AFP PHOTO / Mohamed ABDIWAHAB
AFP PHOTO / Mohamed ABDIWAHAB

Na Somália, mulheres desafiam tradição e religião em um campo de futebol

Cerca de 60 garotas treinam no Golden Girls Football Centre de Mogadiscio e sonham em se tornar as primeiras jogadores de futebol feminino profissionais do país; para Mohamed Abukar Ali, fundador do clube, 'chegou a hora de ter coragem de pensar livremente'

O Estado de S.Paulo

21 Março 2018 | 15h18

MOGADISCIO - Na capital da Somália, pouco depois do amanhecer, quando o calor ainda é suportável, um grupo de mulheres chega a um campo de futebol e troca seus hijabs por camisetas verdes e azuis.

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As garotas entram no campo para fazer exercícios com meias grossas sob os shorts para esconder as pernas e gorros para esconder os cabelos, mas ainda assim não se livram do olhar de desaprovação de um punhado de jovens, chocados com a vestimenta apertada demais para a sociedade somali.

Sempre com um sorriso no rosto, conscientes de seu papel de pioneiras, fazem ziguezagues entre cones coloridos, realizam uma série de abdominais e tocam uma bola gasta em um campo de grama sintética. Isso tudo a menos de 200 metros de um posto de segurança vigiado por homens fortemente armados.

Com sua atividade futebolística, essas mulheres não apenas desafiam uma sociedade muçulmana muito conservadora, mas também fazem frente ao medo, onipresente em Mogadiscio, dos islamistas do al-Shabab.

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Afiliado da Al-Qaeda, o grupo realiza com regularidade atentados mortíferos e condenam todo tipo de atividade lúdica, como o futebol - especialmente se praticado por mulheres.

"É evidente que temos medo apesar de usarmos roupas grossas sobre bermudas e camisas no caminho para o campo", diz Hibaq Abdukadir, de 20 anos, uma das 60 jogadoras que treinam para o Golden Girls Football Centre de Mogadiscio, o primeiro clube de futebol feminino do país.

"Quando as meninas vêm treinar, temos que organizar o transporte para trazê-las aqui e depois levá-las em suas casas porque são mulheres e pensamos em sua segurança", explica Mohamed Abukar Ali, de 28 anos, que fundou o clube ao se dar conta de que não havia nenhuma equipe de futebol feminino no país.

"São tantos desafios. Seja pelo lado da segurança ou pela falta de recursos", lamenta. "Mas isto não vai nos desanimar na nossa ambição de criar clubes de futebol feminino no país", completa Ali. "Acreditamos que chegou a hora e temos que ter coragem de pensar livremente", diz ele, que espera conseguir que seu clube tenha as primeiras jogadoras profissionais de futebol da Somália.

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Parecem nuas

Sohad Mohamed, de 19 anos, explica sua experiência: "Há sete meses que jogo futebol, mas a minha família só ficou sabendo há dois meses. Ocultei de minha mão porque ela não me deixava jogar futebol. Agora, já aceita e é algo normal, mas o resto da minha família não este feliz".

Para as mulheres, usar calça, shorts ou camisetas em público continua sendo um tabu na Somália, onde as autoridades islâmicas consideram que a roupa esportiva não é apropriada.

"Venho vê-las treinar, mas, honestamente, não estaria contente se ver minha irmã o fazendo. Não cai bem aos olhos da sociedade porque parecem que estão nuas", diz Yusuf Abdirahman, que mora perto do campo.

Outro curioso, Mohamed Yahye, diz que "não há nada de mal nas mulheres jogarem futebol". "Apesar de que a única coisa que deveriam mudar é a roupa, que deveriam usar algo menos apertado", afirma. "No entanto, desde que não mostrem seu corpo, estarão em conformidade com as regras de vestimenta islâmica."

Mas as Golden Girls pensam além da roupa que vestem e mostram sinais de otimismo e ambição: "Meu objetivo é progredir tanto quanto as futebolistas que jogam para o Barcelona". / AFP

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