucranianos lidam com a devastação em sua terra natal, muitos também estão enfrentando uma reação confusa e quase surreal de familiares na Rússia.

Estes se recusam a acreditar que soldados russos possam bombardear pessoas inocentes ou mesmo que uma guerra esteja ocorrendo.

Esses parentes basicamente compraram a posição oficial do Kremlin: que o Exército de Putin está conduzindo uma “operação militar especial” limitada com a honrosa missão de “desnazificar” a Ucrânia.

Tais narrativas estão surgindo em meio a uma onda de desinformação que emana do Estado russo, à medida que o Kremlin se movimenta para reprimir reportagens independentes e molda as mensagens que a maioria dos russos está recebendo.

Estima-se que 11 milhões de pessoas na Rússia tenham parentes ucranianos. Muitos cidadãos ucranianos são russos étnicos, e aqueles que vivem nas partes Sul e Leste do país falam russo como sua língua nativa.

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Os canais de televisão russos não mostram o bombardeio de Kiev e seus subúrbios, ou os ataques devastadores a Kharkiv, Mariupol, Chernihiv e outras cidades ucranianas. Eles também não mostram a resistência pacífica evidente em lugares como Kherson, uma grande cidade no Sul que as tropas russas capturaram há dias, e certamente não exibem os protestos contra a guerra que surgiram em toda a Rússia.

Em vez disso, eles se concentram nos sucessos dos militares russos, sem discutir as baixas entre os soldados russos. 

Muitos correspondentes da televisão estatal estão no Leste da Ucrânia e não nas cidades atingidas por mísseis e morteiros. Notícias recentes não fizeram menção ao comboio russo de 60 quilômetros de comprimento em uma estrada em direção a Kiev.

Tudo isso, disse Katsiurin, explica por que seu pai lhe disse, que “há soldados russos lá ajudando as pessoas. Eles lhes dão roupas quentes e comida.” Katsiurin não está sozinho em sua frustração.

'Tudo calmo em Kiev'

Quando Valentina Kremir escreveu para seu irmão e irmã na Rússia para contar que seu filho havia passado dias em um abrigo antiaéreo no subúrbio de Bucha, em Kiev, por causa dos intensos combates lá, ela também foi recebida com descrença.

“Eles acreditam que esteja tudo calmo em Kiev, que ninguém esteja bombardeando Kiev”, disse Kremir em entrevista por telefone.

Ela afirma que seus irmãos acham que os russos estão atacando a infraestrutura militar “com precisão, e é isso”.

Kremir disse que sua irmã Lyubov, que mora em Perm, desejou-lhe um feliz aniversário em 25 de fevereiro, o segundo dia da invasão. Quando Kremir escreveu de volta sobre a situação na cidade, a resposta de sua irmã via mensagem direta foi simples.

“Ninguém está bombardeando Kiev, e você deveria realmente ter medo dos nazistas, contra quem seu pai lutou. Seus filhos estarão vivos e saudáveis. Nós amamos o povo ucraniano, mas você precisa pensar muito sobre quem você elegeu como presidente.”

Kremi enviou fotos de sites de mídia confiáveis de tanques destruídos e um prédio destruído em Bucha para seu irmão, em Krasnoiarsk, mas recebeu uma resposta chocante.

“Ele disse que este site é de notícias falsas”, disse ela, e que essencialmente o Exército ucraniano estava causando o dano que é atribuído aos russos. “É impossível convencê-los do que fizeram”, disse Kremir, referindo-se às forças russas.

Anastasia Belomitseva e seu marido, Vladimir, estão enfrentando o mesmo problema. Eles são moradores de Kharkiv, no Norte da Ucrânia, perto da fronteira com a Rússia, que foi duramente atingida por bombas russas.

Mas eles disseram em uma entrevista que foi mais fácil explicar a invasão para sua filha de 7 anos do que para alguns de seus parentes. “Eles não entendem realmente o que está acontecendo aqui; eles não entendem que eles simplesmente nos atacaram sem motivo”, disse Belomitseva.

Sua avó e o sogro estão na Rússia. Questionada se eles acreditam que um ataque está acontecendo, Belomitseva foi veemente. “NÃO!”

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