Na selva, jovens guerrilheiros têm de pedir autorização até para namorar

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) autoproclamam-se uma organização político-militar de inspiração marxista-leninista que combate as classes dominantes do país. No entanto, o diário de Tanja Nijmeijer quebra o mito socialista da guerrilha e revela particularidades da vida nos acampamentos das Farc até então desconhecidas.Os relatos de Tanja mostram um cotidiano desigual e injusto nos campos, onde há racionamento de comida e os casais precisam de permissão para que fiquem juntos. "Consegui um ?amigo? e combinamos de ele ir conversar com o chefe para permitir que namorássemos", escreve Tanja.Segundo os textos da holandesa, nos acampamentos, os guerrilheiros não usam preservativos nem se preocupam com o risco de doenças sexualmente transmissíveis. "Aqui há dois, ou quem sabe mais, companheiros com o vírus da aids", afirma. "Até onde entendo, uma menina nem sabe o que a doença significa, pois me disse isso toda sorridente."Para a cientista política holandesa Liduine Zampolle, especialista em Farc, a maneira pela qual os relacionamentos são mantidos nos campos da guerrilha faz parte de uma estratégia dos líderes. "Os comandantes não querem que seus subordinados tenham relacionamentos fixos porque acreditam que laços afetivos põem em risco o desempenho deles como combatentes", afirmou Liduine. "A principal preocupação de todos deve ser apenas a guerrilha."Tanja também descreve uma sociedade na qual os comandantes - e sobretudo suas mulheres - têm mais privilégios do que seus subordinados. De acordo com ela, em dias de festa, os líderes têm comemorações privadas, enquanto aos subordinados só é permitido consumir a bebida que sobrou. "A mulher de um comandante é uma classe à parte", relata. "Elas têm privilégios e, às vezes, nos dão ordens."As Farc são o maior grupo guerrilheiro colombiano, com 11 mil combatentes, segundo o governo. O grupo mantém 45 reféns políticos, que pretende trocar com o governo por cerca de 500 guerrilheiros presos. Para as negociações, a guerrilha exige que o presidente Álvaro Uribe desmilitarize uma zona do país - exigência à qual Uribe se recusa a ceder.

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