Na Síria, antes de mais nada não prejudicar

Uma intervenção modesta dos Estados Unidos no país árabe pode, em vez de ajudar os insurgentes a depor o regime Assad, pôr mais lenha no fogo

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2014 | 02h05

A decisão do governo Barack Obama de solicitar US$ 500 milhões para treinar e financiar membros da oposição síria foi bem acolhida pelos dois partidos em Washington. O consenso geral é o de que, se o governo tivesse feito alguma coisa há três anos, a situação na Síria não teria se degradado e se transformado numa guerra civil sectária. Mas esta noção é errada. O governo está cedendo ao clássico desejo de Washington de "fazer alguma coisa" diante de uma terrível situação sem nenhum raciocínio claro quanto a se sua ação vai melhorar ou piorar as coisas.

"A população síria começou sua revolução com manifestações de protesto pacíficas", afirmou o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, um dos que defendem que o confronto se tornou sectário porque Washington não agiu quando a luta se intensificou. "Os radicais islâmicos estão sequestrando a revolução", explicou Graham.

Na verdade, os radicais islâmicos têm se mantido no centro da oposição ao governo de Bashar Assad desde o início, há décadas. O pai de Assad, Hafez Assad, assumiu o poder num golpe em 1970 e foi o primeiro não sunita a governar o país. Mas no final da década de 70 ele enfrentou uma insurgência armada que se propagou pelas grandes cidades do país. Entre 1979 e 1981, morreram mais de 300 partidários do regime só em Alepo. Hafez Assad, em represália, comandou uma repressão severa que matou 2 mil insurgentes islamistas.

O livro de Eugene Rogan, The Arabs: A History (Os árabes: uma história), relata a história de um jovem comandante alauita, Isa Ibrahim Fayyad, durante aqueles anos, enviado em sua primeira missão para a prisão de Tadmur.

"Eles abriram os portões da prisão para nós. Éramos seis ou sete que entramos e matamos todos os que encontramos ali, cerca de 60 ou 70 presos. Eu devo ter atirado e matado em torno de 15. No total, os 550 bastardos irmãos muçulmanos deviam ser mortos."

A campanha de terror islamista se propagou chegando até Damasco, onde em novembro de 1981 eles explodiram um carro-bomba no centro da cidade que matou 200 pessoas e feriu 500. E em 1982 houve um a insurreição e o terrível massacre na cidade Hama, onde entre 10 mil e 20 mil pessoas - incluindo mulheres e crianças - foram assassinados por tropas do governo. Desde então, o regime se organizou para uma guerra contra os islamistas e estes, por sua vez, se prepararam para as oportunidades de travar uma guerra contra o regime.

Golpes. A Síria é um país instável desde seu nascimento. Entre sua independência em 1946 e o golpe de Hafez Assad, foram registrados dez outros golpes e tentativas de deposição do poder. Nos anos 70 o país já estava dividido em dois campos, amplamente definidos pelo islamismo e as seitas. Nações estrangeiras do Oriente Médio - Arábia Saudita, Iraque, Irã - financiavam, armavam e treinavam militantes de ambos os lados. Em 2011 essas tensões latentes transbordaram.

Hoje, de acordo com James Clapper, diretor da inteligência nacional, existem 1.500 grupos insurgentes separados na Síria, contando com uma força que varia de 75 mil a 115 mil militantes. Além disso, há 7.500 combatentes estrangeiros vindos de países vizinhos. Os grupos mais fortes são todos radicais islâmicos - o Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês), o Ahrar al-Sham e o Jabhat al-Nusra.

Lembremos que potências vizinhas, como o governo turco, passaram meses tentando criar uma oposição síria moderada. Encontrei-me com alguns dos seus líderes em Istambul em 2012. Eram pessoas autenticamente liberais e democráticas. Infelizmente, mal tinham contatos com os reais grupos combatendo na Síria. Os esforços da Turquia malograram, como também os de outros países.

Mas agora Washington pretende "avaliar" esta vasta e dispersa oposição síria, de 1.500 grupos para encontrar moderados. Boa sorte. A complexidade da tarefa pode ser observada na atitude americana com relação ao Isil: o grupo que combate o governo do premiê Nuri al-Maliki no Iraque é um inimigo mortal e precisa ser atacado implacavelmente. Mas quando ele cruza a (hoje inexistente) fronteira entre Iraque e Síria e combate o regime de Bashar Assad ele atende ao objetivo dos EUA de mudança de regime em Damasco.

Nenhum outro país demonstra essa incoerência estratégica. Os grupos sunitas combatem o que consideram regimes apóstatas em Bagdá e em Damasco. Os regimes xiitas e quase xiitas são apoiados pelas potências xiitas da região - Irã e Hezbollah. Só os EUA estão à procura dos "bons".

Com essa história em mente, é difícil acreditar que há três anos uma modesta intervenção americana, com armas e treinamento, teria mudado a situação na Síria. Mas alguém acredita hoje que uma intervenção americana modesta encontrará autênticos democratas nesse turbilhão, irá ajudá-los a vencer a guerra contra Assad e os radicais, e estabilizará a Síria? Ou este novo ativismo de Washington vai jogar mais lenha na fogueira? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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