Na sombra das bombas de Assad

O drama dos rebeldes sírios e dos cidadãos comuns que tentam sobreviver à violenta repressão da ditadura

Samar Yazbek, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h04

DAMASCO - Ainda não eram 5 horas da manhã da terça-feira. Eu estava deitada de um lado da cama e duas meninas de quem eu cuidava, do outro. Ninguém havia dormido um segundo. Disparos por franco-atiradores ressoavam de vez em quando. Bombas explodiam ao redor. A mãe aterrorizada das meninas entrou no quarto. "O bombardeio piorou", disse.

Corremos para a escada. Mulheres, crianças e alguns homens se juntaram a nós no abrigo. As crianças conseguiam distinguir entre o som das bombas e os tiros de artilharia, os bombardeios distantes e próximos e saber a direção de onde partiam.

Desde que entramos no país, atravessando às pressas a fronteira na noite de domingo, quatro jovens se desviaram do seu caminho para me proteger. Fizeram um buraco na cerca de arame farpado para podermos passar com dificuldade por ele. Uma bomba caiu muito próxima de nós enquanto fugíamos a toda velocidade. Bombas eram lançadas à medida que o carro seguia voando.

Quando atravessamos a cidade de Atarib, no escuro, compreendi o que significa "exterminação". Ela é uma cidade totalmente dizimada: as ruas são crateras produzidas por bombas, as portas das casas queimadas, casas demolidas, ruas vazias. À noite, nem mesmo o latido dos cães é ouvido. Uma cidade fantasma. Nenhum tipo de vida. Aqui e lá, numa rua ou outra, restos calcinados de um tanque do governo.

Nós deveríamos dormir depois da longa jornada pela fronteira da Turquia. Estávamos exaustos. No entanto, em Saraqib, a família da pessoa que me hospedou estava à nossa espera, então sentamos naquela hora da madrugada e eles me falaram sobre os vizinhos mortos, sobre os jovens executados sumariamente na praça da cidade.

Saraqib foi uma das primeiras cidades a se rebelar contra o regime. A punição foi severa: cerco, bombardeios, prisões e assassinatos. Hoje, ela conta com cinco grupos de batalhões do Exército Sírio Livre para protegê-la. Contudo, há franco-atiradores do governo no centro da cidade, com sua bases dentro do edifício da emissora de rádio e TV.

São nove e fazem turnos de 4 horas cada um no prédio protegido por um tanque que, vez ou outra, dispara contra a cidade. Certa vez, quando o Exercito Sírio Livre conseguiu liquidar um deles, as forças do governo responderam bombardeando Saraqib. Os moradores dizem que esses homens perseguem as pessoas e as matam aleatoriamente.

Covardia. Alguns dias atrás, um franco-atirador atirou contra uma menina de 4 anos, Diana, ferindo-a nas costas, paralisando-a permanentemente. Ela era tão pequena e frágil que não pude acreditar como seu corpo não foi totalmente pulverizado pelo impacto da bala.

Na noite de segunda-feira, eu me reuni com um grupo de combatentes do Exército Sírio Livre na cidade de Binnish. O mais velho deles não tinha mais do que 35 anos. Todos plenos de vitalidade e otimismo, mas também exaustos. Apertei a mão de cada um deles, exceto um, que colocou sua mão no coração e se inclinou para mim respeitosamente.

Não eram fundamentalistas islâmicos. Encontrei poucos grupos islamistas e não observei nenhuma ligação com a Al-Qaeda ou adeptos do salafismo, movimento com base em uma interpretação rígida e austera do islamismo. Os jovens me disseram que alguns jihadistas salafistas começaram a aparecer recentemente, mas não constituíam um número significativo.

Quando nos sentamos no terraço que dava para um campo de oliveiras, bombas começaram a cair em torno de nós. Questionei o chefe da divisão, que preparava o jantar. "Vocês não temem que uma bomba tombe sobre suas cabeças neste momento?". Ele respondeu: "Não temos medo. A morte se tornou parte das nossas vidas".

Unidade. Durante o jantar, o principal tema de discussão era Alepo, segunda cidade mais populosa da Síria. Diversos jovens presentes eram do distrito cercado de Salaheddin e estavam dispostos a retornar. No entanto, não quiseram que eu fosse com eles por temor da batalha iminente.

Eu era a única mulher entre eles e os jovens me tratavam como parte do grupo. Durante essa reunião ficou claro que é um erro considerar o Exército Livre Sírio como um único bloco. Trata-se de uma miscelânea de batalhões, incluindo secularistas, islâmicos moderados e pessoas comuns que se juntaram para defender suas vidas e suas famílias.

No fim da nossa viagem de volta para Saraqib, o comandante disse-me que "somos um único povo, nós e os alauitas somos irmãos. Nunca pensamos sobre esse tipo de coisas que o regime está tentando fomentar".

Fiquei em silêncio por um momento até entender o que ele estava dizendo para mim, filha de uma família alauita muito conhecida que apoia incondicionalmente o presidente Bashar Assad. Alguns dos meus parentes me repudiaram publicamente por rejeitar o regime, como muitos outros que anunciaram no Facebook que não mais me consideram um deles. Apertei a mão do comandante e me despedi.

