Na Rússia, pobreza cresce 30% em 3 meses

Mais de 24 milhões de russos vivem com menos de US$ 180 por mês

Luke Harding, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

O pesado custo social da crise econômica na Rússia ficou evidente quando novos dados revelaram um aumento de 30% no número de pobres.

De acordo com a Comissão Estadual de Estatísticas da Rússia, o número de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza subiu para 24,5 milhões nos primeiros três meses do ano - um aumento considerável em relação aos 18,5 milhões computados no final de 2008.

Esse aumento ocorre depois de anos em que os russos viram seu padrão de vida melhorar, sob o governo do ex-presidente Vladimir Putin - hoje premiê -, em grande parte graças à alta dos preços do petróleo e a situação da Rússia como a maior exportadora de gás do mundo. Essa melhora do padrão de vida dos russos foi interrompida bruscamente. Hoje, mais famílias vivem abaixo da linha de pobreza - definida como uma renda de menos de US$ 180 por mês para um adulto.

Escrevendo no jornal Kommersant, o economista Dmitri Butrin diz que o sucesso de Putin no combate à pobreza, durante a última década, foi revertido. "A taxa oficial de pobreza aumentou em 6 milhões de pessoas. Os ganhos obtidos no combate à pobreza, entre 2000 e 2008, foram perdidos."

A Rússia, como qualquer outra grande potência econômica, foi atingida pela crise global. Sua economia encolheu 9,5% no primeiro trimestre do ano. Milhões de dólares precisaram ser injetados no setor bancário.

Segundo um economista, a importância desses dados sobre o número de pobres não deve ser exagerada. Para ele, esses números dissimulam grandes diferenças regionais num país onde existe uma enorme disparidade de renda entre a elite que vive em Moscou e São Petersburgo e as pessoas que vivem em vilarejos e cidades industriais decadentes.

Natalia Zubarevich, professora de geografia econômica na Universidade Estadual de Moscou, diz que os russos são especialistas em lidar com crises; muitos plantam verduras e legumes em pequenas hortas na sua cozinha para sobreviver, e outros dispõem-se a ter o salário reduzido.

O aumento da pobreza não apresenta um desafio político sério para o Kremlin, diz a professora. "A mídia russa (controlada pelo Estado) é clara sobre quem são os responsáveis pela crise. São os estrangeiros, os inimigos e as grande empresas. Mas nunca Putin."

A alta dos preços do petróleo indica que não há perspectivas de uma revolta social na Rússia, diz ela. "É o suficiente para as pessoas permanecerem calmas, social e economicamente".

O Kremlin está determinado a reprimir qualquer manifestação depois que moradores de Pikalyovo (a 240 km de São Petersburgo) bloquearam uma rodovia, quando a fábrica onde trabalhavam fechou. Putin visitou a cidade e obrigou o proprietário da empresa a reabri-la.

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