Na Síria, encaramos os fantasmas do que virá

Se não criarmos outras maneiras de resolver conflitos na nova desordem global, o século 21 será ainda mais sangrento do que o século 20

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD, TIMOTHY , GARTON ASH, ESPECIAL, É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD, TIMOTHY , GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h07

"Nunca mais!", gritamos após a 2.ª Guerra, Ruanda e Bósnia. Aí, tornou a acontecer. E de novo. Segundo estimativas, quase 70 mil pessoas morreram na guerra civil que devasta a Síria. São mais de 4 milhões de sobreviventes necessitando de ajuda humanitária, 2 milhões de deslocados internos e 1,5 milhão de refugiados fora do país.

A Unicef diz que esses necessitados e deslocados incluem quase 3 milhões de crianças. Esta já é uma das maiores tragédias humanitárias dos últimos tempos. Se não for interrompida, esses números devem crescer rapidamente. Em breve, teremos uma Somália no Mediterrâneo.

Quando o conflito começou, em 2011, a população da Síria era aproximadamente a da Iugoslávia quando suas guerras começaram, em 1991: cerca de 23 milhões. Na década seguinte, mais de 100 mil haviam morrido e cerca de 4 milhões haviam sido deslocadas. Em apenas dois anos, a Síria está se aproximando da miséria para a qual a ex-Iugoslávia precisou de dez.

Então, por que a palavra "Síria" não está em todos nossos lábios? Vinte anos atrás, em 1992, todos falavam da Bósnia. Dez anos atrás, em 2003, todos falavam do Iraque. Nesse ínterim, criou-se uma doutrina sancionada pela ONU, a responsabilidade de proteger, em resposta ao que houve na Iugoslávia e em Ruanda.

Se a responsabilidade de proteger não se aplica à catástrofe humanitária provocada pelo homem na Síria, onde mais se aplicaria? Aí, provocado pela notícia encorajadora sobre um acordo entre Sérvia e Kosovo, costurado a duras penas pela representante de política externa da União Europeia, Catherine Ashton, um pensamento perturbador se introduz: as coisas seriam diferentes se a Síria estivesse na Europa e a Sérvia, no Oriente Médio?

No que tem de mais vergonhoso, isso sugeriria que, para os europeus, uma vida árabe não vale tanto quanto uma europeia. Para não falar de uma vida africana. Mesmo que o número de 5,4 milhões de mortos desde 1998 no conflito armado na República Democrática do Congo seja exagerado, todas essas outras guerras empalidecem. Haja ou não uma espécie de racismo subconsciente em jogo aqui, claramente fez diferença que as pessoas morrendo na ex-Iugoslávia fossem europeias, enquanto no Iraque muitos países ocidentais tinham seus próprios soldados no terreno.

Uma explicação mais honrosa da assimetria do interesse entre Sérvia e Síria é que a Europa, após arrastar todo o mundo para duas guerras mundiais, definiu-se como um continente de paz. Assim, uma guerra e uma tentativa de genocídio em solo europeu questionavam sua própria narrativa central e identidade.

Nós ainda permitimos, no restante da Europa, que outros europeus morram e percam suas casas em grandes quantidades, enquanto nossos líderes pateticamente dizem que "chegou a hora da Europa" - mas ao menos nos preocupamos. A Síria é, para cunhar uma frase, um país longínquo do qual nada sabemos. Nossos próprios homens e mulheres não estão morrendo por lá - exceto alguns bravos correspondentes de guerra e, como foi recentemente noticiado, alguns jihadistas e aventureiros europeus.

No entanto, há outra razão pela qual não fomos engolfados no tipo de debate popular apaixonado que tivemos sobre a Bósnia e o Iraque: ninguém sabe o que fazer a respeito. Na Bósnia, favorecemos o conflito armado entre croatas, sérvios e bósnios. Depois, levamos todas as partes a negociar um acordo pronto com base na aceitação da divisão étnica. Em Kosovo, aplicamos força direta, por ar e por terra, para assegurar uma paz baseada numa divisão étnica ainda mais abrangente. Treze anos depois, a ainda embrionária reaproximação entre Sérvia e Kosovo civiliza essa divisão, ao estilo europeu, ajudada pelo incentivo de uma eventual adesão à UE.

Alguns são tentados, em especial nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França, pela noção de que se permitirmos que o embargo de armas da UE para a Síria seja prorrogado até meados de maio, poderíamos fazer a balança pender a favor dos rebeldes - correção: dos rebeldes certos, e não os detestáveis associados à Al-Qaeda.

Aí, poderíamos costurar uma transição negociada para uma nova Síria pós-Assad. Julien Barnes-Dacey, do Conselho de Relações Exteriores Europeus, argumenta que isso é improvável. Assad não só continuará lutando furiosamente como terá apoio das minorias alauita, cristã, xiita e drusa contra uma oposição hoje esmagadoramente identificada com o islamismo sunita.

Mais importante, ele terá respaldo de potências externas, sobretudo do Irã, que sente seu próprio futuro ameaçado. A guerra, provavelmente, poderia ser ganha para os rebeldes com um ataque aéreo em larga escala e tropas estrangeiras no solo. No entanto, "se você quebrar, o problema é seu". Quem há de querer um novo Iraque?

Embora precisemos aguardar os detalhes de sua proposta, porém, a alternativa radical que Barnes-Dacey esboçou - uma desescalada negociada entre todas as potências envolvidas que concordariam em extinguir, em vez de aumentar, o fluxo de armas e instigar todos seus protegidos no terreno a negociarem um acordo político - parece igualmente improvável.

Eu temo que a Síria possa ser um indício das coisas que virão. Na ex-Iugoslávia, houve a presença avassaladora de um conjunto de potências com a mesma opinião: Europa e o Ocidente. A Rússia foi uma força contrária, assim como a China em menor grau, mas nenhuma delas sentia seus interesses nacionais vitais em jogo na Sérvia - enquanto muitas potências de fora sentem isso na Síria. E, mesmo assim, foram precisos 10 anos, mais de 100 mil mortos e milhões de desalojados para chegarmos a uma paz capenga.

Em um mundo multipolar, com múltiplas potências concorrentes, tanto globais como regionais, interessadas num país fragmentado, essas guerras civis se tornaram mais difíceis de interromper. Desde 100 anos atrás, nas guerras dos Bálcãs que desembocaram na 1ª Guerra, o século 20 tornou-se o mais sangrento da história humana. A menos que desenvolvamos novas maneiras de resolver conflitos suficientemente fortes para conter essa nova desordem mundial, o século 21 será ainda mais sangrento. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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