No abrigo, na manhã de terça-feira, as crianças se acotovelaram a minha volta, olhando o que eu estava escrevendo. As mulheres se juntaram para narrar os acontecimentos da noite anterior e sobre os parentes que foram mortos.

Comboios de aproximadamente 15 tanques, que se dirigiam para Alepo, passavam a cada hora. Os jovens me disseram que 80 tanques haviam passado naquele dia e o bombardeio só iria piorar, portanto, deveríamos permanecer no refúgio.

Não havia eletricidade. O ar ficava cada vez mais sufocante. Ouvimos o ruído estrondoso de um caça e depois o som intenso de bombas caindo. O bombardeio foi piorando, o som das bombas mais intenso. Estava muito próximo. As crianças com mais de 10 anos estavam mais inquietas, mas permaneceram em silêncio. Os mais jovens começaram a gritar.

As mulheres tentavam se aquietar procurando conversar sobre outras coisas. Apenas os homens do Exército Sírio Livre estavam fora. Eles se recusaram a me levar junto, dizendo que eu devia permanecer no abrigo com as mulheres e crianças até que a batalha terminasse. Nenhum deles atirava contra os tanques do governo. Eram os blindados que atacavam e franco-atiradores que atiravam e lançavam foguetes. Um jovem me disse: "Eles têm armas mais poderosas, mas temos a coragem e a convicção na nossa revolução. Não vamos deixar que nos humilhem. Estamos prontos para defender nossos lares até a morte".

As mulheres começaram a cantar. O abrigo estava cada vez mais quente. As crianças brincavam com pedaços de mísseis. "Oh jovens, eles chamam isto de Idlib, só vocês podem evitar isto", cantavam, referindo-se com sarcasmo às forças de Assad, mencionando uma das primeiras províncias a se rebelar. "Não se surpreendam com esses tempos de despertar, de força e de vitória. E que caia Bashar." E as crianças repetiam alto o mesmo verso.

Ataques. Quando pararam de cantar, uma mulher acrescentou: "não temos uma noite de sono decente há um ano. Como você pode ver, o bombardeio é contínuo. É assim que estamos vivendo. Os que ainda não morreram ou estão presos esperam por uma morte lenta. Isto tudo porque ousamos sair às ruas e protestar contra Bashar".

Às 2 horas da tarde, o comboio de tanques que se dirigia para Alepo mudou seu curso, o que significava que os bombardeios iriam se acalmar por algum tempo, mas o som dos tiros de franco-atiradores não diminuiu. No entanto, em menos de meia hora, um grupo do Exército Sírio Líbio apareceu.

Seu líder era Amjad, um jovem formado em uma escola técnica de nível médio, proprietário de uma loja de roupas em um mercado em Saraqib que foi incendiado e saqueado pelas forças do governo. Silencioso, os olhos brilhavam. Parecia triste. Não apertou minha mão, mas curvou-se em sinal de respeito e sentou-se com seu grupo.

Enquanto conversávamos, os aviões retornaram, voando baixo. Ouvimos o som de uma bomba, mas a conversa não parou. O arsenal dos rebeldes não se compara às armas do governo. O sucesso que eles obtiveram no campo de batalha contra as forças governamentais dependia da sua bravura. O comandante do grupo não se manifestou no início, mas depois começou a falar.

"Somos um grupo de batalhões autônomos que não obedece a uma estrutura de comando central. Estamos lutando por nossa própria conta. Tem chegado muito apoio estrangeiro para os islamistas. Nós temos o ouro de nossas irmãs e mulheres para comprar munição e defender a cidade", disse.

O comandante disse temer pelo que poderia ocorrer se eles desistirem e o regime sobreviver. "Os jovens se voltarão para o fundamentalismo e o extremismo. A população síria já está empobrecida. Depois de um ano e meio, o povo começou a se cuidar, já que o mundo o abandonou. Temo que as coisas piorem", acrescentou.

Ele, então, se calou e ouvimos o som de uma bomba que caiu. Despedimo-nos com a promessa de nos reunirmos novamente no dia seguinte. Quando retornei ao abrigo, uma mulher apareceu com um novo relato.

"Um vendedor de maçãs chegou a Saraqib hoje e foi morto por um franco-atirador refugiado no edifício da rádio. Uma patrulha do Exército que passava apreendeu o carrinho de maçãs e todos começaram a comer, enquanto o corpo do vendedor estava estendido no chão", contou. "O filho do vendedor gritava pela ajuda de alguém para tirar seu pai dali para enterrá-lo de modo decente. Uma pessoa foi até o jovem e pediu para os vizinhos ajudarem." Antes de ouvirmos o ruído de um avião de combate, a mulher disse: "Pobre homem. Ele era apenas um estrangeiro que queria vender suas maçãs."/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É ESCRITORA, JORNALISTA E AUTORA DO ENSAIO A WOMAN IN A CROSSFIRE: DIARIES OF THE SYRIAN REVOLUTION (UMA MULHER NO FOGO CRUZADO: DIÁRIO DA REVOLUÇÃO SÍRIA)

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