Adam Dean/The New York Times
Adam Dean/The New York Times

Na Tailândia, os estudantes criticam os militares (e os 'Comensais da Morte')

Jovens pedem reformas no governo, nova constituição e se opõem a privilégios da família real tailandesa, uma das mais ricas do mundo

Hannah Beech - The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 10h42

BANGCOC - A polícia da Tailândia prendeu nesta sexta-feira, 14, Parit Chiwarak, um dos principais líderes do movimento pró-democracia no país. Chiwarak é um dos rostos à frente das manifestações que ocorrem há semanas para pedir reformas no governo e uma nova constituição. 

No início deste ano, os estudantes começaram a protestar contra as rigorosas normas impostas nas escolas por regimes militares anteriores, como a exigência de que os rapazes usem o cabelo cortado e as garotas prendam o cabelo na altura das orelhas. 

Desde então, protestos cresceram contra problemas mais graves, como o desaparecimento de dissidentes tailandeses. Há semanas, milhares de jovens, muitos em uniformes escolares recatados ou com ícones da cultura pop (como um hamster japonês animado) realizaram atos em todo o país, instando as forças armadas e seus aliados a se retirarem da política e a respeitarem os direitos civis.

No fim de semana e na segunda-feira, grandes multidões se reuniram em apoio aos protestos dos jovens líderes que foram detidos por breve tempo, desafiando as advertências da polícia de que eles também estavam desobedecendo à lei. 

Tradições

O cabelo está penteado para trás e preso em grampos de strass. Óculos de coruja enquadram o seu rosto, e seu uniforme escolar está perfeitamente passado. Benjamaporn Nivas, de 15 anos, não parece um rebelde. No entanto, está na linha de frente de uma revolta de jovens estudantes, na Tailândia, contra a influência dos poderosos militares nas escolas e na sociedade como um todo.

“Quais são os outros países que têm este tipo de normas, além da ditadura da Coreia do Norte?”, questionou Banjamaporn, referindo-se às exigências em relação aos cabelos. “Eles querem que sejamos robôs. A Tailândia pode projetar a imagem de um descontraído destino de férias, onde sol, surfe e sexo se mesclam com indulgência hedonista. Entretanto, o país está engessado por tradições marciais que, segundo os críticos – particularmente os mais jovens –, promovem a subserviência e glorificam as hierarquias que não se coadunam mais à vida moderna.

O primeiro-ministro, Prayuth Chan-ocha, é um ex-comandante militar que orquestrou um golpe militar em 2014, o 12º sucessivo desde um putsch em 1932 que acabou com a monarquia absoluta na Tailândia. Dois outros comandantes do Exército na reserva estão em seu gabinete. Os generais redigiram a mais recente Constituição do país para garantir que os militares mantivessem um poder significativo mesmo depois da realização das eleições.

O governo de Prayuth intensificou os esforços para inculcar a obediência entre os jovens. Todas as manhãs, os estudantes são obrigados a cantar um hino que exalta os 12 valores tailandeses, entre eles disciplina e amor filial. No Dia da Criança, eles realizam excursões para visitar acampamentos militares a fim de admirar tanques e caças a jato.

Mas em vez de entrarem na linha, os jovens tailandeses vão para a rua, pedindo reformas democráticas. No Monumento Democrático em Bangcoc, na semana passada, alguns jovens se reuniram usando trajes dignos de um filme de Harry Potter, curiosos e também nada ameaçadores. Alguns seguravam pauzinhos ou paus, e erguendo-os como varinhas de condão, exigiam que os militares parem de interferir na política e na sociedade.

“A Tailândia tem sido dominada pelo poder nefasto dos Comensais da Morte”, dizia um documento do grupo de estudantes que organizaram o protesto, continuando no tema de Potter. “Chegou a hora dos bruxos e dos trouxas saírem e unirem suas forças para proteger os direitos, as liberdades e a irmandade e reivindicar o poder nas mãos do povo”.

Os manifestantes levantaram as mãos na saudação de desafio de três dedos dos filmes da série Jogos Vorazes, gesto que foi proibido pela junta que orquestrou o último golpe. O domínio dos militares sobre a sociedade remonta a gerações passadas na Tailândia, onde os golpes são quase tão prováveis quanto uma espécie de eleição para moldar a política do país. A norma do corte de cabelos na escola, por exemplo, foi instituída em 1972, quando a nação foi liderada por um marechal de campo  com o apoio dos Estados Unidos.

“Na intenção do governo militar, o estudante ideal, assim como o cidadão, deveria ser passivamente submisso", disse Giuseppe Bolotta, professor adjunto de pesquisa em antropologia na Durham University na Grã-Bretanha, que estuda a Tailândia. O objetivo, afirmou, é fazer com que os jovens “mostrem lealdade e obediência absoluta e estejam dispostos ao sacrifício pelo bem da nação e suas divindades tutelares: monarquia, Budismo e o Exército.”

Mesmo hoje, infrações como usar meias que tendem para a cor ecru ou casca de ovo em lugar do branco imaculado, podem levar à fustigação, apesar da proibição da punição corporal nas escolas. E a convocação para o exército continua um fato normal da vida para os jovens.

“Os valores militares não devem ser questionados e as ordens devem ser seguidas coletivamente", afirmou Netiwit Chotiphantphaisal, o presidente da união dos estudantes de ciências políticas na Universidade Chulalongkorn em Bangcoc. “Isto é imposto nas escolas tailandesas onde os professores afirmam que nós precisamos ser obedientes. Como elas estão em vigor há tanto tempo, nós achamos que isto é normal, e que o governo também deve ser obedecido.”

Em maio, depois dos protestos de Netiwit, Benjamaporn e outros, o Ministério da Educação abrandou as normas referentes ao corte de cabelos dos jovens. Embora permanentes e cabelos tingidos ainda sejam tabus, agora as escolas podem decidir individualmente a respeito do penteado dos seus alunos. Mas muitas, particularmente nas áreas rurais, mantêm as tradições antigas.

Na semana passada, nos protestos inspirados pelo tema de Harry Potter, Amon Nampa, advogado defensor dos direitos humanos que vestia roupa de bruxo, criticou a persistente influência dos militares, mas também falou da monarquia, um raro motivo de protestos públicos no país. A família real, uma das mais ricas do mundo, é protegida por leis de lesa majestade que podem levar os críticos à prisão por até 15 anos.

Na sexta-feira, Amon e outro manifestante foram presos sob a acusação de sedição em razão de outro comício, em julho. Eles foram acusados também de violarem as medidas de emergência impostas para combater o coronavírus, embora as autoridades tenham garantido que as normas não serão usadas para proibir os protestos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.