Na Suíça, Suu Kyi pede pressão sobre junta militar

Ativista de Mianmar espera que estrangeiros tenham cuidado para investir sem legitimar a ditadura militar

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2012 | 03h06

Ícone da luta pela democracia, a ativista Aung San Suu Kyi pediu ontem a Brasil e outros países sul-americanos que façam pressão sobre os generais de Mianmar a fim de acelerar a abertura política no país, assim como ocorreu no Cone Sul após o fim das ditaduras nos anos 80.

A ativista iniciou ontem sua primeira viagem pelo Ocidente em 24 anos. Recebida como uma superstar na ONU em Genebra, Suu Kyi usou seu primeiro discurso à comunidade internacional para pedir cautela na ofensiva de multinacionais do setor do petróleo e recursos naturais em seu país, que começa a se abrir. Para ela, o fim das sanções só serve se for para contribuir para a democracia, e não para perpetuar a exploração e a miséria.

"Gostaria de pedir ajuda a investimentos que fortaleçam o processo democrático, promovendo progresso econômico e social que sejam benéficos à reforma política", disse a ativista, que amanhã recebe em Oslo o Prêmio Nobel da Paz conferido a ela 21 anos atrás. Suu Kyi foi detida pela junta militar de seu país em 1990, após vencer eleições locais, e passou mais de duas década em prisão domiciliar.

Respondendo a perguntas do Estado, a ativista afirmou que espera mais do governo brasileiro e de outros da região. "Para o Brasil e, na realidade, para os países sul-americanos, gostaria de pedir que façam os militares de Mianmar entender o quão honrado é ser um Exército profissional, estabelecido para proteger e defender o povo, e não apenas para reprimi-lo", afirmou.

O Brasil foi um dos poucos países Ocidentais a abrir uma embaixada na capital de Mianmar, alegando interesses econômicos. "Sempre que encontro alguém da América do Sul, sinto que estou encontrando alguém de minha família. Vivemos as mesmas experiências em nossos países", disse, em referência aos regimes militares do Cone Sul e de Mianmar. O Estado apurou que Suu Kyi fez questão de falar sobre a situação da América do Sul em um encontro privado com alguns diplomatas das Nações Unidas.

Abertura. "Peço aos investidores que pensem também em nós, não só neles. Claro, precisam de lucros. Mas esses lucros devem ser compartilhados", afirmou Suu Kyi. Seu temor é o de que, com os sinais de abertura, o Ocidente passe a investir no país e manter relações "normais" com o governo. Isso tiraria a pressão por reformas políticas. Empresas americanas já teriam mais de US$ 2 bilhões em investimentos no país, que tem também uma presença importante da China e do Japão.

"A preocupação é com as oportunidades que apareçam diante da mudança", alertou. "Peço investimentos que apoiem a democracia e promovam reformas sociais e econômicas. Peço que olhem as crianças de meu país como seus próprios filhos", disse. Ela pediu que a chegada de multinacionais respeite o meio ambiente e direitos trabalhistas.

Uma preocupação particular da ativista é com o setor de petróleo e gás, principalmente com acordos que, segundo ela, teriam sido fechados secretamente entre Mianmar e a China para a construção de gasodutos. "Não sabemos o que há nesses contratos. Há uma falta de transparência que leva a todo o tipo de suspeitas", alertou. Suu Kyi ainda cobrou os demais países. "Outros governos podem ajudar, impedindo que suas empresas façam investimentos até que o governo de Mianmar adote padrões internacionais nos contratos", insistiu. "Qualquer novo investimento ou suspensão de sanções deve ajudar o processo democrático, e não subtrair dele", disse. "Precisamos ir com cautela. Temos muitos recursos energéticos e não queremos que sejam dissipados", insistiu.

Segundo ela, os sinais de abertura foram bem recebidos pelo povo. "Mas, com o tempo, a tolerância pode acabar se não houver avanços sociais e os distúrbios podem eclodir", advertiu. Para ela, o desemprego entre jovens é uma das preocupações que podem levar a esse cenário. "O que ameaça nosso futuro não é falta de trabalho. É a falta de esperança."

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